Algarviana Ultra Trail

Uma história de amor nos trilhos

Uma história de amor nos trilhos

Descrever a maior prova de corrida de montanha de Portugal à distância seria fácil. Descrevê-la por dentro é quase impossível. Convidámos o ultramaratonista Rui Pinho a contar-nos a sua dor. Fez dela amor. Bem vindos ao conto do Algarviana Ultra Trail.

Faltavam 37 km para a ambicionada meta. Cambaleava pelo trilho, derrotado pela dor. O bom dia saía mais seco que o nascer do dia, poeirento e soalheiro. Queria desistir, não aguentava mais, nem mais um metro. Sentado numa pedra madura, apoiado nos bastões, quase em lágrimas pelo sofrimento que as pernas inflamadas me provocavam. A resposta, doce e tranquila, mostrava o caminho a seguir, duro como até ali, mas glorioso como não seria se acabasse na franja dos barrancos das serras algarvias. Resistir a tudo, à dor, ao sono, ao cansaço, às vezes à fome e à sede. "Foi isto que passaste até aqui, não desistas tão perto do que este caminho tem de mais belo - a ponta de Sagres!", sussurrava-me a algarvia com a calma do dia. Não havia eólica que mexesse. O tempo contava, mas estava suspenso de calma. Parar não daria paz ao sofrimento. Ia acentuá-lo, passá-lo das pernas à alma. Continuei, arrastando o que sobrava de corpo.

263 km antes, na raiana Alcoutim, banhada pelo Guadiana que nos guarda o território há tantos séculos como os que serve de porta de entrada, sorríamos em grupo. Alinhávamos sacos para as dez bases de vida, vestíamos roupas que havíamos de tirar ao terceiro ou quarto quilómetros e publicávamos os últimos estados nas redes sociopatas, enchendo-nos de comentários e likes potenciadores de egos felizes e inebriados.

A Algarviana é uma via que cruza o Algarve de Leste a Oeste. O Algarve não é plano. Nem na costa. Os ambicionados 300 km cruzam barrancos, velhos e novos, sobem e descem cerros, esventram o que resta de uma realidade popular rural fortemente contrastada com a vida elitista e moderna do litoral, prostrada sobre as suas imponentes falésias. Cruzam-se ribeiras - fortes e fartas pelas chuvas dos dias que antecederam a prova - campos agrícolas, longas zonas de cultivo de alfarrobas, amêndoa, olival, laranjais, medronho, e tantas mais que a minha saloia urbanidade me impediu de identificar. O Algarve profundo. Lindo e selvagem. E duro.

Uma ultramaratona é o que fazemos dela. Sucesso e insucesso separam-se por uma ténue linha de sorte ou azar na tomada de decisões, num ou outro pormenor que nos empurra ou retém. A navegação por GPS vai do difícil ao fácil consoante tenhamos mais ou menos sono, esteja mais ou menos nevoeiro, tenhamos ou não bateria no aparelho que nos indica o melhor caminho, ou mesmo, pasme-se, de alguns amigos que nos seguem em prova e nos telefonam a avisar que estamos fora de percurso. "Pormaiores". E interrogamos porque estamos ali. Sempre. É um caminho filosófico de busca e encontro. Com anjos da guarda espalhados por todo o lado, uns vestidos com a camisola da organização e que não deixam que te falte nada, do ânimo ao alimento, outros longe, mas perto, que te mandam mensagens ou telefonam e não deixam que soçobres ao cansaço nem que te percas no caminho.

A conquista nasce sempre que sentimos que vamos, mas algo nos prende e agarra. Ao erro que somas e que te faz querer desistir, sobra a vontade de ficar e tentar remediar. E aí começas a olhar os contornos que te fizeram olhar, a ouvir os silêncios que quiseste ouvir, a sentir as pedras que quiseste sentir. O querer não é amigo do juízo. Ter tino tolda-nos a capacidade de vencer. Para vencer o ALUT, temos de sentir o frio como aconchego, as pedras como algodão doce e o constante sobe e desce como embalo carinhoso. As vozes que se erguem no breu chamando o nosso nome, guiando-nos esforço fora rumo ao ali, onde não conhecemos melhor, são os tambores que nos fazem bafejar, de inspiração em inspiração, até que não sentimos sequer um único nervo.

Era assim que eu ia. Desde os 150 km, quando decidi garrotear as canelas com dois elásticos - o de uma meia e o de um pernito de compressão que até aí nunca tinha usado - cheio de dor e calor. Cada passo em descida ou plano era um espancamento de dor. Nos graus que se usam para a medir, era bem mais que uma pequena dor. Caramba para a tua escolha, qual modelo a tentar ficar bonito para a noite onde ninguém te veria a serpentear a barragem do Funcho. Dor. A dor que todos apregoamos, mas que queremos longe, mais longe que a dor do cansaço - com essa podemos correr. Já estive muitas vezes assim em prova. Desisti. Mas nesta teria um fator que não tinha nas outras - A algarvia.

Algarvia de berço. Nasceu em Lisboa, mas o berço dela, toda a sua história de menina loira de cabelos em cachos de oiro e olhos cor de água foi passada entre os voos do pai, e consequentemente da família, mas com regaço bem no meio da Algarviana e da Serra algarvia. O avô e a casa grande caiada eram e ainda são o seu refúgio. Há pouco mais de um ano, a algarvia concluía a sua Via Algarviana, que durara um ano - 11 etapas. Não houve trecho que não tivesse feito que não me tivesse lembrado dela e de quão grande teria de ser o seu amor pelo Algarve serrano para ter andado ali, sem dorsal, sem geo-localizador, sem competição senão consigo mesma. A algarvia apareceu-me pouco depois de 28 horas de prova, em Messines, e seria fundamental para me levar até ao fim.

Realidade? Imaginação?

Ali estava eu, a meio caminho da penúltima etapa. Depois de tantos pormenores que tinham ditado que ali chegasse, estava a um toque no "botão SOS" do geo-localizador para ser resgatado pela organização. A pouco mais de 30 km da tão ambicionada meta. Mas as metas só fazem sentido se forem atingidas com qualidade, não sou apologista do "até morrer" para atingir um fim. Disse-o, gritei-o alto sem ninguém por perto. Não fazia sentido. A algarvia, num tom doce e calmo responde com um "não carregues no botão; estás a desistir do tempo que te resta? Tens mais que tempo para veres como ainda consegues. Vem, em Vila do Bispo, quando te cheirar a mar, decides."

Fui.

Há momentos nestas provas que nos marcam. O toque de alguém quando dormes no meio do trilho, vencido pelo sono à terceira noite; uma palavra de incentivo na altura certa, a sorte de uma companhia por algumas horas que te ajuda a contornar períodos mais difíceis. Tudo conta. Mas ter amor aos trilhos conta ainda mais. Como não amar os trilhos e estas "viagens", quando tiramos de todas elas experiências únicas e marcantes?

Algures entre Silves e a Ribeira de Monchique, apertado pelo calor do meio dia e pelos quase 200 km de prova, ao chegar junto a uns casebres serranos encastrados entre o negro dos incêndios do último verão e o verde que se conseguiu salvar, encontrei dois velhos.

Perguntei a um se me podia sentar numa das muitas cadeiras expostas junto ao estradão. Apontou para o outro, um pouco mais velho e curvado pelos anos a mais, dizendo "a cadeira é dele". "Deixe estar, faço isto de pé", enquanto tirava a camisola térmica e vestia uma de manga curta. "De onde vem?", "De Alcoutim".

"É uma corrida? Ah, por isso esta noite estavam aqui um rapaz e uma rapariga a dormir nas minhas cadeiras. Estive para dar um tiro para o ar quando ouvi os cães a ladrar, mas vi-os a dormir de calções, ao frio, e vi logo que não eram ladrões".

"É a correr?", pergunta o outro. Respondo que sim, com aquele orgulho de quem é sobre-humano, capaz de coisas impossíveis. "E o Sr. é de onde?", "Do Porto". "Veio a correr do Porto?", pergunta o outro. Porra, eu ali armado em herói e os dois nada admirados, talvez espantados por tanta burrice no tempo em que já há carros e aviões. "Não! De Alcoutim. Viemos a correr de Alcoutim e vamos até Sagres. Temos de lá chegar até amanhã." "Ah. Então vão passar na fonte Santa." Seja.

A Fonte Santa é um lugar no sopé da Serra de Monchique. Teríamos de atravessar a Ribeira de Monchique quatro vezes, antes de iniciarmos a subida de mais de 750 D+ até à Picota - ponto mais alto da Serra. Dois amigos montaram ali acampamento e passaram às costas - literalmente com os atletas às costas - todos os que estavam em prova. Mais, tiveram, durante as mais de 24 horas que separaram a passagem do primeiro classificado - João Oliveira - da do último, um abastecimento informal montado, com chá quente, água, bolachas e mais uns mimos. Amor aos trilhos e ao próximo. Sem mais do que um obrigado. Impagável.

Outro momento inesquecível passou-se na terceira noite. Depois de Marmelete, a caminho de Barão de S. João - terra próxima de Bensafrim, Lagos, corria pelo trilho quando avistei, pensei eu, um gato amarelo. O gato miava sem parar e corria ao meu lado. Pensei estar a alucinar, induzido pelo facto de o famoso Bob - gato inglês que "adotou" e mudou a vida de um dono que escolheu - ter estado em Portugal na última semana. Mas pouco depois outros dois atletas correram comigo e com o gato.

Felizmente houve mais gente a confirmar a presença do felino que simpaticamente me acompanhava e miava. O estranho da situação é que estávamos longe de qualquer habitação. Estranho para mim, porque quando contei à organização o sucedido, logo me alertaram para o facto de ali ser um santuário de linces e provavelmente ter corrido com uma cria de lince ibérico.

Entre diálogos de velhos, gente que durante 24 horas serve de transporte por ribeiras a atletas e corridas com linces, esta foi uma ultramaratona de experiências e emoções únicas.

Amor aos trilhos. Amor nos trilhos. Amores que se constroem e desconstroem, que magoam e nos mimam. O ALUT é apaixonante. Não precisamos de mais do que uns quilómetros para percebê-lo, como não precisamos de muito para perceber uma paixão. Agarra-nos e dela ficamos reféns. Caminho longo de 300 km, de leste a oeste serpenteando cerros e vales que acabam no mar.

Um longo ondulado de cachos dourados rumo ao mergulho nuns profundos olhos cor d"água.

Algarviana algarvia. Apaixonante.