Entrevista

Henrique Jones: "Risco de morte súbita durante o exercício é fenómeno raro"

Henrique Jones: "Risco de morte súbita durante o exercício é fenómeno raro"

As mortes de dois atletas do desporto português na última semana, primeiro Alex Apolinário, da equipa de futebol do Alverca, na quinta-feira, e um dia depois, do jogador de basquetebol do Mirandela, Paulo Diamantino, têm levantado várias interrogações sobre os efeitos da alta competição na saúde.

As mortes de Alex Apolinário, na quinta-feira, e de Paulo Diamantino, um dia depois, deixaram o desporto português de luto. Apesar do elevado número de exames realizados durante a pré-temporada de forma a despistar problemas cardíacos, a morte súbita durante o exercício físico é um fenómeno que continua a acontecer. O JN falou com Henrique Jones, especialista em Medicina Desportiva e ex-médico da seleção portuguesa de futebol, que deixou várias explicações para uma melhor interpretação deste tema.

Numa altura em que a Medicina está tão avançada, e os jogadores realizam múltiplos exames, como se explica que alguns problemas cardiovasculares continuem a não ser identificados na pré-época?

Independentemente de todos os exames de rastreio cardiovascular que possam ser efetuados, e que sejam negativos para patologia cardíaca, o risco de morte súbita durante o exercício é um fenómeno raro mas existe, com uma incidência anual de cerca de 2 a 3 mortes por cada cem mil jovens atletas. Com explicação muitas vezes difícil, inclusive em exames pós-morte admite-se que o comportamento do músculo cardíaco em certas situações competitivas pode ter comportamentos anómalos que não são detetáveis nos exames normais em laboratório. No entanto, sabemos que cerca de 90% dos casos são provocados por patologia cardíaca e que uma avaliação adequada e prévia à prática desportiva permite identificar a grande maioria das doenças implicadas. Dor torácica, palpitações e síncope no contexto de esforço, cansaço e dificuldade respiratória excessiva e inexplicável bem como história familiar do foro cardíaco, poderão representar sinais de alarme. Independentemente destes sinais de alarme, todas as crianças ou jovens que pretendem praticar desporto em regime de competição devem ser submetidos a uma avaliação específica, uma vez que o exercício físico vigoroso aumenta em cerca de 2,5 vezes o risco de morte súbita. De salientar que a causa mais frequente antes dos 35 anos é a Cardiomiopatia Hipertrófica e acima desta idade a doença das coronárias. Em registos americanos que constituem a nossa maior referência em atletas de competição, a morte súbita tem origem em fatores genéticos e/ou congénitos, sendo pouco frequente em mulheres e mais frequente em afro-americanos (raça negra) daí a importância de uma maior acuidade diagnóstica neste grupo em particular.

Quais os exames realizados na pré-temporada ao nível cardíaco?

Na avaliação de um atleta para a prática desportiva em pré-temporada, deve ser efetuado exame clínico (médico desportivo) rigoroso, em espaço físico adequado, contemplando uma história clínica detalhada, incluindo antecedentes pessoais e familiares. No exame físico, deve ser privilegiada a auscultação cardíaca, a palpação dos pulsos femorais, aos valores de pressão arterial e a eventual presença de características físicas próprias da síndrome de Marfan. A avaliação clínica sem recurso a exames complementares de diagnóstico, embora de especial importância demonstrou não ter a sensibilidade suficiente para garantir a deteção da muitas das anomalias cardiovasculares causadores de morte súbita em jovens atletas. Por isso, desde 2005, as linhas de orientação europeias para rastreio de doença cardíaca em jovens atletas passou a incluir no seu protocolo de atuação, a realização de eletrocardiograma. Em casos com suspeição de patologia e, sobretudo em alta competição, deverá ser efetuado Ecocardiograma com doppler, Provas de esforço, estudos cintigráficas, Ressonância Magnética cardíaca e doseamentos analíticos (sistema renina angiotensina, oxido nítrico e marcadores preditivos de risco.

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Está provado que o desporto faz bem à saúde. Por outro lado, a intensidade do desporto de alta competição é prejudicial para os atletas?

O desporto é, inquestionavelmente, um pilar importante na manutenção da saúde. Em 1977, Jim Fixx incutiu nos USA, e no resto do mundo, a perspetiva da prática desportiva como fator de bem estar físico, psíquico, prevenção de doenças e longevidade. O seu livro" The complete Book of the Running Athlete" continua a ser um marco na história do fitness/jogging. Curiosamente faleceu aos 52 anos enquanto corria. O desporto de alta competição implica outros parâmetros e confina um constante desafio às capacidades físicas, psicológicas e adaptativas. É inegável que as cargas físicas, repetitivas de elevada magnitude e frequência levam a desgaste articular e maior incidência de artrose da anca e joelho, nomeadamente nos futebolistas. A prática desportiva em condições adversas de temperatura e humidade, a intensidade do treino, a capacidade de adaptação cardíaca e musculo esquelética requerem um superorganismo que, obviamente, poderá falhar levando ao surgimento de lesões graves, patologias diversas e inclusive morte súbita

É possível ter mais meios num estádio de futebol para agir de imediato nestes casos de reanimação?

É desejável que qualquer competição desportiva tenha um acompanhamento por pessoal médico e/ou paramédico treinado e apetrechado dos meios capazes de socorrer os casos mais graves de paragem cardio-respiratória, trauma crânio-encefálico ou trauma a nível da coluna (nomeadamente cervical) que podem ser devastadores em termos de morbilidade e mortalidade. A prontidão de meios de evacuação (ambulâncias medicalizadas) é também de fundamental importância.

Qual é o tempo razoável para uma equipa médica atuar e reanimar um doente sem que este fique com sequelas?

O tempo razoável para uma equipa médica reanimar e estabilizar um atleta é variável e apenas terá um objetivo: estabilizar e evacuar em condições de continuar o suporte em unidade hospitalar. O trabalho de equipa, o acompanhamento permanente do atleta e o contacto com os Hospitais, preparando a sua admissão, são fundamentais no sucesso de uma reanimação. Devemos ter em atenção que quando ocorre uma paragem cardiorrespiratória é fundamental iniciar manobras ressuscitação cardiopulmonar no espaço de 2 minutos. Após 3 minutos poderá instalar-se uma isquemia cerebral (falta de sangue a nível do cérebro) com progressivo agravamento da lesão cerebral. Por volta dos nove minutos é previsível uma isquemia e um dano cerebral irreversível.

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