Bola e política

George Weah presidenciável "à revelia" de Jorge Costa

George Weah presidenciável "à revelia" de Jorge Costa

O destino prometido a uma antiga estrela dos estádios de futebol, um dia detido pela PSP do Porto após bárbara agressão a Jorge Costa, defesa do F. C. Porto, ainda nas Antas. George Weah foi processado e teve julgamento marcado e tudo, mas o Tribunal Criminal do Porto não conseguiu notificar o então craque do A.C. Milan, agora candidato à presidência da Libéria.

As redes sociais já anunciaram o Melhor Jogador de África do século XX, assim eleito pela FIFA, e o Bola de Ouro de 1995 como vencedor das eleições preliminares para a Presidência da Libéria, realizadas na terça-feira, mas nenhum resultado foi oficializado. E para aumentar a incerteza, um dos 20 candidatos, Charles Brumskine, do Partido da Libertade, solicitou, esta quinta-feira, a revisão dos resultados, alegando fraudes eleitorais. Os resultados só deverão ser conhecidos no próximo dia 25, a duas semanas da segunda volta das eleições, agendadas para 7 de novembro.

Seja como for, tudo indica que George Weah, o candidato dos desfavorecidos, que são a esmagadora maioria dos dois milhões de eleitores de um dos países mais pobres do planeta, surge à frente das "sondagens" e deverá discutir a eleição com Joseph Boakai, ex-vice-presidente, visto como herdeiro do sistema.

Aos 51 anos, Weah vai na terceira tentativa e aproxima-se, finalmente, da eleição, que levará à Executive Mansion, ao palácio presidencial de Monróvia, uma antiga estrela dos estádios de futebol, senhor de uma carreira ímpar, em grandes clubes europeus, e também de um feitio sulfuroso. Que o diga outro futebolista contemporâneo, o defesa central português Jorge Costa, ex-F. C. Porto, com quem travou duelos de faísca na Liga dos Campeões.

O ex-futebolista, que está para suceder a Ellen Johnson Sirleaf (primeira mulher a presidir a um estado de continente africano e que pacificou o país após a guerra civil que matou mais de 150 mil liberianos entre 1989 e 2003) e que também promete "manter a Libéria no rumo do desenvolvimento" é o mesmo que, um dia, em novembro de 1996, foi detido pela PSP do Porto, no Estádio das Antas. Agrediu Jorge Costa no final de um jogo da Liga dos Campeões, no túnel de acesso aos balneários, onde se escondeu, sorrateiramente, à espera de apanhar o capitão do F. C. Porto desprevenido, para lhe desferir uma violenta cabeçada.

Além do orgulho ferido, o defesa portista teve de ser operado ao nariz, ficando impedido de dar o contributo à equipa e à seleção nacional durante algumas semanas. O craque liberiano sempre disse que estava zangado com o jogador português desde o jogo realizado duas semanas antes, em Milão, e acusou Jorge Costa de racismo, o que este sempre negou.

Weah foi processado, mas o julgamento foi sempre adiado, porque o Tribunal Criminal do Porto não encontrou maneira de localizar o jogador liberiano, por forma a notificá-lo para comparência perante o juiz. Nessa altura, já Weah tinha deixado o Milan, para jogar, sucessivamente, no Manchester City, no Chelsea e no Marselha. Acabou a carreira com um contrato das arábias, no Al Jazirah.

Nos Emirados, Weah vivia no fausto: assinou os dois últimos anos de contrato, à razão da bagatela de 4,5 milhões de euros anuais, mais dois milhões em alcavalas. Morava num palacete propriedade do emir, rodeado por um exército de criados e cozinheiros, tinha uma frota de automóveis de luxo e motorista particular. Tudo num apertado esquema de segurança, composto por... 24 guarda-costas!

Foi nessa altura que o "Mister George" se converteu ao islamismo e que também passou a responder pela graça de Ousman! Se foi ou não por se ter rebaptizado, certo é que a Justiça portuguesa nunca deu com ele, apesar de o Ministério Público ter recorrido a todos os canais diplomáticos. Weah foi um trota-mundos - sempre, notoriamente, sem nome na caixa do correio... -, mas até podia ser apanhado pouco depois de Jorge Costa ter apresentado queixa em tribunal: sabia-se que a estrela africana vinha a Lisboa receber o prémio Fair Play (!!!) com que a FIFA o distinguira, mas as autoridades portuguesas não o apanharam, ou porque desconheciam a vinda do craque ou porque, simplesmente, não havia que estragar a festa da FIFA.

Por fim, aos 34 anos, após concluir a carreira, Ousman foi viver para a Monróvia natal, onde patrocinou uma universidade homónima e onde sempre foi visto como um grande benfeitor, sobretudo em obras de caridade para crianças. A estrela da bola rapidamente ingressou nos corredores do poder e nunca escondeu ambição política. Foi eleito senador, perdeu as eleições presidenciais de 2005 e de 2011, mas não desistiu e vê agora reaberta a porta para o mais alto cargo do país.

Entretanto, na voragem de Internet e na precipitação das notícias que não se confirmaram, de toda a parte do Mundo chegaram a Monróvia felicitações a George Weah. De toda a parte, é como quem diz... Não consta que o "O Bicho" tenha utilizado os canais diplomáticos ou quaisquer outras vias para congratular o astro liberiano.

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