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Injustiça ou evolução? As sapatilhas novas de que Usain Bolt não gosta

Injustiça ou evolução? As sapatilhas novas de que Usain Bolt não gosta

Usain Bolt, o homem mais rápido do planeta, não gosta, mas as novas sapatilhas de atletismo estão a ajudar corredores a serem melhores. Evolução natural da tecnologia ou uma vantagem injusta, estão a gerar polémica e a dividir opiniões.

Mais leves e feitas de forma a terem um impacto reativo no piso de material sintético onde decorrem as provas de atletismo, o objetivo é serem um "apoio" para que os atletas que os usam sintam um impulso mais forte na corrida no menor tempo possível.

No entanto, desde que surgiu, em 2016, este tipo de calçado tem causado polémica. Recentemente, Usain Bolt, velocista jamaicano e multicampeão olímpico e mundial, disse, citado pela agência "Reuters", que os avanços nesta tecnologia que podem ajudar a quebrar os seus recordes são "ridículos" e que o novo calçado oferece uma vantagem injusta sobre os atletas que não os usam.

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"Quando me contaram sobre isso, não consegui acreditar que é para isto que temos andado. Que estamos realmente a ajustar os pitões a um nível em que agora está a dar aos atletas a vantagem de correr ainda mais rápido", afirmou. "É estranho e injusto para muitos atletas porque sei que, no passado, elas [empresas de calçados] realmente tentaram e a direção [da Federação Internacional] disse 'não, não podem mudar os pitões'. Então, saber que agora estão realmente a fazer isso, é ridículo".

Mas as sapatilhas não são novas. Surgiram em 2016 pelas mãos da Nike que, nesse ano, criou o projeto "Breaking2" com o objetivo de quebrar a barreira das duas horas da maratona.

Para isso, explicou ao JN António Sousa, técnico nacional de meio-fundo longo, corta-mato e estrada da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA), a empresa fez um "investimento enorme" e desenvolveu um novo modelo de sapatos de corrida chamado "Vaporfly Elite" que tinha características "completamente diferentes" do que existia antes: solas mais altas (de 10 milímetros passaram para 40) e uma placa de carbono "com o feitio de uma colher" que "funcionava como uma mola". Assim, parte da energia que o atleta colocava no calcanhar ao pôr o pé no chão era-lhe devolvida.

Mais tarde, foi adicionada uma nova inovação: bolsas de ar na parte da frente do sapato com a mesma função. Ao pressionar o pé no chão, a energia usada era-lhe devolvida não só no calcanhar, como também na parte da frente, dando-lhe um impulso maior.

Desde então, a Nike e várias outras marcas de calçado continuaram a criar modelos cada vez mais avançados de sapatos para atletismo.

"Já disse aos meus atletas para comprarem. Pode fazer a diferença entre ir ou não ir aos Jogos Olímpicos", afirmou ao JN João Abrantes, técnico nacional de barreiras, velocidade e estafetas da FPA, acrescentando que já viu pessoas a bater recordes pessoais com modelos recentes deste tipo de sapato.

Para o treinador, o uso destes sapatos "pode fazer uma diferença significativa para quem já é muito bom e está a tentar melhorar um ou dois centésimos de segundo. Mas não para os fracos. Mais um ou menos um é igual".

Por sua vez, António Sousa considera que "não é uma questão de justiça" e que "há regras em função das provas". Segundo o técnico, a World Athletics, nova designação da Associação Internacional de Federações de Atletismo - IAAF -, criou um grupo de trabalho para regulamentar as provas e o tipo de equipamento que poderia ser usado. Assim, ficou definido que, nas provas de estrada, os sapatos só podem ter até 40 milímetros de altura e uma placa de carbono. Nas provas de pista, a altura das solas só podem atingir os 25 milímetros.

João Abrantes acrescenta ainda que a evolução da tecnologia dos sapatos de atletismo é "normal" e "nunca vai ser demais". "O que é facto é nunca parámos de evoluir. Não atingimos o auge. Daqui a duas ou três décadas, vamos ser ser olhados com condescendência [pela tecnologia que temos agora]", continuou.

O técnico recordou ainda que, antes, corria-se em pistas de terra batida - hoje corre-se em pistas de material sintético. "Não se pode impedir a evolução. Os treinadores estão sempre à procura de melhores condições de treino, os cientistas de métodos de recuperação mais sofisticados e as empresas de melhores tecnologias. É a lógica do ser humano ser melhor", explicou.

António Sousa concorda: "É a evolução normal dos tempos". Considerando que as condições devem ser "iguais para todos", o treinador estabelece apenas um limite: "Neste momento, estes sapatos devolvem quase 100% da energia usada pelo atleta. A partir do momento que devolverem 101%, 102% da energia, é injusto. A barreira está muito próxima, mas ainda não foi ultrapassada".

Oscar Pistorius

Conhecido como "Blade Runner" por não ter as duas pernas e usar próteses finas feitas de fibra de carbono, o sul-africano Oscar Pistorius foi o primeiro atleta olímpico e paralímpico da história a competir simultaneamente e em igualdade de possibilidades com atletas sem deficiências a nível mundial e olímpico.

Nos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, a participação de Pistorius foi rejeitada pela Associação Internacional de Federações de Atletismo por considerar que as suas próteses lhe conferiam vantagem sobre os demais atletas.

Para a IAAF, a utilização da prótese violaria a regra da competição nº 144.2 (e), que proíbe o uso de qualquer equipamento que incorpore molas, rodas ou qualquer outro elemento que forneça ao atleta uma vantagem sobre outro.

Pistorius venceu quatro medalhas de ouro, uma de prata e uma de bronze nos Jogos Olímpicos de 2004, 2008 e 2012.

O atleta está agora preso depois de ter sido condenado, em 2014, pela morte da namorada, Reeva Steenkamp, um ano antes. Em 2017, a sentença foi aumentada de seis para 13 anos e cinco meses de prisão.

Michael Phelps

Nos Jogos Olímpicos de 2008, Michael Phelps causou polémica devido ao seu fato de banho "Fastskin", inspirado na pele de tubarão e criado pela marca Speedo.

Durante as competições de natação daquele ano, 80% das medalhas foram concedidas a nadadores que usavam fatos de banho Fastskin. Além disso, dos 15 recordes mundiais de natação quebrados, 13 foram alcançados por atletas com os mesmos fatos.

Michael Phelps fez história nesses mesmos Jogos Olímpicos ao ganhar oito medalhas de ouro, mais uma do que o recorde que Mark Spitz tinha estabelecido em Munique em 1972.

Um dos fatos de banho, chamado LZR Racer, fez tanto sucesso que a Federação Internacional de Natação (FINA) o baniu.

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