Levámos as Speedcross 5 ao "laboratório do trail"

Levámos as Speedcross 5 ao "laboratório do trail"

Se temos umas sapatilhas para testar e um trail para fazer, por que não juntar tudo num caldinho? Eis o sempre extradordinário Trail do Lidador (ou como é possível fazer corrida de montanha a escassos minutos da urbe e quase sem relevo) cumprido com as Salomon Speedcross 5.

Uma manhã de domingo de chuva torrencial no "laboratório do trail" só podia ser um bom prenúncio. No carrossel desenhado pelo pai do trail português, o enormíssimo José Moutinho, era garantia de lama certa. O frio da madrugada (sair para a chuva dominical das sete da manhã é madrugar) fez-nos titubear perante o armário do crime onde enclausuramos o material de corrida. Levo isto ou aquilo? E nos pés, que diabo, chuva é água e água ao longo de 20 Km é bolha certa, o olhar parou ali, entre os tratores novos da Salomon e o já testado conforto de um sapatinho azul bebé e laranja, que nunca mais voltaria igual das colinas maiatas onde Moutinho montou as suas provetas de corrida de montanha. Era o Lidador que estava em causa e já o conhecíamos, da primeira edição em que lhe apusemos o epíteto de laboratório, porquanto pegar em colinas de escassa elevação e em bosques cobertos de feios eucaliptos e tirar dali um trail dos mais satisfatórios só podia ser obra da ciência mais apurada. Decidimos pelos tratores, com aquele ar de conforto escondido atrás de uma biqueira que só não é de aço porque é de um sapato de montanha que falamos. São as Speedcross na versão quinta, uma jóia da coroa salomónica que cumpre o destino para que foi desenhada nos primórdios: vencer lama e neve, mud and snow, m&s, diziam as velhinhas 3 que ainda resistem no armário das lamentações lá de casa.

Impressão primeira: são altas. Impressão segunda: está frio e parecem confortavelmente quentes sem assar os pés. Impressão terceira: ajustam ao pé como meias e ainda oferecem aquele pormenor que pode até nem ter sido pensado para isso mas é que nem luvas, que é acomodar o chip quadrado da competição.

Sim, a Salomon é uma das marcas que nos brinda com atacadores finos que se atam puxando e cujos excessos se guardam numa bolsinha no topo da língua. E enfiar num fio sem ponta um chip que se prende com atacadores é uma chatice. Pois as Speedcross 5 têm uma bolsa de rede sobre toda a zona da língua que nos salvou de andar com o cartão na mão, porque também não tínhamos atilhos de plástico para prendê-lo onde quer que fosse.

Deliciosamente rápido, maravilhosamente ziguezagueante

Mas o que está em causa aqui é o Trail do Lidador e uma enorme preguiça. É cedo, já pinga do escuro carregado da manhã, a partida é atrasada porque alguém andou a surripiar fitas do percurso - mistério - e está frio. Talvez tenha sido isso. O frio foi crioterapêutico. Ou o percurso é mesmo, a sério, maravilhoso. Começa por serpentear um bosque sem verdadeiramente sair do lugar, como revelaria o track do gps. Deliciosamente rápido, maravilhosamente ziguezagueante. Com passagens estreitas entre troncos, com o olho espetado na lama para evitar os tocos dos troncos cortados para criar o trilho. É aí que as Speedcross entram em ação: a estabilidade é invejável, a aderência francamente melhorada, mesmo quando o chão é granito molhado (só falhando numa ponte de madeira lisa no início do percurso, ainda dentro do Parque do Avioso que acolhe a partida/meta do Lidador), a sola grossa, o maior amortecimento da entressola e a biqueira uma proteção a sério contra os ditos tocos.

Até que desata a chover verdadeiramente a sério e o chão faz-se poças. Os desvios rápidos, os jogos de tornozelo, o pé seguro evitam os maiores charcos. Somos lentos, para a generalidade dos corredores, o que ajuda a escapar ao desastre, mas não era aí que queríamos chegar. Era apenas à constatação de que, 20 Km depois da partida, as meias saíram dos sapatos absolutamente secas. Haverá quem diga que isso implica uma reduzida respirabilidade. Não notámos. Mas também é certo que o frio trava o suor.

Serpenteamos e serpenteamos e, de repente, percebemos que, como em qualquer laboratório que se preze, esta edição do Lidador não é como a primeira. Moutinho e Flor Madureira, a inseparável criadora de trilhos, brindaram-nos com a retirada de corta-fogos, esses horrores de fealdade e esforço que não compensa precisamente por isso, por ser tudo menos bonito. E a coisa até vai parecendo um corta-mato, à exceção de uma subida por pedregulhos aqui, de uma descida por pedregulhos acolá, de outra coberta de húmus, sem nunca se nos escorregar o pé até ao abastecimento. À Moutinho, o inferno começa depois. De serpente, o trilho passa a paredes, num infindável sobe e desce que nos leva ao castro de Alvarelhos e nos tira dali por um caminho de antanho, entre muros altos e verdes do musgo, debaixo de pontões velhos de granito. Quase até ao fim. É aí que se começam a cruzar os caminheiros, coitados, levados ali para 13 Km dos piores que uma manhã de domingo pode oferecer a quem não sabe no que se mete. Ainda por cima sob um dilúvio. Ainda por cima a terminar com novo serpentear, mas desta vez em sobe e desce, como o clímax de um Bolero de Ravel a misturar os dois principais andamentos. As pernas começam a dar de si, mas os pés, secos e confortáveis, arrastam-nas até ao limite, a caminhar já, a saborear o prazer da relva rasa do Parque do Avioso. E nem sequer nos pesam, os pés, apesar de as Speedcross não serem plumas, porque um trator nunca o poderia ser. Um trator bem bonito, quase tanto como o carrossel maiato desenhado no laboratório de José Moutinho.

Para os espíritos mais técnicos, aqui ficam os nomes e os números: o Trail do Lidador fechou-se com perto de 20 Km e alguns dos mais rápidos perdidos em tanto S, com 800 metros de desnível positivo (Moutinho nunca brincou às casinhas) e uma classificação pouco abonatória (quase na cauda, mas é certo que devagar se vai ao longe, dizia um dos nossos avós, e que é assim que se vê que os cogumelos são os dos Estrunfes, vermelhos às pintas, e que o cão do caçador é castanho brilhante). As Speedcross pesam 280 gramas, com uma diferença de 10 mm do calcanhar aos dedos, uma sola em contagrip (registo da Salomon) melhorada à perfeição, uma malhar superior reforçada e à prova de areia e água, uma forma mais larga à frente do que nas versões anteriores, a tecnologia SensiFit a aconchegar o pé, a típica palmilha Ortholite, cumpridora. E custam à volta de 115 euros.

Nota: o produto foi fornecido pela marca e o Trail do Lidador gentilmente oferecido pela Confraria Trotamontes.