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"Há algum exagero", adianta sociólogo sobre o caso de racismo em Paris

"Há algum exagero", adianta sociólogo sobre o caso de racismo em Paris

A imagem marcou a última jornada da Liga dos Campeões: Sebastian Coltescu, o quarto árbitro do PSG-Basaksehir, chamou o árbitro principal, Ovidiu Hategan, para expulsar o treinador adjunto do clube turco. "O negro está ali, vai lá ver quem é. O negro que está ali, não pode agir desta forma", disse Coltescu em romeno. Essas palavras foram captadas por Pierre Webó, que ripostou de imediato e de forma insistente: "Porquê o negro? Porquê o negro?". E instalou-se a polémica. Os jogadores do Basaksehir abandonaram o campo em protesto, o PSG seguiu pelo mesmo caminho e o encontro apenas foi disputado ontem com os franceses a venceram por 5-1. A pedido do JN, o sociólogo João Nuno Coelho dá uma visão sobre um dos casos mais polémicos de sempre da história da Champions.

Por que motivo estão a surgir tantos casos relacionados com racismo nos últimos tempos?

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Eu penso que tem a ver com o facto de as pessoas e nomeadamente os media estarem mais sensibilizados para a questão. Penso que há uma maior consciência por parte das pessoas. Há diversos movimentos que têm alertado para esta questão e, portanto, acaba por haver maior atenção e exposição. As redes sociais também ajudam. E há também uma tolerância menor, resultante da maior atenção e dos tais movimentos que existem. Resultado disso. Situações também variam bastante. Há situações mais claras e mais graves do que esta, nomeadamente quando falamos de insultos, de formas de diminuir o outro bem mais diretas e clara do que esta foi. Penso que há algum exagero das proporções que está a atingir, até porque me parece que foi uma situação que tem a ver com vários aspetos, sobretudo com a questão da linguagem. Há países em que o "preto" ou o "black´ é mais grave do que utilizar a expressão "negro" e, noutros, isto funciona ao contrário. Parece-me que houve aqui uma conjugação de fatores para que isto tomasse estas proporções. Parece-me que o ponto de partida é correto, não digo o contrário. É correto que haja cuidados redobrados, nomeadamente por questões históricas. Todos sabemos o que aconteceu durante séculos às pessoas de pele escura e, portanto, parece-me que muitas vezes se misturam as coisas, mas com um princípio que é correto. Agora, o que acontece é que, quase automaticamente, cria-se todo um ruído que também poderá não favorecer muito esta causa. Utilizando aquela expressão muito conhecida, quando tudo é confundido com o mesmo perde eficácia. Também é verdade. Notou-se bem, durante estas horas, que houve também uma reação forte de quem considera que a situação foi extrapolada, portanto às vezes acaba por ser complicado destrinçar e aprender alguma coisa quando há situações tão díspares a serem colocadas no mesmo saco.

Jorge Jesus disse que racismo está a virar moda.

Eu penso que o mais importante aqui é que a contestação ao racismo ou formas menos corretas de lidar com o outro se tornem moda. Acho bem que se torne moda, que as pessoas não aceitem formas de diminuir o outro, seja por características físicas, mentais, por escolhas sexuais. Penso que isso é importante. Agora, também entendo que o ruído excessivo à volta de qualquer pequena situação pode prejudicar essa luta, que deve ser de todos. Por situações que são muitas vezes quase um mal-entendido... Provavelmente o treinador adjunto e os jogadores não sabem que, numa língua latina como a romena, normalmente é mais bem aceite dizer-se negro do que preto. Talvez se houvesse essa noção que, na cultura e na linguística dos árbitros romenos, esse é um dado importante. No caso da língua portuguesa é igual. É importante que se alerte, que seja intolerante no bom sentido, pelo menos não permitir que estas situações se repitam, mas também é importante traçar uma certa linha para não confundir tudo e acabar por perder a mensagem da eficácia.

Carvalhal diz que o problema é da sociedade e não do futebol.

Eu iria um pouco mais por outro lado, mais longe, sendo sociedade também é futebol. O futebol não vive num Mundo à parte, e como é muito popular e importante para tanta gente, o que acontece na sociedade acontece no futebol. Não há outra forma. Se há injustiças e desigualdades sociais, elas refletem-se no futebol; se há corrupção na sociedade, elas refletem-se no futebol. Portanto, o racismo, as práticas racistas, a visão racista do Mundo, se existe na sociedade, ela existirá sempre no futebol.

Atrás relacionou o racismo com questões históricas.

O que muita gente não entende, e por isso acaba por desvalorizar muito este tipo de questões, é que muitas coisas aconteceram devido à cor da pele, em termos sociais e históricos, e que essas feridas não vão passar de um momento para o outro. Imagine-se que alguém tivesse sido discriminado e escravizado por ser loiro, ou ter olhos azuis, ou as unhas viradas para fora... No fundo é essa a questão, são apenas e só características físicas, mas que histórica e socialmente justificaram um conjunto de atrocidades, de tragédias que não passam de um momento para o outro. Portanto, há todo um ressentimento histórico, que é inegável e mais do que justificado, que leva a que, depois, certos comportamentos das maiorias sejam considerados discriminatórios. Esta acaba por ser a grande questão. Por muito que, às vezes, considerem que tudo está a ser confundido com racismo, de uma forma quase gratuita, o problema é toda a história da humanidade, que está por detrás e que tem influência em todos esses processos. O que me parece é que, muitas vezes quando se procura encontrar sinais de discriminação, em todo o lado, acaba por se quase que banalizar essa luta e posição. Preocupa-me que se banalizem alguns comportamentos, porque são confundidos com outros muito mais graves. E estou a pensar, por exemplo, em termos políticos, que é muito mais grave e preocupante termos no parlamento um partido que defende, isso sim, posturas racistas e xenófobas, comparativamente com o que se passou no jogo em Paris. Preocupa-me muito mais e não vejo tanta gente escandalizada e preocupada quanto ficaram neste caso. É esse o retrato. Se, de repente, começa a criar-se a ideia de que está a haver um alarmismo em relação ao racismo por questões como a de ontem, se calhar, depois, comportamentos de políticos com responsabilidade acabam por passar pelo mesmo padrão, quando são coisas muito diferentes e de uma seriedade e gravidade que estão a anos luz de distância.

Árbitro deveria pedir desculpa?

Sim, sim... E explicar o contexto cultural, o facto de ter utilizado a cor da pele para distinguir o treinador adjunto e ter utilizado uma expressão que, na sua cultura e país, até é considerada mais adequada do que outras. Acho que pedido de desculpa faria sentido. Consta que a UEFA não permitiu que os árbitros falassem sobre o assunto, mas é importante e acho que o futebol, como um todo, deve aprender essa lição. É importante que as pessoas se possam expressar, nomeadamente os árbitros. Tenho quase a certeza de que estarão desolados. Estarão a sentir-se mais penalizados do que ninguém com esta situação. Foi o que me pareceu. Parece-me que há aqui muito medo do julgamento público. O facto de a UEFA ter retirado o cartão vermelho ao treinador adjunto do Paris Saint-Germain não me parece uma atitude correta, porque tem que se respeitar a cronologia dos acontecimentos. O que o treinador adjunto fez para levar o cartão vermelho aconteceu antes de tudo isto. Tudo isto deve ser o mais claro e o mais transparente possível para que não se perca o que é realmente importante, o que está nas camisolas dos jogadores nas provas da UEFA, que é o "respect", o respeito. Que tenham a consciência que é uma causa de todos. Se hoje podemos abusar de uma diferença, amanhã também podemos ser abusados por sermos diferentes noutros aspetos.

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