Alvalade

Recorde a entrevista do novo presidente do Sporting ao JN

Recorde a entrevista do novo presidente do Sporting ao JN

Foi numa manhã nublada que Frederico Varandas aceitou, com boa disposição, estar à conversa com o JN. O primeiro candidato assumido às eleições presidenciais do Sporting, eleito na madrugada deste domingo sucessor de Bruno de Carvalho, explicou-nos os motivos da candidatura, mas também relatou alguns dos momentos vividos no clube, pois era o diretor clínico até há bem pouco tempo. Num nome, o médico militar que esteve na guerra do Afeganistão definiu o principal responsável pelo momento mais difícil da história verde e branca: Bruno de Carvalho. A entrevista aconteceu em sua casa, a 28 de junho, apenas dois dias depois de ter anunciado a candidatura. Recuperámo-la agora.

O que vai mudar com Frederico Varandas na presidência?

Primeiro, para ter resultados, preciso de unir, de reestruturar o clube e ganhar no que falta, no futebol. O Sporting está na maior crise de sempre e ganhou em praticamente todas as modalidades, falta o futsal onde vamos para a negra. Falta o futebol. Isto significa o quê? Que o futebol é a mola disto tudo. E o que quero é ganhar no futebol e nas modalidades.

Ganhando no futebol, há abertura para não ganhar nas outras modalidades?

Não, é ao contrário. Se o Sporting continuar mal no futebol, é inevitável o desinvestimento nas modalidades a médio prazo. O motor do clube é futebol.

O que levou o Sporting a estar mal este ano?

Andou a ser muito mal gerido. Foi uma péssima gestão de recursos humanos, de ativos, da comunicação entre profissionais e adeptos, que levou a tudo isto.

Quando é que decidiu candidatar-se?

Houve dois momentos. A decisão da minha demissão foi durante a época passada. Já tinha decidido não continuar no Sporting. A decisão da candidatura foi no Jamor.

E o que o levou a avançar?

Ver que o clube não podia estar como estava, na pior crise institucional, desportiva, entre adeptos. Há um ambiente doentio no clube. Nunca tive o desejo de ser presidente. O meu desejo sempre foi ver o Sporting ganhar. É por isso que aqui estou. Sou um sócio no momento certo, no sítio certo, com conhecimento certo para levar esta missão para a frente.

Unir o Sporting inclui ter o apoio de José Maria Ricciardi e de Álvaro Sobrinho?

São coisas diferentes. Unir o Sporting significa colocar os interesses do Sporting acima dos individuais.

Mas tem o apoio de Ricciardi e Sobrinho?

Não falei nem com um, nem com o outro. Sobrinho é sempre um fantasma que paira no ar... Se há coisa que defendo é que o presidente do clube tem de ser o presidente da SAD. É a forma de defender o clube dentro da SAD. Respeitarei todos os acionistas e penso que serão mais valorizados comigo, porque se o futebol ganhar, eles também ganharão. Um pilar da minha candidatura é o Sporting manter-se com a maioria da SAD.

Como será a sua relação com a Banca?

Bruno de Carvalho ameaçou que estava em curso uma reestruturação financeira e de dívida muito importante para a SAD. Pois bem, essa reestruturação faz-se na mesma. Não existe um pacto entre as entidades bancárias e Bruno de Carvalho. Existe entre as entidades bancárias e o Sporting.

O Sporting tem atravessado vários momentos conturbados. Um deles foi o ataque a Alcochete. Como viveu esse momento?

Da maneira possível que se vive um momento daqueles. Já muito se falou. Era diretor clínico, hoje sou apenas sócio e candidato à presidência do Sporting. Considero que esse momento está entregue à investigação das entidades competentes.

Aparece a rir num vídeo, teme que isso o possa prejudicar?

Vou fazer uma correção. Não apareço a rir, mas a sorrir. Lembro-me desse momento. Tirei o Bas Dost do balneário, para a enfermaria. Ele estava a sangrar. Voltei para a confusão e foi num momento em que os agressores estavam a sair. Ainda se ouviam barulhos e não se sabia se estavam ali. O_Salin, guarda-redes, disse: é melhor ir o doutor na frente, que está habituado à guerra. E sorri. Há muitas maneiras de encarar problemas daqueles. Há quem entre em pânico. Há quem fuja. Há quem fique na frente e transmita calma. Eu sou dos que estão sempre na frente. Posso ter medo, mas não demonstro.

O que se passou nos últimos meses fazia antever um fim assim?

Não. Realmente achava, todas as semanas, que o Sporting estava no fundo. E na semana seguinte conseguíamos cavar mais um bocadinho. Mas isso é passado. Neste momento, dia 23, como já disse, foi um dia zero. Os sportinguistas disseram de uma forma esmagadora e muito clara o que não querem, o que não voltarão nunca mais a tolerar. E não querem mais Bruno de Carvalho.

Acha que é ele o principal responsável pelas rescisões?

Os sportinguistas votaram pela destituição de Bruno de Carvalho pela degradação da relação dele com os profissionais. Para mim, houve muitos erros no meio, mas o responsável por este processo e por ter terminado com as rescisões foi Bruno de Carvalho.

Vai defender os interesses do Sporting de forma acérrima no que respeita às rescisões dos jogadores. Ainda terá algo para resolver se for eleito?

Esperava que estivesse tudo resolvido, com o regresso de todos os jogadores. Gostaria muito disso.

Já disse que Bruno de Carvalho é passado. Não conta enfrentá-lo nas eleições?

Nunca esperei outro resultado que não fosse a destituição de Bruno de Carvalho. A relevância que Bruno de Carvalho tinha para ir a eleições perdeu-se no dia 23.

Está preparado para entrar no clube e na SAD_já com a época em andamento, com as decisões tomadas, mesmo que não concorde com as mesmas?

Para mim, é muito tarde. Vou herdar uma estrutura delineada. É muito mau para quem quer que seja presidente, mas são factos. Não se podem mudar. Agora é tempo de dar paz à Comissão de Gestão para fazer o que acha melhor. Mas eu tenho uma vantagem. Conheço aquela estrutura como a minha mão. Sei quem é muito bom, quem é razoável, quem está mal e pode dar mais noutra posição. Sei potenciar todas aquelas pessoas. Por isso é que quando me dizem que o Sporting está condenado, vai levar dois ou três anos a levantar-se e poder lutar pelo título, isso é mentira. O Sporting tem uma dimensão que torna impossível não lutar pelas vitórias. Agora, é preciso conhecer o que está lá, tenho o raio-X muito bem feito de tudo o que quero fazer.

O treinador que será apresentado até segunda-feira será o seu também?

Jorge Jesus tinha uma frase... As pessoas pensam que o futebol é "PlayStation". Dia 8 de setembro chego lá, meto um treinador, o nome é muito bonito e temos de começar a ganhar. O treinador que encontrar é o treinador que fez a pré-época e começou a época. Pode não ser o treinador ideal, mas se conhecer o grupo, se já tiver moldado a equipa à sua forma de jogar, se já tiver uma ideia de jogo, o facto de ir buscar um treinador tecnicamente melhor, mas caindo de paraquedas, ao final do ano pode ter um pior resultado.

Acha que o Sporting parte em pé de igualdade com os rivais?

Nunca vai partir. Mas não estamos a falar de um sprint de 100 metros. Estamos a falar de uma maratona. Comigo o Sporting vai ganhar sempre. Se a 8 de setembro não tivermos cão, caçamos com gato, mas vamos caçar. Um bom líder transforma um gato em leão.

Na próxima época vamos continuar a vê-lo no banco?

No futebol aprendi a respeitar a área de cada um, dos jogadores, do presidente, dos treinadores, dos diretores. Não misturo. Sei quando um presidente deve falar, deve aparecer, deve ir ao balneário. Isso eu farei. Um presidente tem de estar próximo, assumir o futebol, mas não tem de estar no banco. E eu não vou estar no banco.

Qual é o seu plano para as modalidades?

A minha paixão no Sporting começou aos três anos. Entrei para a ginástica no tempo de João Rocha. Também a verdade é que não escolhi (risos). Foram os meus pais. É muito importante a vivência nas modalidades. E para mim o que Bruno de Carvalho fez é para manter. As modalidades são para manter. Gostaria de trazer o basquetebol. Mas quando chegar ao clube tenho de perceber as contas. v

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