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Do xixi às desavenças com Jesus. As polémicas no livro de Bruno de Carvalho

Do xixi às desavenças com Jesus. As polémicas no livro de Bruno de Carvalho

Bruno de Carvalho lança hoje, sexta-feira, o livro "Sem Filtro", escrito em co-autoria com Luís Aguilar. O ex-presidente do Sporting conta alguns episódios que ocorreram durante cinco anos e meio no topo do reino do leão. Passa a pente fino a relação com os três treinadores que contratou, com Ricciardi ou o processo que levou à sua destituição no verão passado. E promete "uma segunda parte".

JORGE JESUS

"Ligo ao Costa Aguiar, o empresário do Jorge: «Então, mas o que é que ele quer?», perguntei. Do outro lado vem a resposta: «O homem não está bem. Quer 8 milhões, precisa de 8 milhões, têm de ser 8 milhões». Acabei por dizer que sim"

"A verdade é que quando se começou a falar que Jorge Jesus poderia ir para o Sporting, os comentadores desportivos riram-se. Era uma piada, diziam, porque em Alvalade não havia poços de petróleo, ou minas de ouro. E depois acabaram-se as gargalhadas"

"Preparámos um vídeo com as imagens dele e do pai quando jogavam no Sporting. O Jorge emocionou-se. Olhei para ele e percebi que estava a soprar e a respirar fundo para não deixar que as lágrimas lhe escorressem pela cara"

"O Jorge gabava-se de ter a sua própria estrutura internacional para analisar vários jogadores e, se fosse preciso, contactar diretamente os agentes e os clubes dos atletas nos quais poderia estar interessado. Logo por aqui se pode perceber que esta prática é bastante incompatível com o facto de ser um técnico que está no clube com várias pessoas para se ocuparem dessa função"

"Nunca o demoveu de tentar fazer as coisas à sua maneira. E sempre com o mesmo pretexto: «A estrutura do Sporting não é boa, não confio. Prefiro ser eu»"

DESGASTE DO PLANTEL COM JESUS

"Com ou sem Adrien, Jorge Jesus era um homem cada vez mais agressivo na segunda e na terceira época. Chegava quase a ser insuportável"

"Estava a desgastar toda a gente e começou a arruinar a nossa confiança no seu trabalho"

"Se puder, tem o presidente a trabalhar em exclusivo para ele durante 24 horas por dias (...) Era difícil fazê-lo perceber que o Sporting era mais do que o Jorge Jesus".

MARCO SILVA

"Quis despedir Marco Silva na pré-temporada. Foi uma desilusão total. Chegou ao ponto de estar a ver os nossos jogadores à pancada sem fazer nada"

"Os nossos problemas começaram logo no dia em que o Inácio apareceu no meu gabinete, algo aflito, e me apresentou a lista dos jogadores que o Marco queria levar para estágio de pré-época na Holanda"

"O grande motivo de discórdia nessa primeira discussão foi o João Mário. O Marco considerava que ele poderia ser uma segunda ou terceira opção, mas nunca titular"

"Demonstrei-lhe todo o meu desagrado. Tivemos uma conversa muito séria e pouco simpática. Disse-lhe que não admitia que os funcionários do Sporting estivessem ao serviço de terceiros [Doyen]"

JORGE MENDES

"Cheguei a presidente do Sporting Clube de Portugal nas eleições de 23 de março de 2013. Não precisei de muito tempo para chocar de frente com alguns poderes instalados no futebol. Estou a falar de indivíduos habituados a comandarem as regras do negócio como bem entendem e que não admitem ser contrariados. Um deles? Jorge Mendes"

"Estava no meu quarto de hotel a preparar-me para entrar no jacuzzi, e relaxar por uns minutos, quando toca o telemóvel. «O Jorge Mendes? Bolas, logo agora?», desabafei. «É o Jorge Mendes, tens de atender», disse a minha mulher. Lá desci as escadinhas do jacuzzi e aceitei a chamada. «Jorge, tudo bem?» - «Olha, é só para te dizer que não há propostas pelo Rui Patrício», disse-me ele. «Ok», respondi. «Não há, não há. Sem problema». Afinal era o Mónaco"

"Foi tudo tão surreal, tão esquisito, que é lógico que fiquei de pé atrás. Como poderia voltar a confiar nele?"

"Ainda antes da nossa chegada, Jorge Mendes conseguiu mandar a equipa para quarto lugar em algumas épocas, através dos negócios que efetuou com o Braga. O próprio António Salvador, presidente dos minhotos, chegou a dizer, em determinado momento, que eles eram o terceiro grande. Pela relação próxima que mantém com o Benfica e o Braga, creio que Jorge Mendes fez isso de consciência. A ideia era colocar o Sporting de quarto para baixo"

REESTRUTURAÇÃO FINANCEIRA

"Existia um espírito de satisfação e de alívio por, finalmente, termos chegado a um patamar de entendimento [entre Sporting, BES e BCP] que em muitos momentos parecera impossível de alcançar. É então que Joaquim Goes [BES] se levanta e diz que tem de ir à casa de banho. Fiquei sozinho com Miguel Maya [BCP].

"Miguel Maya resolveu criar uma dificuldade inesperada e totalmente desnecessária naquela altura. Disse-me que o Millennium só assinava a reestruturação caso eu me comprometesse a fazer um pedido de desculpas público"

"Não aguentei aquela conversa. Agarrei nas folhas do pré-acordo que estavam em cima da mesa e atirei-as para o ar. Os ânimos estavam exaltados. Gritos da minha parte. Gritos da parte dele. Palavras duras.. É nesse momento que entra Joaquim Goes. Vê as folhas no chão e assiste a toda aquela discussão. Com um ar muito inocente e triste, diz uma das frases que jamais esquecerei: «Mas eu fui só fazer xixi»"

JOSÉ MARIA RICCIARDI

"Vamos quebrar um mito: José Maria Ricciardi não teve qualquer influência na reestruturação que alcançámos com a banca. Pelo contrário. Aliás, não tenho qualquer problema em dizer que ele era uma das pessoas que queriam que nós caíssemos pouco tempo depois de termos tomado posse"

"Passado uns meses, porém, parecia ter mudado de opinião e confessava estar rendido ao nosso trabalho"

"Vivi uma história bizarra com ele. Estávamos na sala da direção, em Alvalade, com a porta aberta, a falar normalmente. De repente, põe-se de joelhos à minha frente e agarra-me as pernas. «Perdoe-me, perdoe-me. Estava tão enganado ao longo destes últimos vinte anos. Cometemos tantos erros. Obrigado por tudo o que está a fazer pelo Sporting», dizia ele. Fiquei atónito com aquela reação: «Ó homem, está tudo perdoado, mas, por favor, levante-se do chão. Passa aqui alguém, veem-no de joelhos e ainda ficam a pensar outra coisa. Largue-me as pernas, por favor»"

"Não tenho qualquer dúvida de que ele é o grande estratega de uma série de acontecimentos que levaram à nossa destituição. Foi o responsável por criar um clima de terror à nossa volta e por virar muitas pessoas contra nós"

PINTO DA COSTA

"Consegue ser uma pessoa que transmite boas vibrações. É um grande anfitrião. E também cumpriu com tudo aquilo que combinámos, como não entrar em corridas pelos mesmos jogadores, fosse no futebol ou noutras modalidades. Caso estivéssemos interessados no mesmo atleta, aquele que tivesse contactado primeiro ficaria com esse direito de preferência".

PRÉ-ALCOCHETE

"O meu comportamento mudou, sim. Não vou negá-lo. Deixei de transmitir a mesma estabilidade emocional. Só que por outros motivos que nada têm a ver com substâncias de qualquer ordem"

"Ao mesmo tempo o meu casamento também começava a ruir. Não apenas pela gravidez de risco, mas também por um conhecimento cada vez maior da mulher que estava comigo. Comecei a perceber que ela se tinha casado com o presidente do Sporting e não com a pessoa. Nessa fase, fiquei sem um verdadeiro porto de abrigo"

FOTO NO POSTO MÉDICO

"Hoje, consigo reconhecer que possivelmente fui injusto. Depois de pensar melhor, e olhar bem para a fotografia, lembrei-me das poucas pessoas que estavam naquele enquadramento. Um deles era o nosso médico, e atual presidente do Sporting, Frederico Varandas. Lembro-me bem de que, num dos momentos em que me virei, ele continuava a mexer no telemóvel"

TROCA DE MENSAGENS COM JOGADORES NAS REDES SOCIAIS

"A estratégia de Jesus estava montada: quis fazer passar a imagem de que ele é que tinha segurado as pontas no meio daquele desentendimento que tive com o grupo e, dessa forma, tentar que os jogadores voltassem a ficar com ele. A verdade é que há muito tempo o plantel estava farto do treinador e ele sabia disso"

DESPEDIMENTO DE JORGE JESUS

"Quis ser totalmente sincero com ele transmitir-lhe que não iríamos continuar com ele na época seguinte (ainda tinha contrato por mais um ano) para lhe dar tempo de começar a pensar no seu futuro"

"Tive de lhe explicar várias vezes que ele não estava despedido, que nenhum deles estava despedido, precisavam de ter um papel na mão com a suspensão a abrir o processo disciplinar para despedimento"

"Nesse momento, e já depois da "tradução" de Raúl José, ele virou-se para mim e disse: "Então o treino que estava marcado para de manhã passa para a tarde". A mim não me surpreendeu, porque a alteração de treinos é uma prática regular dos treinadores, nomeadamente do Jorge".

"Saiu da reunião convencido de que estava despedido e, por isso, quis passar o treino para a tarde por pensar que já não seria ele a dá-lo"

ALCOCHETE

"Segui para o balneário onde ainda estavam alguns jogadores. O Bas Dost (...) tinha sido agredido com a fivela de um cinto e mostrou-me a ferida que tinha na cabeça. (...) O Podence só se ria, de forma muito nervosa, porque ainda estaria em choque. (...) Foi aí que tive a verdadeira noção do que se tinha passado".

"O melhor teria sido treinar na Academia ou em Alvalade logo no dia seguinte aos ataques para tentar transmitir alguma normalidade aos jogadores"

"Outra particularidade de Varandas: costumava vir ter comigo e dizer cobras e lagartos sobre o Jorge. Que era um mau treinador, massacrava os jogadores (...) que não ouvia as recomendações do departamento clínico"