Tóquio

Medo e distância: eis os Jogos da era moderna

Medo e distância: eis os Jogos da era moderna

Maior competição do planeta arranca esta sexta-feira, à porta fechada e com Tóquio em pleno surto de covid. Comitiva portuguesa tem 92 atletas e o objetivo mínimo passa pela conquista de duas medalhas.

Se o Mundo não tivesse mudado, hoje pelas 12 horas portuguesas estariam quase 70 mil pessoas no Estádio Nacional de Tóquio a assistir ao vivo à cerimónia de abertura da maior competição desportiva planetária. Mas a pandemia de covid-19 não se limitou a adiar, por um ano, os Jogos Olímpicos de 2020: mudou o espírito dos mesmos, com a união e partilha entre atletas e adeptos a dar lugar ao distanciamento e ao medo de um vírus que deixa a capital do país do Sol Nascente praticamente alheada de um evento constrangido e limitado pelas regras do estado de emergência.

A ditadura dos números e o crescimento das novas variantes chegaram mesmo a colocar em perigo a realização dos Jogos da XXXII Olimpíada. A maioria do povo japonês era favorável ao cancelamento já em 2021, mas a competição vai mesmo realizar-se sob medidas sanitárias nunca vistas e que contrastam, em absoluto, com o que aconteceu em várias cidades-sede do recente Campeonato da Europa de futebol, que tiveram estádios lotados.

A bater, diariamente, o recorde de novos casos de covid-19 dos últimos seis meses - ontem foram registados 1979, dos quais quatro aconteceram na aldeia olímpica -, as autoridades nipónicas têm mostrado tolerância zero em relação a adeptos, atletas e mesmo jornalistas, muitos deles obrigados a longos períodos de quarentena à chegada ao país.

As provas - tal como a cerimónia de abertura -, serão realizadas à porta fechada, já que os responsáveis sanitários não autorizaram, sequer, a lotação de 10% dos recintos que chegou a estar prevista. Serão, assim, os Jogos mais estranhos e tímidos de sempre, restando esperar que os cerca de 11 mil atletas apurados esqueçam o silêncio das bancadas e proporcionem grandes momentos da história do desporto.

Ambição portuguesa

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Portugal chega a Tóquio 2020 com 92 atletas, que vão competir em 17 modalidades, e o Comité Olímpico Português estabeleceu o objetivo de conquistar duas medalhas, 12 diplomas olímpicos (atribuídos até ao oitavo lugar) e 26 "top 16". No entanto, várias publicações apontam que a qualidade lusa pode valer bem mais, com a Associated Press a prever, por exemplo, a conquista de quatro medalhas, duas das quais de ouro. É tempo de acender a chama olímpica e chegar "mais rápido, mais alto e mais forte" em Tóquio.

JUDO

Jorge Fonseca: "Principal rival sou eu mesmo"

Apontado como um dos principais favoritos à conquista de uma medalha na comitiva portuguesa, Jorge Fonseca, bicampeão do Mundo de judo em -100kg, partiu ontem para Tóquio. "É o sonho de qualquer atleta estar nos Jogos Olímpicos, mas eu não sinto pressão", afirmou o judoca no Aeroporto de Lisboa, acrescentando uma frase que não deixa dúvidas sobre o objetivo: "O objetivo é conquistar o ouro. O principal rival sou eu. Se eu estiver bem, ganho a qualquer um. Portanto, o principal rival sou eu mesmo".

Entrevista a Marco Alves, Chefe da Missão Olímpica

Como está a comitiva nacional a lidar com emoções de uns Jogos Olímpicos diferentes?
O fervilhar de emoções já está a dar os seus passos rumo à cerimónia de abertura, mas são, sem dúvida, uns Jogos diferentes. A magia da aldeia olímpica tem reservas, porque todos os cuidados são poucos. Não queremos que neste período pré-competitivo todo o esforço dos atletas nos últimos cinco anos possa ser afetado por alguma situação complicada. Estamos a ser testados todos os dias, mas temos zero casos identificados e esperamos continuar assim.

A logística e as exigências das autoridades japonesas estão a ser mais complicadas do que esperavam?
Muito complicado. Além de toda logística inerente à participação nuns Jogos Olímpicos, em que temos de transportar tudo o que é necessário, a pandemia obrigou-nos a tomar algumas decisões de última hora para resguardar os atletas.

Tais como?
Montámos um pequeno ginásio para evitar deslocações a zonas comuns, criámos zonas de treino mais controladas e outros serviços para apoiar os atletas. As exigências das autoridades e o processo de aprovação a toda a comitiva foi muito moroso. Já devíamos estar focados noutros processos e ainda temos de dedicar tempo a essas questões.

Essas contingências podem interferir na prestação desportiva dos atletas?
Como responsáveis da missão, cabe-nos assumir todos esses processos e diminuir a ansiedade nos atletas, para que eles se foquem apenas no treino e na preparação.

Há alguma tristeza por não se poder viver, desta vez, em pleno a verdadeira experiência olímpica?
Basta dizer que vamos participar na cerimónia de abertura destes Jogos, que é o momento alto da celebração da presença olímpica, sem o tradicional desfile dos atletas. Sei que serão encontradas outras soluções, nomeadamente na transmissão televisiva, que darão a dignidade que merece, mas claro que a experiência pode não ser mesma. Temos de viver com esta realidade.

O facto de Portugal ter uma das maiores comitivas olímpicas de sempre coloca alguma pressão para obtenção de medalhas?
Termos 92 atletas num contexto de Jogos Olímpicos é algo que já deve orgulhar o país. E se pensarmos que estes 92 atletas representam 17 modalidades diferentes ainda mais felizes devemos estar pela abrangência desta comitiva.

Mas podemos esperar alguns dias de glória?
Acho que antes de ser exigir uma avaliação através de uma simples contabilização de medalhas, temos de perceber o que estes atletas já fizeram para estar aqui. Reconhecer o seu esforço, identificarmo-nos com o seu trabalho e as suas histórias. Temos de conhecer a realidade para perceber o que se está a exigir.

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