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"O telefonema de Pinto da Costa mudou a minha vida"

"O telefonema de Pinto da Costa mudou a minha vida"

Dezasseis anos depois da estreia como sénior, ao serviço do Marco - emprestado pelo Boavista -, Pedro Emanuel, 34 anos, despediu-se dos relvados. Para os adeptos do F. C. Porto, clube onde se sagrou campeão europeu e mundial, trata-se de um "até já", uma vez que assumiu o comando da equipa de sub-17.

Cumpre-se, assim, a premonição de Mourinho, que lhe detectou qualidades inatas para ser treinador. Quem sabe, um dia, chegará ao banco principal do Dragão. Por agora, só pensa em vencer e ajudar a formar campeões. Como ele.

Por que decidiu encerrar a carreira, quando tinha a possibilidade de continuar por mais uma época?

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Habituei-me, no final da cada temporada, a fazer a avaliação ao meu desempenho. A época 2008/09 tinha sido muito positivo, em termos de equipa. Pessoalmente, também fiquei muito satisfeito, pois um tetracampeonato é sempre motivo de orgulho. Isto levou-me a concluir que poderia jogar mais um ano. A ideia inicial era essa, mas, depois, convidaram-me para integrar um projecto em que acredito bastante - Visão 611 -, na formação. Tratou-se de uma abordagem muito aliciante. Entendi ser mais interessante abraçar um projecto para o meu futuro. Saio de uma forma gratificante, orgulho-me do que fiz e vou continuar no F. C. Porto, o que era prioritário para mim.

Como encarou, pela primeira vez em 16 anos, não estar em plena pré-época, com o grupo portista?

Acabo por estar, mas com responsabilidades diferentes, nos sub-17. É curioso, mas, ao longo das férias, preparei-me como sempre, seguindo todas as regras, fazendo exercício e sendo equilibrado, para chegar em boas condições. Tudo igual, como se fosse iniciar uma pré-época como jogador. Ainda não me habituei... (risos)

José Mourinho foi o primeiro a apontar o Pedro Emanuel como um futuro treinador, dizendo que era uma extensão do técnico dentro do campo. Estas palavras tiveram alguma influência na sua decisão?

Sempre foi a minha forma de estar no jogo. Quando vi as declarações de José Mourinho, fiquei surpreendido, pois tratou-se de um elogio bonito. No entanto, em 2003, estava perto do auge da carreira e não me passava pela cabeça ser treinador.

Trilhou um percurso brilhante, mas nunca jogou no estrangeiro. Quando deixou o Boavista, teve hipóteses de sair para Espanha e Itália. Por que não o fez?

Tinha um trajecto bonito, com uma evolução muito boa, ao longo de seis épocas no Boavista, e acalentava esse objectivo. Surgiram dois convites, da Udinese e do Alavés, clube espanhol que tinha disputado a final da Taça UEFA. Tive tudo praticamente certo com o Alavés. Apresentaram-me um projecto muito interessante. Mas recebi um telefonema do presidente, a dizer-me que queria que viesse para o F. C. Porto. Felizmente para mim, o presidente conseguiu fazer-me mudar de ideias e tornar-me novamente campeão, como tinha sido no Boavista. Queria repetir e sabia que, vindo para o F. C. Porto, teria mais possibilidades. Não me enganei.

Foi o telefonema mais importante da sua vida?

Provavelmente, em termos profissionais. Agradou-me imenso sentir a vontade das pessoas em contratar-me. De facto, esse telefonema mudou a minha vida.

Quando chegou, em 2002, já era portista?

O meu pai sempre foi sócio do F. C. Porto e eu acompanhava-o ao estádio. Aos 11 anos, fui às captações, mas estavam 300 crianças na Constituição... Chamaram-me para o segundo dia, mas eu disse, em casa, que não ia, pois não reparariam em mim. Como o meu pai tinha um grande amigo no Boavista, fui lá e... fiquei.

No Bessa, foi campeão. Hoje, o Boavista vive dias difíceis...

Não posso ficar indiferente. Cheguei ao clube com 11 anos e saí com 27. Tive uma ligação muito forte com o Boavista. A ascensão meteórica do clube, se calhar, também foi um pouco prejudicial. Mas as recordações são as melhores, pelo que o que se passa agora é algo que me deixa muito triste.

Entretanto, também teve, no F. C. Porto, há oito dias, a sua despedida...

Foi mais um 'até já'. Uma homenagem linda. Senti que tinha de retribuir, pois fui muito bem recebido, apesar de vir de um clube rival. O tributo foi apoteótico, ainda por cima da forma como encerrou, com a homenagem do Raul, um colega de equipa e amigo, com o qual tenho uma relação especial. Fez-me a surpresa de ficar com a camisola 3. Está em boas mãos!

O Pedro Emanuel até chorou... O que lhe disse a sua filha?

No estádio, não se apercebeu. Em casa, perguntou-me por que tinha deixado, quando gosto tanto de jogar futebol. Expliquei-lhe e percebeu imediatamente, embora tenha ficado um pouco contrariada, pois a Daniela é, seguramente, a minha maior fã.

Para além do Pedro Emanuel, também saíram Lucho, Lisandro... Acha que o F. C. Porto vai ter uma época mais complicada?

Sempre saíram grandes jogadores e o F. C. Porto soube lidar bem com isso, pois possui uma estrutura muito forte, profissional e competitiva. As expectativas dos adeptos não serão defraudadas.

Nunca representou uma selecção nacional sénior. Atendendo a que ganhou tudo o que havia para ganhar ao nível de clubes, este dado deixa-lhe alguma mágoa?

Provavelmente, foi a única coisa que me faltou fazer no futebol. Deixou-me um pouco triste, é verdade, mas o futebol é isto mesmo... Na altura em que o professor Neca era seleccionador, tive uma abordagem para representar a selecção de Angola. Voltaram, mais tarde, a insistir, quando Angola se apurou para o Mundial da Alemanha. Pensei que podia ser uma ajuda válida para o país onde nasci e do qual me orgulho. Infelizmente, uma norma da FIFA impediu-nos, a mim e ao Chainho, de representar Angola.

Encontra, na sua personalidade, algum traço característico do povo angolano?

Há pouco tempo, após o final da temporada fui pela primeira vez a Angola, depois de ter deixado o país, com apenas três anos. Apesar de deixar transparecer uma personalidade séria e exigente quando estou a trabalhar, o que é uma realidade, tenho um espírito divertido e é nesse aspecto que me identifico mais com o povo angolano.

Tem negócios no ramo dos vinhos e da restauração. Foi com a perspectiva de, futuramente, investir que regressou?

Um dos objectivos da minha viagem residiu em avaliar eventuais negócios futuros, embora neste momento as coisas estejam um pouco paradas por lá, devido à quebra do preço do petróleo. Fui auscultar o mercado. Angola é um país em evolução e alguma destas minhas vertentes de negócio pode, um dia, ter um apontamento lá.

Ainda guardava memórias de Angola?

Apenas da casa grande e do meu cão, um pastor alemão enorme, que se chamava Nero. Com apenas três anos, era o meu melhor amigo. O companheiro de todas as brincadeiras.

"Nunca tive medo de ser feliz"

Numa carreira cheia de conquistas, Pedro Emanuel destaca o triunfo na Taça UEFA, a 21 de Maio de 2002/03, como o momento "mais feliz", por ter sido o primeiro de um ciclo de grandes triunfos internacionais, depois de a temporada anterior ter sido algo "complicada para o F. C. Porto".

Depois, foi sempre a festejar. Triunfo atrás de triunfo. E Pedro Emanuel voltaria a ficar ligado à história do emblema do dragão, particularmente na vitória sobre o Once Caldas, a 12 de Dezembro de 2004. O ex-defesa apontou a grande penalidade decisiva. Ficou célebre, então, aquela expressão feroz com que encarou o guarda-redes dos sul-americanos e, que, na entrevista ao JN, procurou recriar. "Só pensei que tinha de marcar. Nunca tive medo de ser feliz", esclarece, garantindo ter transmitido essa máxima aos atletas sub-17 do F. C. Porto.

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