Western States Race

Trail na Serra Nevada: a corrida ao ouro

Trail na Serra Nevada: a corrida ao ouro

Necessidade e sonho. Pode dizer-se que é esta a origem da modalidade na sua vertente de "resistência", e que se tornou inspiração para a realidade do trail americano, onde mais do que vencer desníveis e tecnicidade se procura vencer distâncias por caminhos ancestrais, no menor tempo possível. Eis o dia 2 da Western States Race, vista por portugeses que ali representam o Azores Trail Run.

O Western States Trail, foi durante séculos o caminho usado pelos nativos americanos, com início em Salt Lake, no Utah, até ao Tahoe Lake, que divide a Califórnia do Nevada. Quase 1000 km entre duas fontes de riqueza excepcionais - grandes lagos, que albergavam à sua volta vida selvagem suficiente para a caça e pesca, atividades principais dos índios.

Em 1848, a Califórnia era ainda território mexicano, embora sob o controlo militar americano, terra sem lei, sem grande interesse económico e sem organização administrativa. São Francisco não passava de uma pequena localidade com umas tendas e algumas construções que albergavam pouco mais de 1000 pessoas. O território no seu todo teria uns 15 mil habitantes e, estima-se, cerca de 150 mil índios. A grande maioria desses índios habitavam as margens do "Rio Americano" - chamado por eles de "Kum Mayo", nome que numa tradução literal significa "casa redonda", ou à volta de casa, pelo conforto que uma casa proporciona. Estima-se a presença humana pelo menos há 5000 anos, embora tenham sido descobertos vestígios com mais de 12 mil anos.

No início do século XIX, uma expedição liderada por um famoso explorador e cartógrafo, pioneiro da grande maioria dos "trails" (ou caminhos) que cruzavam todo o território americano, chegou às margens do American River com o objetivo de traçar um caminho através da Serra Nevada, um maciço granítico recente (para os geólogos, já que quatro milhões de anos é muito tempo para a nossa perceção do tempo) com uma extensão de quase 700 km de Norte para Sul.

O lado Oeste deste enorme maciço, o mais explorado e onde se fixaram os nativos, é rico em água e vida selvagem, sendo por isso uma enorme extensão (os tais 700 km) de um imenso verde florestal, salpicado por cumes cobertos de neve que "abastecem" todos os rápidos de água, rasgando por ação da água os enormes "canyons", ou desfiladeiros. O lado Leste da Serra Nevada é "morto", onde ficou, a Sul, o famoso Death Valley, palco de grande parte do percurso da Badwater.

Nesta concorrida zona da Califórnia para os seus nativos, pouco mais havia que riqueza de recursos de subsistência, e foi aqui que um suíço, em 1839, fundou a Nova Helvetia, ou Nova Suíça. Nas margens do Rio cultivou terras e construiu moinhos, onde, numa das calhas, uns anos depois, ele e um outro pioneiro de Sacramento descobriram vestígios de um mineral amarelo, que para desilusão do agricultor John Sutter - o suíço - e para gáudio do carpinteiro e serralheiro que fazia toda a manutenção dos moinhos - James Marshall - viriam a confirmar ser ouro.

A descoberta rapidamente se espalhou e começou aí a famosa "corrida" ao ouro e ao não menos famoso "sonho americano". Vem daqui a imagem dos garimpeiros com uma espécie de peneira na mão a retirar os sedimentos do fundo dos ribeiros e a olhar atentamente em busca de pepitas. A esperança era a de encontrar a subsistência num acaso como o de Sutter.

Com o rápido crescimento da população e de novas cidades, como Auburn, a Califórnia transformou-se, organizou-se administrativamente, tendo os 49'ers (os pioneiros da corrida ao ouro) fundado um novo Estado que rapidamente foi integrado nos EUA, sem nunca perder a ligação hispânica e índia.

Consta que ninguém enriqueceu com ouro, embora a exploração mineira tenha desenvolvido toda a economia que ainda hoje sustenta este extremo oeste dos Estados Unidos. Rapidamente se construíram linhas férreas, instalaram-se companhias de navegação em S. Francisco e desenvolveram-se minas e cidades nos sopés das montanhas, aumentando a criação de riqueza e necessidade de implementação de vias de comunicação.

Em 1955, um grupo de seis cavaleiros organizaram uma espécie de corrida, para provar que os Correios podiam fazer o trajeto desde a cidade de Tahoe até Auburn em menos de 24 horas. Foi assim que nasceu a Western States Trail Foundation, organizadora da "Tavis Cup", uma prova de resistência a cavalo, de 100 milhas, com tempo limite de 24 horas. Em 1972, um grupo de 20 soldados da infantaria americana tentou percorrer o percurso a pé. Apenas sete concluíram, havendo relatos de batota com atalhos e alguns troços a cavalo. Mesmo assim, tardaram mais de 44 horas.

Apoio médico por... veterinários

Em 1977 a corrida passou a ser uma realidade para os competidores a pé, tendo alinhado à partida 14 atletas, que eram responsáveis por toda a sua alimentação, sendo-lhes fornecida água e apoio médico - ainda por veterinários - nos pontos de abastecimento da corrida a cavalo. Apenas três concluíram esta edição, dois deles, cinquentenários teimosos que não quiseram desistir apesar de saberem que não cumpririam as 24h de tempo limite, em 28h36, tendo assim nascido o prémio de sub 30 horas.

É um mergulho num mar verde com canhões que rasgam a pacatez da floresta de denso arvoredo. As casas são ainda construídas em madeira, mantendo a traça original e mandando-nos de rojo diretamente para os ecrãs de televisão dos anos 1980 e ao sonhado destino final das caravanas que atravessavam todo o Oeste Selvagem (Wild West) em direção ao Oeste Longínquo (Far West, que adotamos para o português como faroeste).

Nessas longas viagens de "comboios" de gente com toda a "vida" às costas, há uma cabana num sopé de uma montanha, com cursos de água cristalina na primavera e neve no inverno com fumo a sair por uma chaminé. É este o quadro destes enormes parques naturais que ladeiam a gigantesca Serra Nevada, e é aqui que decorre amanhã a prova mais antiga de ultra resistência do mundo. O sonho americano.

Vamos descobri-lo!