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Western States Race

Gordy, o ultra movido a loiras que inventou o inferno

Gordy, o ultra movido a loiras que inventou o inferno

A Western States Race, nos EUA, é um inferno de 100 milhas que este ano é corrido pelo português Mário Leal, criador do Azores Trail Run. O ultramaratonista Rui Pinho acompanha-o e conta-nos, dia a dia, o que é estar na prova que fez história para o trail. Eis o dia 1. Ou a génese da história.

Gordy Ansleigh é provavelmente a maior lenda do trail mundial. Homem de mais 1,90m, longas barbas brancas, cabelo comprido penteado para trás e corpo seco mas forte, adepto da escalada e do ciclismo de montanha como complemento à corrida. No verão de 1971, vivia com a mãe e a avó num dos imensos vales do norte da Califórnia, perto da sua terra natal, Auburn, quando lhe chegaram relatos de um doido que desatara a matar toda gente, casa a casa. Gordy foi a correr avisar um vizinho com telefone, para que pudesse avisar todos os que tinham telefone, saindo ele a correr pelo vale para poder avisar todos os que não tinham telefone em casa. Em seguida recolheu os que não tinham armas em casa e levou-os para casas onde havia armas para se poderem defender. Começou aqui a sua fama de corredor.

Naquele tempo, a Tevis Cup, prova de 100 milhas a cavalo atravessando as dificuldades da Serra Nevada e dos seus imensos cursos de água, era o grande objetivo de vida de Gordy. Como qualquer jovem, a vida tinha tempo, mas sem a glória de poder concluir a Western States Race (WSER) - 100 milhas em 24 horas, o maior evento anual de Auburn, seria uma vida com forte desilusão. Em 1973, como um bom "pinga amor", decidiu oferecer o seu cavalo à namorada de então. Comprou um outro que não tinha as mesmas capacidades atléticas. O cavalo lesionou-se com tantas subidas e descidas técnicas da agressiva Serra Nevada e todos os vales e ribeiros que o percurso oferece, tendo o jovem Gordy que enfrentar a desilusão de não concluir a prova.

Uma mulher da organização disse-lhe, meio a sério, meio a brincar, numa tentativa jocosa de consolo: "Deixa lá. No próximo ano fazes isso a correr". Gordy tinha um enorme ego, maior que os seus mais de 1,90 m que explanavam os seus bem compostos 26 anos, mas não abraçou de imediato o desafio. Pensou antes que no ano seguinte teria um cavalo mais capaz. Mas o ano seguinte chegou rapidamente e Gordy não tinha outro cavalo.

Ora, como a vontade de fazer parte do evento era maior que o medo de percorrer a pé o que a cavalo muitos não conseguiam, Gordy treinou os segmentos do percurso que sabia mais difíceis, fazendo quatro vezes em seis semanas as 40 milhas (64 km) mais expostas - sem sombra e de fácil desidratação -, correndo uma hora por dia nos restantes dias dessas semanas. Colocou estrategicamente pelo percurso comida e bebidas energéticas (hoje são esses locais os postos de abastecimento da prova).

No dia da prova foi para a linha de partida sem nenhum cavalo e sem saber se a namorada lá ia estar para o apoiar, ou em algum ponto do percurso para o ver. Não apareceu. Gordy partiu com os cavalos com um "Good luck, Gordy" dos organizadores como conforto. Com a força do treino, a motivação de ninguém para além da de acreditar que seria possível chegar a Auburn no tempo limite, e o fresco da primeira grande subida da prova, a mais de 2400 m, foi passando cavalos e ganhando esperança para o que faltava.

Com tanta ambição e tão pouco controlo do esforço, ao fim de 15 milhas sentia as pernas explodir, mas Gordon não vacilava. Na enorme descida desde a Serra Nevada para o vale e seus desfiladeiros, acabou por sucumbir ao cansaço e ficou sem poder correr. Tinham sido mais de 30 km exposto ao sol implacável do verão californiano. Desidratado e sem forças, começaram os pensamentos negativos por não ter tido a sua amada na partida. Decidiu desistir.

No meio do vale, num ribeiro de forte caudal, ajudou um cavaleiro a tirar da água um cavalo que sucumbira ao calor. Pensou, "se os cavalos não aguentam, é normal que eu também não aguente, sou muito menos forte e tenho menor aptidão física para este esforço". Ia formando na sua cabeça a ideia de ficar onde tivesse forma de voltar para casa.

Ao sair desse desfiladeiro, no fim da subida estava já completamente desidratado e mal conseguia andar, quando vê um velho e um rapariga linda de longos cabelos louros. Competidores da Tevis Cup, com os cavalos lesionados, esperavam ajuda. O velho deu-lhe umas pastilhas de sal e a rapariga fez-lhe uma massagem nas pernas, tentando convencê-lo a continuar.

Gordy, mulherengo ainda aos 71 anos, era naquela altura ainda mais. Diz que não terá recuperado a força nas pernas, mas à medida que a rapariga lhe massajava as coxas, Gordy reparava que afinal ainda havia partes de si a ganhar vida. Usou a motivação feminina como força para continuar e seguiu caminho, entusiasmado.

Ao chegar às 80 milhas de prova, num dos pontos onde o público encorajava os cavaleiros e onde havia a possibilidade de escolher um "guide rider" (um guia a cavalo) para ajudar os competidores na fase final do percurso, encorajou-se ainda mais. Era já fim do dia, o cansaço acumulava-se, mas de repente... Gordy vê a namorada. Cheio de orgulho, dono de um enorme ego, Gordy dispensa a sua ajuda ou conforto e procura a loira que o tinha recuperado para a corrida com o pensamento de dupla vitória: vingar-se do abandono, impressionando a loira escultural com quem cruzara olhares no seu purgatório.

Gordon foi com a companhia da bela mulher até à meta, onde chegou 23h42 depois de partir, concluindo a sua primeira participação. Criava assim uma prova mítica e um desporto que apaixona novos e velhos, homens e mulheres. A mulher desta história acabou por sair da vida de Gordy, ficando apenas o gosto pela corrida de resistência em geral e pela WSER em particular. Já a concluiu por 22 vezes, a última em 2016, e tem um dos 369 lugares reservados sem ter de se sujeitar ao sorteio, mas com a premissa de se qualificar como qualquer outro, tendo para isso de concluir uma das provas definidas como tal.

Destino de açorianos

Hoje, Auburn vive o Trail e as provas de resistência de uma forma apaixonada e particular. Dos cavalos às bicicletas, passando pela corrida a pé, quase todos os fins de semana há provas que cruzam os enormes desfiladeiros que descem da Serra Nevada para os vales do Oeste californiano, outrora destino do "sonho americano" e da corrida ao ouro do século XIX. No século XX foi destino de muitos açoreanos, pelo que é comum encontrar descendentes desses pioneiros lusitanos, ou mesmo alguns ainda nascidos no arquipélago atlântico.

As montanhas que separam o Estado do Nevada da Califórnia separam também o "El Dorado" do trail mundial: a Oeste a riqueza natural, a Leste o vale da morte, palco da Badwater de boas memórias para os portugueses.

Numa prova já ganha pelos grandes nomes do Trail mundial, de Kilian Jornet a François D'Haene, podemos considerar esta como o "American dream" de qualquer praticante deste desporto. As exigências de entrada variam entre conclusão de provas de resistência e serviço de voluntariado. Apenas dois portugueses conseguiram concluir a prova, dos três que tentaram, Fernando Fernandes e Tiago Dionísio, em 2010 e 2006, respetivamente.

Este ano um tentará a mesma façanha - Mário Leal, diretor e organizador dos eventos do Azores Trail Run, provas cada vez mais projetadas no panorama internacional e cujo prestígio lhe valeram o convite, uma das formas de poder estar na lista de inscritos.

A WSER é o exemplo do que é mais importante nas ultras, a solidariedade, a entreajuda e a lealdade e respeito pelo outro em vez da competição. E isto explica que uma prova com 369 atletas tenha mais de 1500 voluntários, muitos deles nomes que constam da lista de mais de cinco mil que foram a sorteio e que se voluntariam para ajudar, dar guarida ou apenas apoiar. Isto e o facto de Auburn, uma pequena cidade arborizada com cerca de dez mil habitantes, ter uma tradição quase centenária de vivência de corridas.

Esta quarta-feira, primeiro dia do evento, houve um pequeno churrasco num parque, com música, country claro, ao vivo, e onde não faltaram as tradicionais iguarias regadas a cerveja regional, em sã e animada convivência entre atletas e muitos pioneiros da WSER - sexagenários que orgulhosamente ostentam as sua fivelas de finalistas de edições passadas.

Todos os presentes na festa estavam identificados com o nome e o país de origem ou a localidade no caso dos americanos, proporcionando assim a fácil troca de apresentações. Multiplicaram-se as conversas de aconselhamento ou o simples brindar ao facto de, ano após ano, aqueles veteranos poderem apadrinhar o sonho de mais alguns em busca da "fivela" de finalista da WSER. E por lá andavam as loiras de outrora, simpaticamente a trocar cumprimentos circunstanciais com os novos aspirantes a heróis da corrida.

Gordy, obviamente, não falha estes eventos. Lá estava para dois dedos de conversa com quem o interpelava, sorriso nos lábios, aumentando exponencialmente a expressão de alegria quando uma "miúda" de idade ou aspeto aproximado à "loira" da sua epopeia se aproximava dele. Diz Gordy que gosta de flirtar e que a sua mulher não se importa, desde que não vá para além da sedução cavalheiresca. Mantém a barba como símbolo da masculinidade e corre maioritariamente em tronco nu, para, diz, continuar a impressionar. Quiroprático de profissão, tem entre os seus passatempos o ciclismo de montanha, a escalada, a prova de vinhos ou as festas de jardim em casa rodeado de amigos. A sua mulher é a sua companheira de vida e Auburn a sua cidade Natal. Vive nos vales que lhe deram fama e onde pode continuar a desfrutar da paixão pela natureza.

As ultramaratonas cansam, mas fazem-nos a todos envelhecer de uma forma saudável e apaixonada. E à medida que vamos descobrindo os "Gordys" deste desporto, chegamos à fácil e evidente conclusão de que a vida, como as ultra maratonas, deve ser levada com um sorriso nos lábios e com paixão, sem ela sucumbimos aos desfiladeiros que nos vão aparecendo recorrentemente. A expectativa é a de ter sempre motivação para seguir em frente, um passo de cada vez até não conseguirmos ser capazes de o fazer.