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Paulo Futre: "Passe quem passar nunca ficarei contente"

Paulo Futre: "Passe quem passar nunca ficarei contente"

Deixou o futebol há dez anos, mas Paulo Futre, 42 anos, ainda é um ídolo. Entrou no Hotel Whelligton, em Madrid, para se encontrar com o JN e depressa se transformou no centro das atenções.

Recebeu abraços, palavras de incentivo e até autografou uma camisola do Atlético de Madrid a pedido de um velho amigo. Ao longo da entrevista, foi interrompido constantemente pelas pessoas e pelo tocar constante do telemóvel. O ex-jogador do F. C. Porto e do Atlético de Madrid vive na capital espanhola, está desligado do futebol e faz consultadoria de empresas do ramo imobiliário.

Aparece de fato e gravata, como um autêntico homem de negócios, e fala muito depressa. Futre vive um turbilhão de emoções. Quando disse que ia torcer pelo Atlético de Madrid no jogo com o F. C. Porto, da Liga dos Campeões, afirmou-o por influência de um dos filhos, mas não esconde que vive em Espanha há muitos anos, o país e o clube colchonero dizem-lhe muito e há um fraquinho impossível de esconder naquele coração sensível. Mesmo assim, para não ferir susceptibilidades, não quis ser fotografado com a camisola do Atlético de Madrid. "Se fosse com esta camisola e a do F. C. Porto faria-o com todo o gosto".

Disse que ia torcer pelo Atlético frente ao F. C. Porto. O que o levou a tecer essa consideração?

Não disse assim. Vou explicar, tenho dois filhos, um deles é do F. C. Porto e o outro é do Benfica e ambos gostam do Atlético. Perguntei ao primeiro quem queria que passasse a eliminatória e ele disse-me: "Pai, como já vi o F. C. Porto ganhar a Champions, prefiro que seja o Atlético a ganhar". Ele disse-me isso, é meu filho e eu disse aquilo a pensar nele.

Mas qual é a sua opinião sincera?

Vou estar com o coração dividido. Mas, por outro lado, o meu filho pode ter razão. Passei dez anos em Madrid e três no F. C. Porto. Sei que o F. C. Porto ganhou há pouco tempo a Champions. Talvez, por isso, tenha de dar razão ao meu filho e ir pela opinião do miúdo. Mas o meu coração está dividido.

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Não tem medo que os adeptos do F. C. Porto deixem de gostar de si?

Não tenho medo. Estive três anos no F. C. Porto, dez no Atlético como jogador e como director desportivo. Adoro o F. C. Porto, mas vivo em Espanha e gosto do meu filho.

O F. C. Porto ocupa pouco espaço no seu coração?

Não. Devo muito ao clube, onde cresci e ganhei tudo. O F. C. Porto ocupa uma percentagem elevadíssima no meu coração. O Sporting também me marcou, foi a minha mãe e o meu pai, mas foi no F. C. Porto onde me consagrei como jogador a nível internacional. Depois, aparece o Atlético de Madrid. Foram os três clubes mais marcantes. Divido o meu coração pelos três.

É uma alegria dois clubes que lhe dizem muito se encontrarem?

Não é nada agradável, porque um vai ganhar e outro vai ficar de fora. Passe quem passar, nunca ficarei contente. Um deles vai ser eliminado e ficarei triste. Este jogo faz-me lembrar o Portugal-Espanha, no Euro 2004, lembrei-me dos meus filhos que nasceram aqui. Não foi nada agradável. Queríamos que passasse Portugal, mas também ficámos tristes porque a Espanha ficou pelo caminho.

Quem é o favorito?

Há 50% de possibilidades. A eliminatória será decidida no Dragão e vai ser muito equilibrada. Quem passar, será o outsider da Champions.

Quais são as mais-valias do Atlético?

O ataque. O Fórlan, o Aguero, o Simão e o Maxi são jogadores importantíssimos e que podem decidir o jogo a qualquer momento. Sobretudo o Fórlan e o Aguero, duas das melhores duplas do futebol espanhol.

Que pontos o F. C. Porto pode explorar?

O Atlético é uma equipa que se desconcentra muitas vezes durante os jogos, sobretudo na defesa. A equipa também atravessa um momento difícil, tem um treinador novo. O F. C. Porto pode aproveitar isso, porque é uma equipa muito experiente. E essa experiência possa ser importante.

Que influência têm os jogadores portugueses na forma de jogar do Atlético?

Muita. A ausência do Simão nota-se. O mesmo se passa com o Maniche, quando está bem carrega sozinho a equipa. Mas o mês de Janeiro foi horrível e os resultados não apareceram. O Paulo Assunção custou-se a adaptar, mas, de Outubro a Dezembro, esteve muito bem e foi o mesmo jogador que era no F. C. Porto.

O facto de o Atlético ter jogadores portugueses deve-se a si?

Admito que ajudei o Maniche a decidir-se pelo Atlético, porque tinha vários clubes interessados. Nada mais.

O que mais aprecia no F. C. Porto?

No Atlético as individualidades destacam-se, enquanto o F. C. Porto funciona como um todo. Gosto muito do Lucho, é o grande motor da equipa. Mas a espinha dorsal é fortíssima, o Helton, o Bruno Alves, o Raul Meireles e o Lucho. No ataque, têm três jogadores impressionantes, o Lisandro, o Rodríguez e o Hulk.

Desses, quem aconselharia ao Atlético?

(Pausa). O Lucho pode jogar em qualquer equipa do Mundo, tem uma grande classe e seria um excelente jogador para o Atlético.

Há quem compare as arrancadas do Hulk às do Futre. É justo?

Não é tão rápido como eu era, mas tem uma potência que eu não tinha. É esquerdino, de facto. É uma grande surpresa e pode estar num grande clube da Europa dentro de pouco tempo.

"Liga portuguesa devia ter doze equipas"

Gostava de ser rosto da candidatura ibérica ao Mundial de 2018?

A ideia encaixa-me como uma luva, porque digo muito aos portugueses e aos espanhóis. Estava disponível para ser o rosto dessa candidatura, seria um orgulho.

O que menos gosta no futebol português?

As bancadas vazias. Se a Liga tivesse 12 equipas, como na Escócia, talvez houvesse mais competitividade e os estádios não estivessem vazios...

Gostava mais quando a selecção portuguesa era treinada pelo Scolari?

Scolari é um treinador diferente de Queiroz, mas o Carlos vai fazer um grande trabalho. Tem faltado sorte, mas os resultados vão aparecer. Nada está perdido.

Por que vive em Madrid?

Tem um encanto especial. Apaixonei-me quando cheguei e ainda estou apaixonado pelo povo espanhol.

É consultor de empresas, não tem saudades do futebol?

Fui director desportivo do Atlético e era muito desgastante. Tive de fazer uma pausa. Mas o futebol está-me no sangue. Ainda não quero regressar já, mas espero regressar em breve.

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