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Robert Enke, dez anos depois a depressão ainda faz vítimas

Robert Enke, dez anos depois a depressão ainda faz vítimas

Robert Enke, antigo internacional alemão, cometeu suicídio a 10 de novembro de 2009, há 10 anos e dois dias, atirando-se para a frente de um comboio, vítima de uma profunda depressão que foi tratando em segredo sem sucesso. Enke, que tinha 32 anos, não foi o primeiro desportista nem o último a matar-se - este ano já se suicidaram, por exemplo, o andebolista internacional sérvio Novak Boskovic, de 29 anos, em fevereiro, e a ciclista olímpica norte-americana Kally Catlin, de 23 anos, em março -, estimando a Organização Mundial de Saúde que anualmente 800 mil pessoas tirem a própria vida. Ou seja, há uma morte por suicídio a cada 40 segundos.

Mas a vida de Robert Enke perdura na fundação criada em seu nome pela esposa Teresa e que desde então tem vindo a alertar para o problema da depressão, apelando a que recorram a ajuda ao mesmo tempo que oferece apoio a quem necessita. Ao longo da sua existência, a fundação já ajudou cerca de 400 atletas de vários desportos.

"Não foi Robert que se matou, quem o matou foi a doença", afirmou Teresa no final de uma conferência no Teatro am Aegi, em Hanover, a recordar os 10 anos do desaparecimento do guardião, e que levou uma noite de tristeza a terminar com uma enorme ovação. Teresa, hoje com 43 anos, encontrou no trabalho na fundação as forças necessárias para reagir à trágica morte do marido, dando-lhe, como diz, "algum sentido", e para se dedicar à filha adotiva Leila, que o casal havia acolhido seis meses antes desse fatídico 10 de novembro, depois de ter perdido a filha biológica Lara em 2006, com apenas 2 anos, na sequência dos problemas cardíacos de que a menina padecia desde a nascença.

E Teresa continua a manter viva a memória de Robert com gestos simples, mas de uma profundidade sem igual, como a carta que enviou pouco antes do décimo aniversário da morte do marido ao maquinista do comboio que viria a colher o guarda-redes. "Não sei o seu nome, mas queria dizer-lhe que o Robbi nunca quis envolver mais ninguém na sua própria morte. Peço imensa desculpa. E sei que Robbi diria exatamente o mesmo", escreveu Teresa na missiva.

A morte de Enke levou a mudanças no futebol alemão, que no passado fim de semana o recordou em todos os estádio com a celebração de um minuto de silêncio. O selecionador Joachim Low visitou mesmo a campa onde o futebolista foi sepultado ao lado da filha Lara. "Esta visita [de Low] significa muito, para mim e para a fundação. Recebi muito apoio nos últimos dias. Acredito que Robert tem orgulho de mim e no trabalho da Fundação Robert Enke, especialmente na luta contra esta doença. A depressão é uma doença e tem tratamento", reafirmou Teresa.

E não foi só em termos de mentalidades que se registaram alterações no desporto alemão. Todas as academias de jovens de clubes da Bundesliga foram obrigadas a contratar psicólogos, para seguirem e aconselharem os jovens futebolistas. Mas o tema depressão ainda é algo tabu no desporto profissional, por estar associado ao fracasso, ainda que, passo a passo, as coisas estejam a mudar relativamente à saúde mental, da depressão a ataques de ansiedade e de pânico, por todo o mundo e em todos os desportos. Por exemplo, a NBA criou entretanto um plano obrigatório e transversal a todas as equipas, no sentido de identificar e prevenir eventuais situações de risco.

Outros casos, do presente e do passado

Mas a verdade é que a depressão continua a ser uma das principais causas de suicídio entre os desportistas. Algumas das tragédias mais recentes são as do andebolista internacional sérvio Novak Boskovic, da ciclista norte-americana Kelly Catlin e do futebolista galês Joel Darlington. Boskovic, de 29 anos, pôs termo à vida dando um tiro na cabeça a 4 de fevereiro. Um mês depois, a 8 de março, foi Catlin a suicidar-se em casa. Ela que deixara muitos sinais de que não estava a conseguir conciliar tudo o que fazia na vida, da parte desportiva - havia sido tricampeã mundial por equipas de pista e medalha de prata nos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016 - à profissional, em que fazia uma pós-graduação em Engenharia Matemática e Computacional na famosa Universidade de Stanford, na Califórnia, ela que era formada em Matemática e Chinês. Já Joel, de 20 anos, suicidou-se na garagem de casa, depois de ver a carreira comprometida por um problema físico nas costas que lhe causava profundo sofrimento.

Se Robert Enke foi o futebolista mais conhecido a cometer suicídio nos últimos anos - já vários outros puseram termo à própria vida depois do antigo internacional alemão -, este é um problema que já vem de longe. Basta recuar 25 anos, até 30 de maio de 1994, dia que a Roma perdeu um dos seus históricos capitães: Agostino Di Bartolomei, que brilhou nas décadas de 70 e 80. Terminada a carreira em 1990, após passagens ainda por Milan, Cesena e Salernitana, Di Bartolomei entrou numa depressão, agravada por problemas financeiros. Até que a 30 de maio de 1994, com 39 anos, deu um tiro no coração, ele que na carta de despedida disse sentir-se "num buraco".

A 2 de setembro de 1995, a morte voltou a assombrar o futebol italiano. Desta vez foi um jovem de 25 anos, Edoardo Bortolotti, a tirar a própria vida. O que parecia vir a ser uma carreira promissora esfumou-se com uma grave lesão ao serviço do Brescia e o uso de cocaína para aliviar as dores. Acabou apanhado num controlo antidoping e foi suspenso um ano. Ainda tentou regressar, jogando em equipas de escalões inferiores, mas a depressão levou a melhor, deixando o futebol com 24 anos. Até que a doença, e problemas financeiros, o levaram a atirar-se de um terceiro andar. Morreu pouco depois de dar entrada no hospital.

Mas nem todas as tentativas de suicídio resultam em tragédia. Em 2006, a 27 de junho, Gianluca Pessotto, que brilhou durante uma década na Juventus, atirou-se da sede da Velha Senhora. O então team manager da "Juve" caiu em cima de um carro, o que acabou por lhe salvar a vida. Dois anos depois, debelada a depressão e sem sequelas físicas da tentativa de suicídio, publicou uma autobiografia em que contava a sua história. Pessotto continua a trabalhar para a Juventus.

E a verdade é que, mesmo existindo atualmente uma maior abertura, ainda são muitos desportistas, especialmente os que estão no ativo, que preferem manter os problemas de saúde mental em segredo. Por vezes, até ser demasiado tarde. É que, como sublinha sempre Teresa Enke com eloquência, "a depressão é uma doença e tem tratamento".