Western States Endurance Run

Ode aos resilientes resistentes

Ode aos resilientes resistentes

O tempo que leva a digerir o desafio de correr mais de 160 quilómetros pode longo. Pode ser muito maior do que as mais de 28 horas que Mário Leal, do Azores Trail Run, levou a engolir a Western States Endurance Run, na Califórnia. Acabou. Aplaudido por açorianos como ele, que por ali se instalaram. Rui Pinho, foi pacer na segunda metade, para garantir que Mário chegaria ao fim. E escreve aqui uma ode aos resilientes resistentes.

A rainha das corridas não é definitivamente para corredores. Ganha por atletas, só pode ser concluída por ultra corredores, quer tenham adquirido tal capacidade (ultra) numa das provas de qualificação, visto que para entrar na WSER é obrigatório fazer uma delas, quer seja uma mais-valia de última hora, numa das muitas mudanças que todos sentimos ao mergulhar no maravilhoso mundo da (ultra) resistência humana.

Numa prova desta dimensão, seja nos quilómetros anunciados, ou milhas, já que os americanos "herdaram" dos ingleses esta tendência para serem diferentes do resto do mundo - felizmente não adotando a condução à direita -, seja porque o tempo disponível para a concluir é curto, todos os pormenores contam, mas nenhum deve ser levado demasiado a sério. É o paradoxo do não ser para se poder ser. É quase ridículo, mas é a realidade de quase todos os que fazem estas loucas viagens ao limite.

"Quase", porque há alguns que parecem sobre-humanos e se transcendem com uma facilidade assombrosa, como o supersónico vencedor - Jim Walmsley que galgou literalmente as 100.2 milhas desde Squaw Valley até Auburn e os seus mais de 5000 metros D+ numas pornográficas 14h09, 20 minutos abaixo do recorde da prova que este simpático rapaz de 29 anos lograra conquistar na edição de 2018. No feminino, a também americana Clare Gallagher vingou a desistência de há um ano, ganhando literalmente ao "sprint" esta louca corrida, que contou com um número simpático de finalistas - 319 em 369. O último classificado dentro do tempo limite, e que teve provavelmente o maior aplauso do dia, foi um hawaiano que venceu o relógio por 22 segundos. Já o primeiro azarado chegou quatro segundos depois do impiedoso relógio marcar as 30 horas. Não ganhou a almejada fivela de bronze, mas não terá sido menos resistente que todos os outros.

Os homens e mulheres que se desafiam nestas longas distâncias, muitos deles gente com passados pouco ligados à corrida ou mesmo ao desporto, são principalmente destemidos corajosos com objetivos que interessam a poucos mais que aos próprios e aos que lhes são próximos, a estes provavelmente por simpatia. Há no Ultra Endurance um assalto ao bem-estar que todos procuramos nesta passagem terrena, que inclui obviamente a família e amigos. Mas mesmo que estes acompanhem quem se perfila nestes desafios, todos os que ali estão são gente solitária carregada de braços prontos a ajudar, mas aos quais faltaram abraços em todas as horas dedicadas na preparação do que se vai ali tentar.

Tal como na História da Western States Endurance Run (WSER), há um acaso na história de cada um, que os levou a um desafio extremo, e que a todo o custo estão dispostos a concluir. No limite, todos ganharam, mas, olhando bem, não houve nenhum que não tivesse perdido. Nas ultras forjam-se ultra atletas. Mesmo aqueles que não acabaram a WSER ganharam mais um pouco de ultras e de bagagem que os levará à inevitável glória. A vencedora deste ano lesionara-se muito próximo do final, há um ano, o que a obrigou a abandonar. A vencedora de há um ano desistiu por lesão este ano, já depois dos 130 km. Há quem tente e volte a tentar e não consiga e mesmo assim não desiste.

Ser ultra é ser algo mais para além do normal, e isso nota-se especialmente na WSER. É não temer o outro lado, o desconhecido, o eventual abismo. É resistir. É ser-se capaz de desafiar medos e limites, sem temer falhar. Porque a falha será sempre inevitável para a conquista seguinte, seja na mesma ou numa outra qualquer corrida. Tudo é aprendizagem, tudo é caminho. E tudo é aqui enaltecido. É principalmente saber-se que ainda não conhecemos o fim da linha, que não vai haver panaceia que nos trate as dores, as bolhas, o sono, o cansaço ou a má disposição. É sabermos que o mundo não vai acabar ali, embora estando ali, naquele dia, o nosso destino no mundo.

Destinados para desafiar medos e limites, é esta a característica número um de um ultra corredor. Como Gordy Ansleigh fez em 1974, ao mergulhar no absoluto desconhecido quando se dispôs a correr o que muitos não conseguiam a cavalo, há agora milhares que o fazem pelo mundo fora. Porque mais que ter medo de falhar, é a esperança da glória que nos faz a todos mover.

Mas tal como Gordy em 1974, não é no dia em que colocamos o dorsal que está a nossa certeza de sermos ultras. Não. Essa aparece quando menos se espera, numa subida ou descida aos fundos do inferno, numa lesão inoportuna, numa queda, numa desidratação ou numa má escolha de calçado; será sempre numa dificuldade inesperada de uma prova que se revelará o ultra em cada um dos corredores. Levantam-se, nessa mesma dificuldade ou numa oportunidade futura, e acabam por sair vitoriosos sobre o medo e as falhas. Os que não são, não voltam. Ali não haverá nunca outro remédio que não o da capacidade de transcender limites.

Coragem. "Coragem não é a ausência de medo, mas julgar como mais importante algo para além do próprio medo". As ultra distâncias são novas conquistas que nos sugam e motivam, de que nunca iremos abdicar e que sempre nos hão de vencer. O segredo é juntar cada dificuldade num aglomerado de átomos que nos levem à linha de meta ou até à próxima linha de partida, trabalhando o que nos impediu de concluir a mais recente tentativa.

Mais um português concluiu esta rainha do endurance, o quarto - ao contrário do que eu tinha escrito, já que um açoreano (obviamente, com tanta presença açoriana por esta bela Califórnia fora) - Nélson Medeiros, 44 anos, a terminara de bandeira nacional ao vento, há um ano, no mesmo estádio onde o Mário Leal entrou no passado domingo, 28.41 horas depois de partir na fria Squaw Valley. Fustigado pelos canyons, abalado pelos quilómetros, pés destruídos por bolhas que brotavam a cada quilómetro pelos secos e quentes trilhos depois de demolhados nos imensos ribeiros. Cruzando os vales da Sierra Nevada, outrora de garimpeiros em busca de uma chance de riqueza do Rio Americano, foi até ao bronze da fivela, símbolo dos que conquistam a meta em Auburn, a autodenominada capital mundial do Endurance. Mais rico com esta fantástica experiência, levando a cada um dos que com quem se cruzou um pouco mais dos Açores - é impressionante a quantidade de açorianos e seus descendentes que encontramos nestes dias, seguramente mais próximos de voltar a "casa", com uma corrida como motivo adicional -, e divulgando por uma enorme comunidade desportiva um destino que é seguramente cada vez mais conhecido e desejado por todos os que dele ouviram falar.

Mais ricos ficamos todos os que pudemos assistir ao esforço de tantos, os que correram e os mais de 1700 que de fora vão puxando os menos animados e empurrando os mais capazes. Scott Jurek, Dean Karnazes, Gordy Ansleigh e tantos outros nomes mais ou menos famosos estavam ali, a apoiar, como pacers ou apenas a incentivar. Um de nós em cada um deles. Não há em nenhuma outra modalidade este espírito, porque eles sabem o que custa. E nós sabemos todos que eles sabem e sentem-nos também como sendo parte de um grupo de gente diferente. Em cada dificuldade que encontramos, descobrimos mais uma força que não sabíamos ter e um amigo que nunca mais iremos esquecer. Inesquecível a minha experiência também como "pacer".

"Good job" era o que mais ouvia sempre que "levava" o "meu" atleta até um, mais um, abastecimento. Imediatamente "escoltados" por um ou dois dedicados voluntários, éramos tratados como desejaríamos se nos fosse concedida a premissa de delinear tal apoio e a forma perfeita de o fazer. Irrepreensíveis, levam os imensos "pacers" e membros de equipas de apoio a fazerem parte da corrida de cada um dos atletas, fazendo com que esta seja uma experiência inesquecível para milhares de pessoas. Tudo decorre em festa, solidariedade e respeito. Toda a gente cumpre normas, não há quem as contorne, já que as falhas das equipas desclassificam imediatamente o atleta, sejam estas de estacionamento em zona não permitida ou permanência no trilho em zona não permitida. Todos contam e é também isto que faz desta uma prova especial.

Memorável corrida. Memoráveis momentos. Maravilhosa descoberta de um mundo antigo (46ª edição), aqui na terra do Sonho Americano, já antes descoberta por um sem número de portugueses, quase todos açorianos, que viram agora mais um deles concluir a "mãe" de todas as provas de ultra resistência. E assim vemos como os pequenos se fazem grandes, carregados de fibra de resistentes, com trabalho, crença e capacidade para cair e voltar-se a erguer. Resilientes resistentes.