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Leandro Pires: "Muitos jogadores da Liga Revelação vão dar que falar"

Leandro Pires: "Muitos jogadores da Liga Revelação vão dar que falar"

Aos 39 anos, e apenas na sua terceira experiência como treinador de um clube, Leandro Pires já ganhou um pequeno espaço na história do futebol português, ao orientar a equipa sub-23 do Desportivo das Aves na conquista da primeira edição da Liga Revelação. O técnico, que também se notabilizou como jogador ao serviço dos avenses, durante dez temporadas, vaticinou um futuro promissor para esta competição, não tendo dúvidas que muitos dos atuais protagonistas serão os próximos talentos dos grandes palcos nacionais e internacionais, provando que não é apenas das fileiras dos grandes clubes que saem os craques de amanhã.

As decisões do título da Liga Revelação estiveram reservadas para a última jornada do campeonato, isso é um sinal da competitividade da prova?
Sem dúvida. Ao longo de todo o campeonato, vimos partidas muito equilibradas, onde raramente aconteceram resultados desnivelados. É uma prova da qualidade, mas também do facto de todos os clubes participantes se terem aplicado a fundo, proporcionado boas condições de trabalho para os jogadores evoluírem.

Estamos perante as próximas revelações de talento do futebol português?
Eu acho que já o são, mas acredito que muitos dos jogadores que alinharam nesta Liga Revelação, não só no do Aves como nas outras equipas, vão dar que falar e continuar a revelar talento. Percebi, ao longo das jornadas, que há muita qualidade e estou certo de que muitos vão ter grandes carreiras no futebol profissional. No caso do Aves, já temos o Luquinhas, que vindo da equipa sub-23 se afirmou na nossa equipa principal, aproveitando as oportunidades que o Augusto Inácio lhe deu, e está a dar a outros. Isso é uma motivação extra para todos os jogadores que estavam no grupo, sentiram que a qualquer momento podem ser chamados.

E é também um evidente benefício para os clubes...
Claro, os clubes têm todo interesse em potenciar e valorizar os seus jovens atletas. Todos sabemos as dificuldades por que passam grande parte dos clubes portugueses, e a solução é apostar no produto das suas formações para o rentabilizar desportivamente e financeiramente. Até porque sabemos que muitos clubes estrangeiros já estão atentos a esta Liga Revelação.

Há pouco, falou do salto do Luquinhas para a equipa principal. Apesar da satisfação de ver essa evolução, não ficou, como treinador, frustrado por perder um bom jogador no seu plantel?
O que fica é uma satisfação, pois o principal objetivo da equipa sub-23 é potenciar jogadores para serem um ativo do clube e da equipa principal. O nosso trabalho é mesmo este.

Como surgiu o convite para treinar o Aves, substituindo o Filó já com a época em curso?
Estava sem treinar, depois de ter iniciado a carreira como técnico no Vianense, em 2015, e passado pela A.F. Viana do Castelo e ainda pelo Cerveira. As pessoas do Aves lembraram-se da minha passagem pelo clube, como jogador [dez épocas] e não podia recusar. Senti-me lisonjeado. Foi uma oportunidade para testar as minhas capacidades num clube que conhecia a forma de estar e trabalhar, e num campeonato que também é uma montra para os treinadores. Não se deve voltar a uma casa onde já se foi feliz, mas a verdade é que voltei a ser feliz no Aves.

Foi-lhe feito algum pedido especial em termos de objetivos?
Unicamente potenciar estes jovens para serem ativos do clube. Mas claro que há, depois, a ambição pessoal. Acho que um jogador que consiga bons resultados com a equipa será sempre mais valorizado.

Caso não vencesse o campeonato, o objetivo estava na mesma cumprido?
Depois de estarmos nesta posição, seria um amargo de boca não vencer. Fomos muito regulares durante a época e sentimos que tínhamos todas as capacidades para vencer este título.

Além do jogo final, há algum outro que tenha sido marcante?
A derrota que tivemos com o Feirense, na primeira fase da competição. Senti que isso marcou a nossa prestação, porque, na palestra a seguir, vi na cara dos atletas que não estávamos satisfeitos. Percebi então a verdadeira força do grupo e o seu caráter. A partir daí, demos a volta a uma fase menos boa e acabamos esta fase final apenas com uma derrota.

Sente que, além do Aves, o Rio Ave e Sporting foram as melhores equipas do campeonato, tal como dita a classificação?
A estes três, também junto o Sporting de Braga, Benfica e Estoril. Aliás, todas as equipas nesta fase final tinham competência para lutar pelo título. Sinto que fomos mais regulares, com o melhor ataque da primeira e segunda fase, e uma das melhores defesas. Merecemos o título.

Apesar de Sporting e Benfica partirem com o rótulo de favoritos, pelo potencial dos seus escalões de formação, esta Liga Revelação provou que também se trabalha muito bem nos outros clubes?
No caso do Aves, este foi um grupo quase composto para esta competição, enquanto que no caso do Benfica, Sporting, Braga ou Vitória de Guimarães, os jogadores surgiram num processo de transição dos escalões de formação. De qualquer forma, em todos os casos, vimos que a este nível os clubes portugueses trabalham muito bem, e que conseguem ter um leque de jogadores de qualidade.

Acha que as equipas sub-23 tiram espaço à existência de equipas B?
Acho que a Federação Portuguesa de Futebol olha para esta competição como realmente direcionada para os jovens, porque os regulamentos contemplam a limitação da idade, o que não acontece com as equipas B. Mas acho que podem ser conjugadas, sobretudo nos grandes clubes que têm muitos atletas, e beneficiam de poder aproveitar o potencial de todos em diferentes competições.

No caso do Aves, houve um contacto permanente entre os responsáveis da equipa principal e dos sub-23?
Sim, já tinha existido com a equipa técnica do José Mota, mas com a chegada do Augusto Inácio aumentou. Conseguimos dar oportunidades aos mais jovens, mas, também, aproveitar a equipa sub-23, que tem duas vagas para atletas mais velhos, para poder dar ritmo a jogadores do plantel principal que não estão a jogar com tanta regularidade. E todos reconhecem que foi benéfico, porque esta Liga Revelação é muito exigente.

Há garantias de que alguns dos jovens que venceram o título estarão na equipa principal do Aves na próxima época?
Achamos que os dois plantéis não têm de ser compartimentados. Se houver uma boa ligação, os jogadores podem fazer um trajeto entre as duas equipas, tanto os sub-23 evoluírem na equipa principal, como alguns da equipa principal poderem dar o contributo aos sub23.

A nível pessoal, já está a preparar a nova fornada de talentos do Aves para a próxima época?
Ainda não sei qual será o meu futuro, mas já estou a preparar a próxima época em prol do clube. Considero que é importante dar um passo de cada vez; não é pelo facto de ter um título nacional que já sou um treinador feito. Tenho muito para evoluir, vamos analisar o futuro. Sem ambições desmedidas, prefiro passos pequenos e sustentados.

Apesar desses passos pequenos, há ambição de um dia treinar a equipa principal do Aves?
[risos] Quem sabe, no futuro... treinar uma equipa profissional, como o Aves, seria sempre um sonho....

Quem são as suas referências com treinador?
O Paulo Fonseca foi um treinador que me marcou muito. Identifico-me com sua personalidade, conhecimentos e a forma metódica de trabalhar. Mas não posso esquecer do professor Neca, que me trouxe para o Aves como jogador, ou Vítor Oliveira, que impressionavam pela liderança e pelo conhecimento do jogo.

Já se sente treinador, ou às vezes ainda pensa como jogador?
A nível emocional, ainda tenho um pouco de jogador, por envolver-me em demasia com o que está acontecer dentro do campo, mas estou a evoluir para pensar de forma mais abrangente como treinador.