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José Mourinho apresenta-se: "Treinar é realmente o que me faz feliz"

José Mourinho apresenta-se: "Treinar é realmente o que me faz feliz"

O treinador português José Mourinho foi, esta quinta-feira, apresentado oficialmente como treinador dos ingleses do Tottenham. Ontem, o técnico já tinha orientado o treino dos "Spurs".

"Em primeiro lugar, é com tristeza que penso que tenho e devo falar sobre o Mauricio [Pochettino]. Tenho de o congratular pelo trabalho que fez. Tenho de partilhar convosco aquilo que já partilhamos cá dentro, que é o facto de este clube será sempre a casa dele", começou por afirmar o técnico luso, continuando: "Este campo de treinos será sempre seu e pode vir cá sempre que quiser. A porta está sempre aberta para ele e, pela minha experiência, amanhã é outro dia e ele voltará a ser feliz. Irá encontrar um grande clube e ter um grande futuro. Será sempre bem-vindo".

Num ambiente de boa disposição, José Mourinho até brincou com o jornalista da Sky Sports por ter de deixar os comentários no canal para se tornar treinador do Tottenham. "Estou um pouco desapontado por estar contente por eu estar aqui, porque pensei que me quisesse manter na Sky", disse.

"Somos amigos e sabe muito bem que gostei do que fiz, mas esta é a minha vida e é onde pertenço, é realmente o que me faz feliz. Hoje não estou a sorrir tanto porque tenho um jogo daqui a dois dias, não é muito tempo para trabalhar, mas no fundo estou muito feliz", salientou Mourinho.

Apesar de os "Spurs" estarem na 14.ª posição da Liga Inglesa, o treinador luso acredita que tem grande potencial para melhorar, começando já no sábado frente aos rivais de Londres do West Ham.

"Não poderia estar mais feliz [com minha decisão de vir aqui]. Em relação à dificuldade do trabalho que tenho pela frente - sempre que um clube muda a meio da época, é porque a situação não é boa, isso é óbvio - a menos que algo de estranho aconteça sem sabermos. Basicamente, os resultados, às vezes, forçam essas decisões. O potencial do clube é enorme, o potencial dos jogadores é grande. Estou tão feliz que uma das razões pelas quais vim foi devido à visão que o senhor Levy colocou à minha frente sobre o clube e a qualidade dos jogadores e da equipa. Sei que tenho um ótimo trabalho nas minhas mãos", frisou José Mourinho.

O treinador português aproveitou para referir que não irá fazer mudanças drásticas no clube e procurará dar continuidade ao trabalho desenvolvido pelo antecessor. "Não posso pensar em chegar e que em dois ou quatro dias posso mudar as coisas. Não tenho grande experiência em pegar em equipas a meio da época, é apenas a segunda vez que o faço. Fiz isso no F. C. Porto em 2001/02, mas, durante estes meses, pensei sobre esta situação pois tinha uma sensação que iria conseguir ter uma equipa a meio da temporada", avançou.

"Eu preciso confiar na base e a base é o que foi feito antes. Eles estavam nas mãos de um bom treinador e equipa técnica. É claro que temos princípios de jogo e estilo de liderança que vão mudar, isso é óbvio, mas não posso chegar e pensar que é sobre minha impressão digital ou sobre mim mesmo. Não é sobre mim", anotou José Mourinho, referindo que "se tornou numa pessoa mais forte" nos 11 meses que se seguiram ao despedimento do Manchester United.

"Sempre pensei que estes 11 meses não foram uma perdida de tempo. Foram meses para pensar, pensar, para analisar e para preparar", explicou o novo técnico do Tottenham, avançando: "Nunca perdes o teu ADN, nunca perder a tua identidade, és o que és nas coisas boas e nas coisas más. Mas tive tempo para pensar em muitas coisas. Tenho consciência que ao longo da minha carreira cometi erros, mas não os voltarei a repetir".

"Estou mais forte. Não estou em forma, e estava sempre! Mas estou mais forte do ponto de vista emocional. Estou relaxado, estou motivado e estou pronto e penso que os jogadores sentiram isso nestes dois dias. Penso que eles sentem que estou pronto para os apoiar, isto não é sobre mim. Estou num período em que não é sobre mim, é sobre o clube, os fãs, os jogadores. Não é sobre mim. Estou aqui para tentar ajudar todos", assinalou José Mourinho, contando que aproveitou este tempo em que esteve sem treinar para fazer uma "profunda auto-reflexão".

"Sou humilde. Sou humilde o suficiente para tentar analisar a minha carreira. Não só o ano passado, analisar a minha carreira e a evolução que teve. Os problemas e as soluções. Sou humilde o suficiente para fazer isso. O princípio da análise foi o de não culpar mais ninguém. Quando tive reuniões com os meus assistentes e com as pessoas que pensei que me levaram até este capítulo foi sempre com base no princípio de que não havia mais ninguém para culpar ou analisar", afirmou.

"É apenas sobre nós. Foi uma coisa ótima, porque eu fui muito fundo nessa análise e foi realmente importante para mim. Não sou ninguém para aconselhar, mas, às vezes, fazer uma pausa, é muito positivo, pelo menos para mim foi", confessou, reconhecendo não ter sido fácil não trabalhar no verão pela primeira vez: "Senti-me um pouco perdido durante a pré-época, mas antes disso e depois disso foi um processo de aprendizagem". E brincou: "Até aprendi a ser um comentador especialista!".

E se durante a conferência de Imprensa de apresentação, insistiu várias vezes que que está mais humilde desde que deixou os "red devils", não tardou a que o "Special One" deu um ar da sua graça quando questionado se uma das causas para a má época seria a derrota na final da Liga dos Campeões da temporada passada.

"Não sei por nunca perdi uma final da Champions, mas imagino que não seja fácil. Atinges um dos pontos mais altos que podes desejar no futebol, está a um passo de o alcançar, mas não o consegues. Não consigo imaginar que isso seja fácil", ressalvou José Mourinho, dando o exemplo do Liverpool. "Eles perderam a Premier League por um ponto e a Liga dos Campeões por um golo, na época seguinte estiveram muito fortes no campeonato e venceram a Champions. Não acredito que haja uma regra. Isso depende de como as pessoas reagem e essa é a história deles no clube".

Os comentários depreciativos do treinador português, no passado, sobre o Tottenham, quando esta ao serviço do Chelsea, tendo chegado a afirmar que nunca treinaria os londrinos, foram desvalorizados.

"Isso foi antes de ser demitido. Isto é o futebol moderno. Em relação aos jogadores, a Lei Bosman mudou tudo. Em relação aos treinadores, por causa de vocês [comunicação social] nós perdemos a estabilidade que tínhamos", começou por justificar Mourinho, avançando: "Os relacionamentos são rápidos. Os jogadores podem cansar-se uns dos outros, podem cansar-se do treinador. Tudo é mais rápido".

"Quando fui para o Manchester United fui de mente e coração abertos. O clube ocupou o meu coração até com coisas que não gostei assim tanto. Mas gostei de tantas coisas lá, dos adeptos e das pessoas que trabalhavam no clube. Mas agora é sobre os Spurs e só espero ser feliz aqui, fazer as pessoas felizes e tentar garantir que não há maior fã do que eu. Se há uma pessoa no Mundo que quer que os Spurs vençam e tenham sucesso, não há ninguém que o queira mais do que eu, talvez o mesmo, mas não mais", frisou, avançando que o "Chelsea faz parte do passado, de um grande passado".

No futuro, Mourinho vê apenas o Tottenham e a vontade de levar o clube ao título na Liga Inglesa na próxima época. Até ao momento os londrinos contabilizam apenas dois títulos nas épocas de 1950/51 e 1960/61. "Não podemos vencer a Premier League esta temporada. Podemos, e não estou a dizer que o vamos fazer, vencer na próxima época", finalizou.