Pinto da Costa

"O Sporting tem vantagem, os bancos já lhe perdoaram 100 milhões"

"O Sporting tem vantagem, os bancos já lhe perdoaram 100 milhões"

Na entrevista ao JN e à TSF, o presidente do F. C. Porto fala do Sporting, do Benfica, da arbitragem e do título tirado ao clube... no basquetebol.

Frederico Varandas teve mérito na conquista deste título do Sporting - e os seus jogadores, claro?
Acho que o Sporting teve mérito porque conseguiu umas coisas que são inéditas no futebol europeu, pelo menos. A nível mundial, pelo menos na América do Sul, há países onde acontecem coisas esquisitas. O Sporting conseguiu pela primeira vez e única ter um jogador que levou sete ou oito cartões amarelos e nunca cumpriu o castigo que todos os outros cumprem ao quinto. Eu não sei se é mérito do Varandas, ou se é mérito de quem. Agora que isso aconteceu com o Sporting, aconteceu.

Acha que foram os árbitros que tiraram o título ao F. C. Porto?
Nunca se pode dizer isso. Só conheço um caso em que isso é verdade: foi o último jogo de basquetebol, porque, no último segundo de jogo, uma falta que era a favor do F. C. Porto o árbitro tornou-a contra. Aí entregou o título ao Sporting. Agora, num campeonato com 34 jornadas, há jornadas em que a arbitragem é melhor, outras em que é pior, pode favorecer, pode prejudicar, portanto não vou dizer isso. Que a nós o senhor Hugo Miguel, em Moreira de Cónegos, nos tirou da luta pelo título, isso não tenho a mínima dúvida. Agora, não vou a ponto de dizer que foram as arbitragens que deram o campeonato ao Sporting. Não disse isso, nem nunca disse de nenhum campeonato.

O discurso das arbitragens não serve de desculpabilização para a incapacidade que o F. C. Porto demonstrou de jogar melhor futebol esta época?
Não, primeiro porque eu não me estou a desculpabilizar com as arbitragens e acabei por dizer exatamente o contrário. O único jogo em que...

Mas disse que em Moreira de Cónegos...
Isso toda a gente viu. Não houve ninguém que não dissesse que houve três penáltis flagrantes a favor do F. C. Porto. Isso é um facto. Agora, não vou dizer que foi por isso. Eu não disse que foi isso que tirou o título, disse que tirou da corrida ao título. Se o Sporting ganhasse os jogos que tinha, seria campeão como foi.

Que capacidade de investimento é que o F. C. Porto vai ter para a próxima época?
Vamos procurar melhorar a equipa sem entrar em loucuras, porque foram algumas loucuras, entre comas, que fizemos que levaram a cair no fair-play financeiro. Há regras da UEFA que temos que cumprir. Estou seguro de que vamos sair do fair-play financeiro e vamos procurar manter a competitividade que temos tido.

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É uma época exigente.
São todas.

O Benfica tem capacidade financeira, o Sporting alavanca-se agora com este campeonato e, portanto, venderá com certeza jogadores.
O Sporting tem uma vantagem sobre o F. C. Porto e o Benfica: os bancos já lhe perdoaram, ainda recentemente, 100 milhões de euros. Se me perdoarem as minhas dívidas, eu fico com fôlego para ir comprar jogadores. A nós ninguém faz isso. Os bancos nem nos emprestam, quanto mais dar. O F. C. Porto financia-se, quando tem que se financiar, na Inglaterra e na Alemanha, porque em Portugal...

Há outras motivações da Banca em Portugal? É isso que está a queixar-se?
Não faço ideia, não faço ideia. A única coisa que eu sei é que, por exemplo, quando foi o auge da pandemia, nós precisávamos de dois milhões de euros para pagar salários e a primeira resposta do Novo Banco foi não. Como nós tínhamos a receber muito mais do que isso da UEFA, e vem através da Federação, eu, pessoalmente, pedi a intervenção do dr. Fernando Gomes, que propusesse ao Novo Banco, com quem eles trabalham também, o empréstimo ao F. C. Porto, garantido pela Federação. Portanto, o risco desta operação para o banco era zero. Foi recusado! Quando os impostos que o F. C. Porto paga, e cada um de nós paga, grande parte deles vão para pagar o Novo Banco.

Têm as obrigações fiscais em dia?
O grupo F. C. Porto, no ano passado, entregou ao Estado 42 291 157,68 euros e temos de entregar pontualmente, porque senão somos multados, e os administradores respondem pessoalmente. No entanto, o Estado tem para connosco retido indevidamente IVA que nos devia ter sido devolvido até 31 de dezembro. Solicitámos justificação, não a deram. Foram intimados pelo tribunal e disseram que estava em análise. Tinham dois meses para responder, em março disseram que era em final de maio que pagavam. Já estamos em junho. Quer dizer, o Estado, que nos leva 42 milhões, depois o que é nosso retém-no durante seis meses sem explicações, obrigando-nos a recorrer ao tribunal. Isto é inadmissível. Parte disto, ou isto tudo, está no Novo Banco. E se sobrar algum, vai para a TAP. E, no entanto, um banco cujo negócio deve ser emprestar dinheiro de certeza que não encontrava negócio mais seguro do que emprestar dois milhões de euros a um clube que a Federação garantia com o dinheiro que era seguro que viria da UEFA. Agora, esse senhor que lá está, até foi reconduzido há dias, deve ter melhores negócios para aplicar o dinheiro mais seguro, o daquelas firmas que estouraram todas e que não lhes pagam.

Incluindo as de Luís Filipe Vieira?
Isso eu não sei. Questões pessoais tanto me faz que devam, que não devam, que tenham muito dinheiro, que tenham pouco. Isso para mim não é questão. Agora, é questão, por exemplo, que perdoem dívidas ao Sporting como, recentemente, 100 milhões, aí já me dói, porque é uma concorrência desleal.

Assumiu que o F. C. Porto terá dificuldade em fazer investimentos.
Mas têm todos. A mim, se me perdoarem as dívidas, se o Novo Banco perdoar, eu também posso investir. Agora, o fundamental era manter o equilíbrio e sair do fair-play, que vamos conseguir, e, depois, têm que ser, naturalmente, operações cirúrgicas. Não podemos esbanjar dinheiro a contratar jogadores.

E cirúrgicas em valores ou em posições específicas?
Em posições e em valor de jogadores. Já fizemos grandes investimentos, para o nosso normal, de jogadores que depois não renderam.

O Sérgio Conceição tem algumas exigências particulares?
Não. Nunca me falou de exigências particulares. Vamos começar a trabalhar para a semana naquilo que é preciso, porque vai, possivelmente, haver saídas de jogadores.

Quem é que vai sair?
Tem vindo no jornal, há interesse, por exemplo, da Fiorentina no Sérgio Oliveira. E há outros que poderão ou não, se realmente for importante a sua saída e se tivermos alternativa.

No ano passado, justamente numa entrevista que deu antes das eleições ao "Jornal de Notícias", disse que estava em negociações o "naming" do estádio. Como é que está esse processo?
Atrasou devido à pandemia, mas continua em curso. Estamos a negociar.

Até à próxima época?
Sinceramente, não acredito que seja já na próxima época.

Estamos a falar de que valores?
Estamos a falar, no mínimo dos mínimos, entre os cinco e os seis milhões de euros.

Uma das suas bandeiras, também antes das eleições, foi a construção do novo centro de treinos em Matosinhos. A obra ainda não avançou porquê?
Está na parte burocrática. Acho que está um bocado emperrada por causa das eleições autárquicas, porque quando há eleições autárquicas, se o autarca que está em exercício puser um prego na parede vão criticá-lo porque pôs um prego na parede, se tirar um prego que esteja na parede, vão criticá-lo porque tirou o prego. Estão, com toda a prudência, a fazer as coisas com a máxima segurança.

No próximo ano completa 40 anos de presidência. O que é que ainda falta fazer no F. C. Porto?
Falta tudo.

Falta tudo a nível de prémios?
Falta tudo o que não esteja feito. Falta ganhar muitos campeonatos, muitas taças, muitos campeonatos de hóquei, de basquetebol.

Portanto, é eternamente insatisfeito em relação ao que já conseguiu?
Sempre, sempre. Se eu for satisfeito, se eu me satisfizesse, tinha saído em 1987.

Mas 40 anos é um marco. É uma data redonda. Importante para ganhar campeonatos, para tomar decisões...
Para tudo. E o 39 também é, e o 38! Já viu? Quando eu fizer 50 anos de presidente, espero que o senhor ainda esteja em condições, vai-me perguntar o mesmo!

Mas já está a colocar essa fasquia tão alta?
A minha fasquia é até aos 100.

Poderemos contar com novas candidaturas?
Há duas condições: primeira, enquanto os sócios quiserem, porque não sou presidente do F. C. Porto porque dei algum golpe de Estado nem porque me fixei no poder. De três em três anos, há eleições, tenho-as vencido. Sinal de que os sócios querem. Quando os sócios não quiserem, eu imediatamente vou para a minha vida, que tenho muito com que me entreter. E é preciso também que eu me sinta motivado e com vontade de fazer coisas novas. Quando eu sentir que já não tenho ambição de fazer coisas novas, aí, então, vou escrever as minhas memórias.

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