Entrevista

Ricardo Carvalho: "Pensei em voltar ao F. C. Porto, mas não se proporcionou"

Ricardo Carvalho: "Pensei em voltar ao F. C. Porto, mas não se proporcionou"

Foi um dos melhores centrais do futebol mundial, ganhou títulos e mais títulos no F. C. Porto, Chelsea, Real Madrid e Mónaco, e foi campeão europeu por Portugal. Desde o ano passado, é adjunto de Villas-Boas no Marselha. Eis uma rara entrevista de Ricardo Carvalho, ao JN, um dia depois do jogo de quarta-feira com o F. C. Porto.

Foi uma surpresa para muita gente quando passou a ser adjunto de André Villas-Boas. Para si também?

Foi, acima de tudo, um prazer receber o convite do André, que já conhecia desde os tempos do F. C. Porto. Continuámos no Chelsea e reencontrei-o no final da minha carreira de jogador, na China. Criámos uma relação de amizade. Quando regressámos a Portugal, ele teve a proposta do Marselha, convidou-me, disse o que pretendia e eu achei que era uma boa oportunidade. Principalmente, por achar que podia ajudar.

PUB

Que funções desempenha na equipa técnica?

Trabalhamos em conjunto, embora o meu trabalho incida mais na parte defensiva, por exemplo nas marcações nas bolas paradas. Também ajudo na gestão do balneário.

Como está a ser a experiência?

O André deu-me tempo para me adaptar bem a este novo desafio. Sinto-me mais capaz agora do que ao princípio, como é normal. Faz parte da minha evolução. Acho que posso fazer bem o papel de segundo treinador.

Tem o objetivo de chegar a treinador principal?

Sinceramente, não me estou a ver como treinador principal, nem é uma ambição minha. Quero é fazer bem o meu trabalho, ajudar o André. Há sempre coisas a melhorar na equipa a nível defensivo e a falar com os jogadores.

Antes de receber o convite de Villas-Boas, teve a hipótese de ir para os quadros técnicos da formação do F. C. Porto?

Quando terminei a carreira, o meu filho estava a jogar nos sub-14 do F. C. Porto e fui abordado por várias pessoas do clube. Na altura, disse que ainda estava a tirar o curso de treinador, UEFA B e UEFA A, e que queria ir por etapas, para ter a certeza do que queria fazer. Entretanto, surgiu o convite do André. Não cheguei a dizer sim ou não às pessoas do F. C. Porto.

Mas voltar ao F. C. Porto nesse tipo de funções pode acontecer?

Eu amo o clube e foi lá que cresci como pessoa e como jogador. Saí de Amarante com 15 anos e fui viver sozinho para o lar do F. C. Porto. Sou grato a todas as pessoas que me ajudaram. Muitas delas ainda estão lá e fizeram muito por mim.

Enquanto jogador, foi treinado por treinadores de topo mundial, como Mourinho, Ancelotti, Hiddink, Ranieri, Leonardo Jardim e no final Villas-Boas. Qual é a referência?

Tive, de facto, treinadores de grande nível, mas não posso esquecer o José Mourinho. Estive oito anos com ele, ganhámos muitas coisas juntos, em três clubes e três países diferentes.

É um treinador especial, como ele próprio se definiu quando chegou ao Chelsea?

Sem dúvida. É daqueles treinadores que te exigem, que querem que dês mais quando veem que podes dar mais. Para um jogador, isso é o melhor que pode acontecer. Ele é exigente ao pequeno pormenor e faz com que cresças individualmente. Quanto isso acontece, é a equipa que ganha.

E André Villas-Boas?

Acho que é um talento e já lhe disse, quando ele tem estes sonhos de tentar uma aventura no Brasil ou no Japão, que é um desperdício. Ele tem é de estar na Europa e em clubes grandes. Depois, claro que é importante ganhar. Na época passada, fez um grande trabalho aqui no Marselha. O mérito é dele. Nós estamos aqui para ajudá-lo. Este ano, estamos bem na liga francesa. Foi pena estes jogos que foram adiados e em que não pudemos competir por causa da pandemia. O plantel não é longo e quando temos dois ou três jogadores que não estão bem, a equipa ressente-se bastante.

Foi isso que impediu uma boa campanha na Champions?

Aí foi diferente. Foram os pequenos erros que cometemos. Os golos que sofremos são quase todos de erros nossos. Também pagámos pela inexperiência porque a maior parte destes jogadores nunca tinham jogado na Champions. Isso prejudicou-nos e em alto nível não se pode cometer esses erros.

Como viveram estes dois jogos com o F. C. Porto?

Foi difícil. Pessoalmente, não gostei que nos tivesse calhado o F. C. Porto. É um clube que está habituado a jogar na Liga dos Campeões e é difícil jogar contra uma equipa que te diz muito. A verdade é que correu tudo de feição ao F. C. Porto nos dois jogos.

Por falar em sonhos de Villas-Boas, já falaram sobre o sonho que ele tem de ser presidente do F. C. Porto?

Sim. Ele ama o F. C. Porto, sabe que eu também gosto muito do clube. Ele tem esse sonho. É uma pessoa competente, séria, pode vir a ser um grande presidente.

Será possível, daqui a alguns anos, perspetivar uma corrida entre Villas-Boas e Vítor Baía?

Não sei. Toda a gente no Porto respeita muito tanto o Vítor, como o André. Os dois tiveram um percurso impressionante no clube, mas não faço ideia se o Vítor quer ser presidente ou não. Sei que o André tem esse sonho já há muito tempo e não tenho dúvidas de que um dia vai tentar ser presidente.

O Ricardo sempre foi discreto e nem chegou anunciar o final da carreira de jogador. Porquê?

Nem eu sei explicar. Se calhar, como apareci, também quis desaparecer.

Já não dava mais aos 39 anos?

Quando jogas, pensas sempre que dá. E sempre tive clubes interessados. Clubes do Qatar, da Índia, mas eu pus a família à frente. Naquele momento, fui pai pela terceira vez e não quis entrar noutra aventura, apesar de achar que podia continuar. Sempre me cuidei muito, descansava bem. Mas a minha família seguiu-me todo este tempo para todo o lado e achei que era a minha vez de estar com eles.

Pepe ainda agora renovou com o F. C. Porto. Jogará até aos 40?

Fez uma escolha assertiva. É a casa dele. Ainda depois do jogo de quarta-feira, estivemos a falar e dei-lhe os parabéns por ter voltado. Ele disse que estava feliz e isso é o mais importante. As pessoas reconhecem o valor dele.

Nunca teve essa oportunidade de voltar ao Dragão?

Houve uma altura em que pensei nisso, quando acabei contrato com o Real Madrid, em 2013, mas não se proporcionou. Nunca diria que não ao F. C. Porto. Na altura, tinha 35 anos, o F. C. Porto estava bem servido de centrais e não houve proposta. Fui para o Mónaco.

Como tem visto o trabalho de Sérgio Conceição?

É um treinador que se identifica com o clube e o clube identifica-se com ele, pela maneira de ser. É uma pessoa competente e tem conseguido vitórias para o clube. Ganhou dois campeonatos, tem feito um trabalho incrível e espero que continue a ter sucesso. É uma pessoa séria.

Conseguirá o F. C. Porto recuperar os seis pontos de atraso e chegar ao primeiro lugar do campeonato?

Já esteve pior, naquela jornada em que o Benfica se ganhasse ficaria com oito pontos de avanço. O campeonato português está incerto, a exemplo do que também acontece na liga francesa. Em Portugal, quando se ganha uma vantagem grande, pensa-se que já acabou, mas este ano não é assim. Há que pensar jogo a jogo e ir ganhando. O F. C. Porto é sempre um dos candidatos.

Como recebeu a notícia da morte de Reinaldo Teles?

Foi uma pessoa que fez parte da minha história. Fez do F. C. Porto a sua vida. Que tenha o descanso merecido e que descanse em paz. Envio os meus pêsames a toda a família e a toda a família portista.

É impossível não lhe falar do Euro 2016...

Foi uma crença enorme. Temos de dar muito mérito ao nosso selecionador. Foi a primeira pessoa a acreditar. Quando disse que era para sair de França no último dia, ficámos a olhar para ele. A verdade é que, com o passar dos jogos, vimos que era difícil às equipas adversárias jogar contra Portugal. Depois, fomos passando etapas e começámos a acreditar também. Todos temos mérito, mas ele tem mais.

Nem se importou de não jogar a partir dos oitavos de final?

Joguei nos primeiros três jogos e a crítica até foi boa, apesar da idade. Lembro-me bem de Fernando Santos falar comigo antes do jogo com a Hungria e dizer que me queria descansar, mas precisávamos pelo menos do empate. Disse-lhe para estar à vontade, que eu jogava. Do terceiro para o quarto jogo, só havia dois dias de descanso e eu disse-lhe que o mais importante era a equipa. José Fonte jogou bem, não sofremos golos com a Croácia e eu não tinha recuperado para esse jogo. Depois, ele optou por manter. Eu aceitei, como outros, que estavam com o mesmo espírito. Foi o que nos levou a chegar tão longe e a acreditar que era possível ganhar.

Depois do Euro, nunca disse que não queria ir mais à seleção.

Respeito muito quem faz isso e põe um ponto final, mas eu nunca iria dizer isso. Se Fernando Santos me chamasse quando estava na China, com 39 anos, eu ia. Quando ele me chamou para voltar à seleção, foi uma alegria enorme. Uma das coisas que me marcaram durante o Euro 2004 foi quando o Rui Costa disse que ia parar e foi uma pena. Era um grande jogador e gostava de ter podido jogar mais com ele. Na altura era miúdo e nem falei com ele, mas pensei que ele tinha tanta qualidade e que nos ia fazer falta.

Há um problema de falta de centrais jovens a despontar em Portugal?

É sempre um problema quando os jogadores começam a ficar mais velhos. Sempre tivemos alguns problemas. Houve uma altura em que se falava na falta de avançados e de médios. Neste momento, temos o Rúben Dias a aparecer, o Rúben Semedo encontrou o caminho dele. Vejo a seleção como um todo e penso que a equipa é impressionante. Na frente, vemos Jota, Félix, Bruno Fernandes. Chama a atenção. Pode ser que, de um momento para o outro, comecem a aparecer centrais.

O Diogo Leite é um desses jovens centrais, mas está a ter dificuldades para se impor no F. C. Porto...

Sim, quase não joga e os jogadores para crescerem têm de jogar. Quanto tinha a idade dele, fui emprestado ao Setúbal e ao Alverca, e isso foi importante para a minha progressão. Claro que só se deve sair do F. C. Porto se se achar que é o melhor para crescer. Eu na altura não jogava e pedi ao presidente para sair porque precisava de jogar. Fui vencendo as minhas etapas. Nos juniores, tinha o sonho de jogar na equipa principal. Só depois, é que comecei a pensar em ir para uma liga mais competitiva. Não pelo clube, mas pela liga. Diogo Leite jogou em Paços de Ferreira, mas as coisas não correram bem. Nas alturas em que tu entras, tens de estar preparado.

Portugal pode voltar a ganhar um Europeu ou um Mundial?

Pode. A primeira vez custa sempre mais. Depois do Euro, já ganhámos a Liga das Nações. Isso dá-nos confiança e penso que brevemente podemos voltar a vencer algo. Temos jogadores capazes, com talento, e um treinador pragmático.

Faltou-lhe ganhar algum título?

Ganhei muitos títulos em clubes grandes, mas sinceramente durante muitos anos faltou-me ganhar algo pela seleção. Os anos iam passando e faltava ganhar pelo meu país. Tivemos uma oportunidade enorme em 2004, mas perdemos a final e depois não tivemos outra. Sentia que podia acabar a carreira sem ganhar nada pelo meu país e era duro. Acho que acabaria por trocar muitos dos meus títulos por um da seleção, mas depois finalmente consegui, já perto do final da carreira.

Foi o melhor central português de sempre?

Nunca gostei de falar de mim. Fiquei muito grato quando fui incluído no melhor onze da seleção do século. Olhando para trás, sei que fui um grande central, mas ser o melhor é sempre relativo.

Como é a vida em Marselha, uma cidade que não aparenta ser fácil?

Está a correr muito bem. Este é um clube enorme e os adeptos gostam de ganhar. exigem que se ganhe. É uma pena não haver público no estádio nesta altura porque nos faz falta. O Vélodrome é bonito, os adeptos são incríveis, adoram o clube. São fanáticos, para o bem e para o mal. Dá até vontade de jogar. Nós fomos muito bem recebidos e quando se falou no fim da época passada que podíamos não ficar, eles pediram muito para ficarmos. O trabalho do André é reconhecido.

E fora do futebol?

Quando me informei sobre a cidade e sobre os adeptos, por causa de problemas que houve no passado, soube de agressões, roubos, mas felizmente não tem acontecido nada disso. Se a equipa der o melhor, não há problemas nenhuns.

Também aqui lidar com a pandemia deve ser complicado...

Isso sim, tem sido difícil. Tenho três filhos, de três, 13 e 15 anos, que estão na escola internacional, e nunca fechou. Mas claro que não é a mesma coisa. Há muitos cuidados a ter, restrições, não se pode ir tomar um café. Estamos aqui para trabalhar, mas não queremos que este vírus continue a alastrar. Temos de compreender que a situação não é fácil.

Vê-se a continuar em Marselha depois desta época?

Depende do que o André fizer. Se ele sair, eu também saio. Não há dúvidas. Podem gostar muito de mim aqui, mas saio.

E vai para onde o André Villas-Boas for?

Se ele me convidar... Tenho a minha vida. Depois de acabar de jogar, a minha ideia é acompanhar o máximo possível a minha família. Esta função de adjunto permite-me ter mais tempo para eles, o que se fosse treinador principal não aconteceria. Tem de se controlar muito mais coisas. Não é fácil gerir uma equipa, lidar com a imprensa, com o departamento médico. Há mil e uma coisas que um treinador principal tem de fazer e não me vejo a fazer isso tudo. Quero o meu tempo para a minha família, que é a melhor coisa que tenho na vida. Penso que o Marselha quer que o André fique, mas será uma decisão dele.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG