Desafio

Ultramaratonista tenta atravessar Timor-Leste

Ultramaratonista tenta atravessar Timor-Leste

Do Mar Homem ao Mar Mulher passando pelo Monte Ramelau, o inglês Scott Cunliffe, antigo observador internacional em Timor-Leste, espera correr da costa sul até Díli em 15 horas.

O ultramaratonista inglês Scott Cunliffe espera este fim de semana tornar-se no primeiro atleta a correr os cerca de 110 quilómetros que separam a costa norte e a costa sul de Timor-Leste, incluindo no desafio a subida aos três mil metros do Monte Ramelau. Um local que trará ao atleta duras recordações: em 1999, Cunliffe foi um dos observadores no referendo de independência de Timor-Leste, onde testemunhou o auge da crise do pequeno território da ex-colónia portuguesa entretanto disputada pela Indonésia.

"É um grande desafio em si, mas com ele quero também chamar turistas de aventura a Timor: corredores, escaladores, ou amantes de natureza, pessoas interessadas em turismo cultural ou histórico", contou o aventureiro ao correspondente da agência Lusa em Díli, capital timorense.

A viagem deverá começar às zero horas deste domingo, na costa sul, ou Tasi Mane (Mar Homem, assim designado dada a raiva das suas águas), a sul da vila de Cassa. Scott Cunliffe acredita poder cumprir o desafio numas curtas 15 horas, para terminar em Díli, junto ao Tasi Feto (Mar Mulher, de águas serenas), através de trilhos e montanhas que fazem de Timor-Leste "uma das últimas fronteiras da corrida de ultra". É isso que Cunliffe quer provar, para que a travessia "Coast2Coast" se transforme numa meca.
Corredor há dez anos - e com dois anos de experiência em grandes corridas -, o máximo que Cunliffe correu até hoje foi uma prova de 102 quilómetros, distância que espera ultrapassar em Timor-Leste, onde ao desafio se soma "o clima e a temperatura elevada".

"Manter o corpo numa temperatura adequada é essencial. Conseguir controlar a hidratação e a nutrição é importante. Vou ter um carro de apoio comigo, com água fresca e gelo. Mas se estiver mais húmido será melhor", admite o ultramaratonista.

"O objetivo é fazer a corrida em 15 horas", incluindo "pequenas paragens para comer qualquer coisa, trocar de sapatos", explicou. No máximo, quer tirar as sapatilhas 17 horas depois de calçá-las.
Cunliffe, que voltou a Timor-Leste depois da independência para ali trabalhar entre 2003 e 2008, anda atualmente a viajar por vários países onde dá formação em ultramaratonas e provas de corrida de largas distâncias.

"Correr uma ultramaratona é muito duro. Ao ritmo de uma maratona, só muito poucos o conseguem fazer. Mas mesmo mais lentamente, a partir aí dos 60 ou 70 quilómetros torna-se muito difícil", explica o atleta. "O principal é a questão mental, manter uma atitude positiva. Temos que praticar, acumular quilómetros para nos prepararmos. Este ano já fiz várias grandes corridas. O corpo começa a ganhar força e capacidade".

Apesar disso, recorda Cunliffe, um atleta que faça uma prova deste tipo "está sempre suscetível a situações ou a pequenas coisas".

"Uma pedra no sapato, se não a tirares logo, pode tornar-se um problema grave mais tarde. Mas é tudo uma questão mental. Meditas, de vez em quanto fazes um mantra. Às vezes metes música", conta, reconhecendo que a ultramaratona é "uma prática egoísta". "Estar sozinho não me incomoda. Eu gosto da solidão. Gosto do espaço mental. Tento focar-me no momento o máximo possível. Foco-me na respiração, em ficar calmo".

Depois é tudo uma questão de tática. E de sorte. A primeira vez que tentou escalar o Monte Ramelau, subindo pelo sul, como fará agora, perdeu-se. Ia sem guia. Quando deu conta, estava à beira de um precipício. Este domingo, espera contar com um guia para subir à montanha mais alta de Timor-Leste. E depois descer, em corrida, até Díli.