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Comentário: Homem de um só rosto e de uma só fé

Comentário: Homem de um só rosto e de uma só fé

Vinte e cinco anos é muito ou pouco tempo? Depende do homem e da obra. Para mim, que convivi com José Maria Pedroto nos tempos conflituosos e conturbados da afirmação do F. C. Porto como clube de projecção nacional e internacional, não é muito nem pouco - é nada.

Foi ontem. Com Pedroto (e Pinto da Costa) abriu-se uma nova era no futebol português. Combatente, desde a primeira hora, contra a macrocefalia da capital, conseguiu libertar o clube das amarras da subalternidade desportiva, em relação à hegemonia futebolística, então concentrada em Lisboa. Foi, a seu modo, um libertador de um passado clubístico inerte e conformado. Transformou o cinzento em azul. Era um homem de convicções graníticas e de uma personalidade que o levou a semear inimigos por todo o lado, mas também uma legião de admiradores.

Guardo, na minha secretária, religiosamente um manuscrito seu que me legou, antes da primeira entrevista que deu, em pleno "Verão quente", do F. C. Porto, ocorrido em 1979, depois de ter sido bicampeão e ganho uma Taça de Portugal. Contra os "doutores" e deputados centralistas, escreveu: "Eu sou mais pé descalço, mais povo, hei-de levantar, sempre, a voz a reclamar e a defender os legítimos interesses da cidade do Porto". Transcrevendo Miguel Torga, ilustra a sua identidade: "Prefiro mil vezes o ódio dos que estão ao desprezo dos que hão-de vir. Verídico, alimento a esperança da companhia sincera de alguém; mentiroso nem a dos mentirosos de agora".

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