Meia maratona

Não roubei, afinal, cerejas

Não roubei, afinal, cerejas

Perdida nos pensamentos que a solidão de uma corrida intimista permite - éramos quase 100 a descer do topo da Serra de Bornes, na loucura do declive da nacional 315 - é Daniela que me ocorre.

Daniela. Em 2006, parei ali. Em Sambade, numa outra corrida. Contra o tempo. Seguia atrás do fim da história de infâncias como a de Daniela e vinha de carro. O largo de Sambade ficou gravado na memória, a igreja e a escola primária, que ainda brilhava de tinta fresca quando entrei, com o Leonel, na sala de Daniela. Era a única menina da sala. Era única aluna da turma. Era a única criança da escola. E era a última. Hermínia Tiago de Sá partilhava toda essa solidão com Daniela. E com Boneca, a cadela da menina, que não haveria de perturbar uma lição tornada particular havia meses. "Deixo-a trazer a cadela, já que estamos aqui sozinhas. Às vezes, vamos ao café juntas. Para não estarmos sozinhas".

É com este diálogo na mente que atravesso Sambade, não sei quanto tempo depois de sair do terreiro junto ao Spa de Alfândega da Fé, irreverentemente plantado acima dos 1000 metros da vista mais imperdível para Trás-os-Montes. Não contei os minutos nem os quilómetros, porque tudo aquilo que desfilava perante o meu olhar (e, saberia no dia seguinte e, sobretudo, no outro a seguir, debaixo dos pés) era o redescobrimento da tal outra corrida, no ano em que Alfândega da Fé ficou sem nenhuma escolinha para contar vidas como a de Daniela. No ano em que Lisboa ditou o encerramento de 1500 primárias e a concentração em polos escolares. Na altura, era fevereiro, a corrida era gélida, as mãos esfregavam-se ao sol. Desta feita, é junho. E os pensamentos rolaram emoldurados pelo chilrear dos pássaros, pelo odor da terra quente, pelo rubor das cerejas, gordas, e das papoilas, afoitas. É da Meia Maratona da Cereja que falo e de como uma corrida simples e intimista, ainda que em prova organizada, pode devolver tanto a quem se cansou de multidões. A quem recorda a timidez de Daniela e da sua Boneca, sozinhas numa escola vazia, como um dom divino.

A promessa era a da meia maratona mais rápida do país, a de um percurso em descida, a de uma mão cheia de cerejas na meta. Meias verdades. Não é a mais rápida porque não é em descida mas há cerejas. Digam-me que é das meias maratonas mais bonitas e já aceito a publicidade. É. Por tudo. A começar na linha de partida: uma fita de obras vermelha e branca segura ao chão por dois pedregulhos, um tiro (literal) de partida e o abraço àquele pedaço de Trás-os-montes, de Mirandela a Alfândega da Fé, da Mirandela onde dormi na Dona Fina onde acordar é um sorriso na alma à Alfândega onde sabia perdida a memória de Daniela. Sabia que ia descer, conhecia a estrada, já estivera em Sambade. Retardei a passada, deixei-me ficar para trás e fui a sorver, no silêncio das minhas sapatilhas a sobrevoar o asfalto sem o irritante som das passadas de outros (não sei explicar, mas um corredor nunca ouve os seus próprios passos). Seria das últimas e feliz por isso, porque ouvi a passarada, porque houve até um momento em que julguei parar para roubar um brinco de cerejas da frescura do ramo, porque toda a gente respondeu aos meus bons dias, porque dá para cumprimentar toda a gente na desertificação do nosso interior.

Na noite anterior, à mesa da Taberna do Largo de Bronceda, debatia o desejo de largar o Porto e assentar arraiais num sítio pequeno, onde a canalha pode correr na rua, onde cheira a campo e os cães vêm ter com as pessoas nas aldeias, onde não há trânsito. A visão das cerejas dependuradas sobre as papoilas confirmaram a esperança de, um dia, quiçá, viver do cheiro da paz. Até que surgiu Sambade - ainda o percurso descia a bom descer. Um casal cumprimenta do portão para a rua, um muro alvo grita o nome da freguesia em letras prateadas, um carro espera para atravessar desde o largo da igreja e ali, à direita, a escolinha de Daniela. Revejo o Leonel a fotografá-la e decidi que haveria de ir descobrir o retrato para ilustrar esta crónica.

Sei que Alfândega da Fé é a dez minutos de carro, fartei-me de fazê-los nesse longínquo 2006, e percebo, pelo costume de correr, que não passaram dez quilómetros desde o topo da Serra de Bornes. Percebo que não há milagres, que assim como a escola de Sambade fechou, vou ter que subir que não vai ser brinquedo. Só não sei, ainda, que me espera um carrossel.

Metade, mais coisa menos coisa, dos 21 km e uns trocos da corrida foram a descer. Praticamente 500 metros na altitude. E descer tudo isso é a morte certa das coxas, podem acreditar. E descobre-se essa triste realidade mal vem a primeira subida - pareceu-me uma parede - depois de a rota sair da nacional e meter pela estrada que contorna a barragem da Estevainha. Havia cães no caminho, havia tratores e restos de terra, havia o silêncio absoluto e borboletas. E papoilas. E cerejas. E as dores, cada vez mais presentes, nas pernas. E bombeiras - Alfândega é uma terra de mulheres bombeiras, um ramo de sorrisos espalhados desde a Serra de Bornes - e uma agulheta a regar-nos o suor. E mais paredes e as marcas da passagem de gado e o campo, em todo o seu esplendor, e alfandeguenses a aplaudir, um aqui, outro além, centenas de metros de solidão depois. Seria alguma daquelas mulheres uma Daniela?

Nunca saberei. Regresso à nacional e daí para outra municipal e continuo no carrossel até à Torre do Relógio de Alfândega, no casco histórico recuperado com primor. E daí foi de novo a descer. Até voltar a subir, estes alfandeguenses são uns aldrabolas. Riem-se da afirmação, felizes, no descanso da vida sem pressas. E surge a meta e aplausos. Éramos demasiado poucos. Éramos felizmente poucos, as cerejas sobraram, penso em Daniela de novo e nas primeiras edições de corridas de montanha nos Açores, meia dúzia de meias dúzias de doidos numa partida, o silêncio da natureza como claque. É belo correr neste intimismo. É belo poder saudar quem espera pela passagem das horas porque é dia de Portugal, de Camões e das Comunidades e há tempo para esperar. É belo poder passear pelo passado e pelo futuro e perceber que a vida é bonita, mesmo com banhos de água fria. Como Trás-os-Montes e as suas cerejas em jeito de medalha, na paisagem e na meta. Como o retrato de Daniela de Sambade com a Boneca.

Não roubei, afinal, cerejas.