E se descalço for a melhor sapatilha?

E se descalço for a melhor sapatilha?

Muitos acreditam que os humanos nasceram para correr. Independentemente do motivo que levou o humano a correr, começámos a fazê-lo claramente sem sapatos.

O primeiro exemplo de calçado tinha como objetivo proteger a superfície inferior do pé. O calçado de corrida evoluiu e, atualmente, as sapatilhas modernas têm uma quantidade significativa de amortecimento e estabilização, comercializadas para o conforto, prevenção de lesões e correção de padrões de movimento.

Se, de facto, evoluímos para correr e agora temos sapatos que amortecem e controlam os nossos pés, qual é a origem das lesões?

Claramente, muitos fatores mudaram desde a evolução das nossas espécies, incluindo o nosso meio ambiente, dieta e rotinas diárias de exercício, mas o nosso calçado de corrida pode ter desempenhado um papel importante. Foi sugerido por alguns estudos que as características de amortecimento do calçado moderno alteram a maneira como corremos.

Defensores da corrida sem sapatos sugeriram que ela pode reduzir a incidência de lesões devido à redução do impacto, além de promover o fortalecimento dos pés. Os opositores sugerem que a corrida descalça será associada ao aumento da incidência de lesões devido à falta de apoio e amortecimento das sapatilhas de corrida. No entanto, atualmente, lesões em corredores são bastante comuns, com 79% de lesão num ano. Isso parece um valor excessivamente alto para uma atividade sugerida como necessária para nossa própria sobrevivência.

Durante a atividade, os corredores descalços pousam inicialmente o ante pé. No entanto, 89% dos corredores caem nos calcanhares, o que leva a um o impacto inicial excessivo, que normalmente está ausente num ataque de ante pé. Neste contexto, o aumento de carga foi associado a lesões ósseas e cartilaginosas, tanto em estudos com animais como em estudos humanos.

Ser corredor descalço tem benefícios adicionais.

A corrida sem proteção obriga a perceber o corpo de maneira mais completa. Descalço, percebemos que as sensações fazem parte da experiência e ensinam a correr de maneira mais inteligente, mais precisa e eficiente, de forma a corrigirmos a nossa técnica, a nossa postura e a perceber e respeitar a dor.

Benefícios como o aumento do feedback sensorial na planta do pé tem mostrado melhorar a estabilidade estática e dinâmica; o aumento da noção de posição articular do tornozelo, que poderá levar a uma redução das entorses; a redução do suporte plantar mostrou resultar no fortalecimento da musculatura do arco reduzindo as lesões deste. Como a fasceíte plantar tem sido associada a músculos arqueados fracos, o fortalecimento desses músculos poderá ajudar a reduzir o risco desta lesão comum.

Finalmente, a corrida descalça também está associada a um menor comprimento da passada e a uma maior cadência. A redução do comprimento da passada mostrou reduzir as cargas da coxa e do joelho. A adução da coxa, que está ligada a algumas das lesões mais comuns, incluindo fraturas por stresse, síndrome da banda iliotibial e síndrome da dor patelo femoral, também é reduzida.

É possível treinar descalço e usar sapatilhas nas provas?

Sim, é perfeitamente possível fazer treinos descalços e continuar a correr e a fazer provas com sapatos. Scott Jurek explica que correr descalço não precisa de ser uma abordagem linear. Como qualquer técnica de treino, ela pode incentivar uma mudança positiva e beneficiar o corredor, seja para o seu desempenho ou prevenção de lesões. Todas as coisas que vamos aprender com a corrida descalça vão continuar a ser muito úteis quando corremos com sapatilhas.

* Fisioterapeuta ROPE - Reabilitação e Otimização de Performance | Clínicas Nuno Mendes