O Jogo ao Vivo

Alvão

Que viagem tão bonita, Albertina

Que viagem tão bonita, Albertina

É preciso dureza para um trail nos encher a alma? Não. É preciso montanha e beleza. E isso, o Ultra trail do Alvão dá em dose múltipla. Não haja medo de passar o Alvão e ir lá mandar um bocadinho com os que lá estão...

Albertina contempla, em paz, enfiada no velho casaco de lã arroxeada, mãos resguardadas do frio da manhã de sábado, as alturas do Alvão. E o que há além, que aqui não é Marão e todos mandam em qualquer das latitudes, observa-se o que se quiser. É sábado, a missa é mais logo ou mais amanhã, pela mesma fresca, mas é a Senhora que Albertina olha. Ao fundo da tela, ergue-se sobre um alvo manto de nuvens o monte que a lenda quis que se transformasse de Cinínia em Farinha, por um moleiro encantado ali ter deixado o moinho a moer até alguém exclamar por um monte dela, de farinha. É alto, quase eleva ao céu a sua Senhora da Graça, em apoteose. Qual guia.

Albertina: "É bonita..." Tanto que nem lhe estremece o casaco quando por trás lhe correm umas dezenas de forasteiros aperaltados, fazendo vento do ar parado, seco, gélido. Até que alguém pára para se prostrar perante a beleza do Oeste, ao lado de Albertina. Está um silêncio maravilhoso para lá de um chocalho solto e de uma voz de homem, longínqua, por jeito a reparar algum tresmalho. Viverá cá gente? Albertina: "Oh, tem muitas casas mas tem poucos... Uma meia dúzia... Uns foram embora, outros morreram..." Não desvia da Senhora o olho claro embaciado pelo frio. Sublinhamos-lhe o espanto. E despedimos-nos. Ela ergue o braço do velho casaco puído. "Boa viagem!"

Corríamos, como os outros. A caminho de Vila Real. Sim, não faz sentido, o sentido era o contrário, de volta a Lamas de Olo e por ali abaixo, mas quer a fortuna que quem nos desenhou a rota fosse mais poético que lógico e a poesia, no Alvão, é aquele naco de paraíso que vai de lamas de Olo ao Barreiro e do Barreiro ao Ermelo, fisgas adiante e marcha atrás, Alvão acima de novo, que o caminho é tão mais doce se for pontuado pelo Arnal... Seguimos viagem, lentos, quando se fecha o horizonte.

E seguimos suaves, seguros, por uma encosta de fios de erva de oiro, por uma levada que nos afasta do rio Olo, cada vez mais em altura, água pura em sentido contrário, cheira a terra ensopada num dia que se declarou de sol, muito, inesperado.

Até ao Ermelo. Até à encosta lascada que prepara uma das maiores cascatas de Portugal, sempre a atirar bons dias e fazer das marcas de passagem do gado o obstáculo mais duro.

Será necessário uma corrida de montanha ter dureza? Será necessário morrer dez vezes antes de cortar uma meta? Será necessário arriscar as pernas, os braços, o pescoço para encher a alma de trail?

O Ultra Trail da Serra do Alvão - que devorámos na versão curta, 32 km que foram 35 e que os organizadores, amantes incondicionais dos trilhos, nos garantem ser a mais perfeita versão - responde-nos com o mais claros dos nãos. Sobe bastante, insistente, desce muito mais, rolante, vai duas vezes ao céu, revela a imponência da Senhora da Graça no seu Monte Farinha, faz-nos correr com rebanhos e os cães deles, cruzar pastores, beber o café da mãe de alguém, descer calçada milenar e conversar com Albertina, enfiando-nos três mil e muitos metros de acumulado total no corpo sem doer. Faz-nos terminar sorrindo, "que coisa tão bonita", ver Vila Real do alto, arrogantes na nossa renovada capacidade de subir montanhas, ver as curvas de Portugal, varridas pelas diferentes tonalidades de neblina, dizer, caramba, "gostei tanto".

"Boa tarde!" "Boa tarde! Olhe, vão a pé inté Vila Real?" "Vamos!" "Carago! E já vêm de lá?" "Não homem, de Lamas de Olo." "Então boa Viagem!"

Ouviam-se chocalhinhos, seriam cabras. Havia muros de pedra livre, com líquen, que tapavam a visão rasteira, havia a estonteante velocidade da calçada molhada a descer, a descer. Havia o Arnal, ali à frente, com uma sande de presunto a pedi-las, com um habitante dos poucos que ainda lá há a descansar junto à ponte.

Diz-se que o Arnal tem nove almas. "Diz-se. São mais! Bom, não serão muitas mais..." Ficámos pelas dez onze para não contrariar ninguém, engolimos o pão - uma alma sensata encheu os abastecimentos de queijo açoriano - e atardamos-nos porque ali, com o sol a refletir no granito, é bom estar. Porque temos tempo, porque nada nos dói, porque nem sequer temos relógio, porque o relógio é como a dureza, faz qualquer trail um pouco menos bonito pelo simples facto de nos desviar a atenção.

Porque o relógio é uma chatice que nos trava de parar no meio do pinheiral rigorosamente semeado há tanto tempo que se fez caverna, daquelas com frinchas que deixam passar o sol e onde se pode cantar que o eco transforma um grito numa canção. Imaginamos Einaudi e o seu piano, na semiescuridão do tapete de agulhas outonais. Ou os pés dos velhos do Hoppipolla gritado pelos Sigur Rós a espalhar o riacho que desce, ele próprio todo um concerto. Não, não deliramos. Temos só tempo incontado no Alvão. E um desejo incrível que Vila Real não surja na curva, quer a viagem, Albertina, está a ser boa como a sua contemplação no conforto do seu manto roxo...

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