Western States Race

Só pararemos em Auburn

Arrancou a Western States. Até às 62 milhas, o açoriano Mário Leal, da Azores Trail Run, vai desbravar a solo os trilhos lendários da corrida que nasceu para cavalos. Rui Pinho acompanhará o resto. Para contar como é. Um dia 3 em que recorda a festa do trail que acontece em Portugal também, na Freita.

Chegar a Squaw Valley, sede dos Jogos Olímpicos de Inverno em 1960, é entrar no maravilhoso mundo dos desportos de montanha. Situada a mais de 1600 metros de altitude, rodeada de picos bem acima dos 2500 metros, é uma das maiores estâncias de esqui dos Estados Unidos. E é, a exemplo do que acontece com Chamonix, um lugar icónico para quem corre ultras distâncias. É dali que parte a Western States e foi ali que tudo aconteceu nesta sexta-feira de acolhimento de atletas, equipas de apoio e famílias. Apesar de o número de atletas ser apenas de 369, a afluência à Aldeia Olímpica é muito superior, talvez multiplicada por dez ou mais vezes. Respira-se trail. Respira-se montanha.

Mas não pensem que é um enorme reboliço cheio de carros a cruzar as ruas. Depois de se sair da estrada de acesso ao Lago Tahoe, no desvio para a estância, depois de pouco mais de 1 km de casas de madeira embrulhadas discretamente na floresta, há um enorme parque de estacionamento frente à entrada da Aldeia, gratuito e fim da linha para os automóveis.

Os 2 ou 3 arruamentos que a constituem confluem numa pequena praça central e são exclusivamente percorridos a pé. É um lugar especial. Há algumas lojas - poucas, não mais de uma dezena - todas de marcas de renome. Completam a "oferta" comercial uma gelataria, uma pizzaria e mais um ou outro estabelecimento de restauração. Numa rua paralela ao parque de estacionamento, há alguns pequenos hotéis que se somam à oferta dos originais alojamentos dos atletas olímpicos, agora convertidos para público.

Começa aqui a notar-se o trabalho fantástico do imenso número de voluntários - mais de 1700, uma fantástica média de quase 5 por atleta. Junto à zona de saída das cadeiras para as pistas (ainda a funcionar em pleno, já que nas pistas mais altas há mais de 2 metros de neve) começa a "feira" da prova, junto ao pórtico onde foi dada a partida, este sábado.

Numa pequena mesa um voluntário recebe os atletas e encaminha-os. Há tendas de marcas patrocinadoras, muito poucas. Há uma receção aos "pacers" e uma outra, a principal, aos corredores contemplados com um lugar na corrida, esta num edifício da estância. E aqui começam as particularidades desta rainha do endurance.

Aquando do sorteio de entradas para a prova, há também um sorteio para uma lista de espera. Ora, caso algum atleta selecionado não compareça nesta receção - que é obrigatória e inclui o briefing -, é imediatamente substituído por um dos atletas da lista de espera que esteja presente. Entre os que apareceram estava um do Japão! Mas só um foi contemplado com um lugar na corrida, e, infelizmente, como dizia o Diretor da prova, não foi o representante do país do sol nascente.

Outra singularidade é a não entrega de peitorais neste dia, evitando assim as trocas. Todos terão de comparecer no check-in matinal no dia da prova, que é acompanhado de um pequeno almoço (e residia aqui a última esperança do japonês, que também teria de lá estar, equipado).

Cumpridas as formalidades, tirada a foto a cada um dos participantes - tudo sempre envolto de enormes manifestações de carinho e admiração, fazendo com que cada um deles sinta que aquele momento é mesmo único -, há uma saída por uma zona de merchandising.

Ao chegar a hora do briefing, um imenso movimento pendular segue avenida abaixo em direção ao centro de convenções. Ali, numa sala à pinha, segue-se um momento absolutamente único. Prometido como tendo no máximo uma hora (durou 52 minutos), com apresentação de todo o Comité Diretivo da Prova, os conselhos do Diretor, a previsão meteorológica e dos trilhos, e, claro, a apresentação dos atletas de elite e de atletas em especial participação. Este ano, um cego e um duplo amputado tentarão concluir a mãe de todas as Ultras. Todos os atletas estavam ali e todos foram acarinhados como especiais. Alguns esperaram seis anos por aquele momento. Dos 369, "há representantes de 25 países e 41 estados americanos, mais o Texas", brincou o presidente do "Board", aludindo às manifestações de independência (ou orgulhosa e substancial diferença) dos texanos.

Em fim de semana de Ultra da Freita, é impossível não comparar a feliz coincidência de os dois homens que começaram - um aqui, outro uns anos depois em Portugal - um movimento fantástico de pessoas que praticam um desporto com a possibilidade de o fazer cara a cara, em disputa e competição aberta, com os melhores. Não acontece em mais nenhum. Gordy Ansleigh começou na década de 70 as ultramaratonas. José Moutinho começou na de 80, não com a Freita, mas com a volta a Portugal a correr, um Paris - Maia e um Lisboa - Maia, também a correr.

Há um sentimento que ambos trouxeram para o ultra trail e que é comum às duas organizações: Todos se sentem em casa. No fundo o que define o espírito de quem faz estas provas é este, o que é sentido nas que têm mais para dar em apoio e carinho, numa espiral de partilha encarado por todos os que levantam o evento e que se transmite a quem corre, que tem muito mais a ganhar do que fama ou espetáculo. Ao alinhar na linha de partida destas provas, têm a certeza que nunca estarão sós ou esquecidos, e que terão uma mão amiga em cada abastecimento que os puxará e empurrará até ao passo final, na meta de cada um.

Respira-se aqui muito do que todos gostámos: momentos especiais.

Findo o programa de sexta-feira do evento, o movimento de saída tem o mesmo não rebuliço que teve no início. Ao sol primaveril tudo se escapa pelas sombras, como as casas que vemos mas não reparamos, embrulhadas por ali, no meio das árvores.

Este sábado foi o Dia D. O Mário estava motivado e preparado. Tem pela frente um desafio único, com muitos quilómetros para correr em cima da neve, temperaturas a rondar os 0º de manhã e os mais de 30º à tarde. Para cruzar ribeiros e rios, alguns exigindo mesmo canoa, ou, em alternativa, um colete salva-vidas. Para enfrentar uma prova dura. A grande maioria a solo, já que os 369 atletas são o limite autorizado de pessoas nas zonas protegidas ao longo do percurso. Eu farei o possível para ajudá-lo nos pontos permitidos. E correrei com ele a partir da milha 62.

Só pararemos em Auburn.