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Final da Copa América

"Os argentinos odeiam amar o Brasil e os brasileiros amam odiar a Argentina"

"Os argentinos odeiam amar o Brasil e os brasileiros amam odiar a Argentina"

A final da Copa América 2021 vai ser disputada entre Brasil e Argentina, eternos rivais dentro e fora dos relvados.

Os inícios

No final da década de 20 do século XIX, quando os dois países eram recém-independentes, queriam atingir a hegemonia na América do Sul. A presença de colonos brasileiros nas margens do Rio da Prata, hoje Uruguai, deu origem a uma disputa territorial e económica, que posteriormente deu início a uma guerra entre 1825 e 1828.

Desde então que o ambiente no continente começou a ficar mais tenso, com uma crescente desconfiança militar e diplomática, que culminou numa secreta corrida nuclear. Estas divergências passaram para o campo do futebol, que teve influência na formação das populações de ambos os países.

"Os argentinos odeiam amar o Brasil e os brasileiros amam odiar a Argentina", explicou Pablo Alabarces, sociólogo argentino. "A frase significa que nós, argentinos, sentimo-nos rivais, mas, na verdade, ficamos muito chateados por amarmos os brasileiros. Já os brasileiros gostam mais da rivalidade porque, na realidade, amam nos odiar".

O sociólogo entende que este amor-ódio por parte dos argentinos tem como base uma inveja sentida pelo povo brasileiro. Este é tipicamente associado à sedução, carnaval, dança, alegria e festa, aspetos que se replicam no futebol. "Encontra-se na cultura e no futebol brasileiro aquilo que falta na cultura e futebol argentino", disse à "RFI".

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O cientista político e escritor argentino Vicente Palermo acredita que esta rivalidade começou porque "historicamente era comum que os argentinos olhassem para os brasileiros com olhar superior", referiu em declarações à BBC. Isto explica-se pelo facto da Argentina ser vista como mais "homogénea e igualitária" e o Brasil como "mais diverso e desigual".

Rivalidades entre craques

Dois dos maiores jogadores de sempre são originários destes dois países rivais. Pelé sempre foi visto como o melhor jogador da história, que marcou mil golos, que venceu três Mundiais. Entretanto, Maradona apareceu e apaixonou uma nação. Vence no Nápoles, conquista um Mundial a carregar um equipa às costas, marcando um dos melhores golos que o futebol já viu.

O debate entre quem é o melhor gera picardias e discussões acesas. Não só pela preferência futebolística em si, mas também por uma questão nacionalista, de querer defender o jogador do seu país.

A rivalidade cresceu ainda mais em 2000, na altura em que a FIFA elegeu o melhor jogador do século XX. Para agradar a gregos e troianos, Pelé venceu o prémio para os treinadores e jogadores, considerados "especialistas" para a organização. Maradona venceu pelo voto das pessoas através da Internet. Os argentinos criticaram a decisão por Maradona não vencer e os brasileiros criticaram o prémio entregue ao ex-Nápoles porque foi decidido através da Internet, e na altura apenas os mais jovens sabiam como funcionar com ela.

Nos últimos anos o futebol foi dominado por Messi e Ronaldo. Mas Neymar foi, com o passar do tempo, intrometendo-se na disputa como um dos melhores jogadores do mundo. Em menor escala, mas há alguma rivalidade entre adeptos na preferência por Messi ou Neymar. Isto deve-se ao facto do brasileiro ter conquistado um título com a seleção (Jogos Olímpicos 2016) e o argentino ainda não.

Episódios marcantes

A imprensa argentina teve um papel forte para aumentar esta rivalidade ao longo dos anos. Em 1920, num amigável em Buenos Aires, o jornal "Crítica" chamou "macacos" aos jogadores brasileiros, num triste episódio de racismo que levou quatro atletas negros a recusar entrar em campo.

Em 1996, durante os Jogos Olímpicos em Atlanta, a Argentina ia enfrentar na final o vencedor do encontro entre Brasil e Nigéria. O jornal Olé fez capa com a frase "venham os macacos". Nessa mesma semana, um brasileiro foi morto na capital argentina por uma discussão de futebol.

A final da Copa América em 1937 ficou marcada por episódios de violência extrema. Depois de uma entrada forte de Carnera em Pancho Varallo, o argentino não se deixou ficar e agrediu o adversário. Isto originou uma verdadeira batalha campal, com relatos de invasão de campo por parte de adeptos e intervenção da polícia. O jogo esteve parado 42 minutos.

A "Água Benta de Turim" é um dos acontecimentos mais peculiares em jogos entre estes dois rivais. Maradona confessou em 2004 que as acusações de Branco, jogador do Brasil no Mundial de 1990, eram verdadeiras.

O treinador argentino Carlos Bilardo ordenou que fossem dissolvidos numas garrafas de água comprimidos do sedativo "Royphnol". O massagista da Argentina deu a garrafa a Branco durante uma paragem a meio do jogo. O lateral brasileiro voltou muito lento ao encontro e Maradona e Caniggia aproveitaram para marcar.

A homossexualidade foi várias vezes usada para insultar os jogadores brasileiros. Em 1978, os argentinos entoaram "Todos já sabem que o Brasil está de luto. São todos negros, são todos putos (homossexuais) ", relatou Pablo Alabarces.

O sociólogo conta como se criou em torno da figura de Pelé o rumor de que tinha perdido a virgindade numa relação homossexual. "É uma clássica estratégia de inferiorização que os adeptos e o jornalismo popular desportivo argentino reproduzem", explicou.

No cântico "Brasil, decime qué se siente" há um verso que faz referência ao golo de Caniggia, que eliminou o Brasil no Mundial de 1990, dizendo que ele foi uma "vacina". Esta palavra, na linguagem popular argentina, significa sexo anal.

A Copa América 2021 vai ser mais um marco importante para a rivalidade entre as duas seleções. É a oportunidade de Messi finalmente conquistar um troféu pelo seu país e logo contra o Brasil. Do outro lado, Neymar tem a chance de vencer mais um título com a seleção canarinha.

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