Basquetebol

Sara Djassi sobre assédio em Espanha: "Tenho essas memórias como se fosse ontem"

Sara Djassi sobre assédio em Espanha: "Tenho essas memórias como se fosse ontem"

Os abusos verbais e assédio físico denunciados na segunda-feira por Sara Djassi são um "alerta constante" para incentivar uma "mudança de mentalidades" da comunidade do basquetebol, defendeu a internacional portuguesa.

"Não importa qual o desporto e nível de competição em causa. Falamos de pessoas, que merecem ser tratadas com respeito e dignidade. São precisas associações de apoio ao atleta, com ajuda psicológica e assistência jurídica, que os possam proteger de situações como a minha", frisou à agência Lusa a extremo das inglesas do Manchester Mystics.

Sara Djassi, de 30 anos, escreveu uma carta aberta no jornal espanhol Columna Cero a narrar a "pior experiência da sua vida", vivida em 2015/16, com o Ciudad de La Laguna Tenerife, do segundo escalão de Espanha, devido ao comportamento do técnico Claudio García, que teceu comentários "inapropriados" numa relação que "nunca foi saudável desde o princípio".

"«Tu, portuguesa, tens um bom rabo». Foi a partir daí que o meu comportamento mudou completamente. Evitava o mínimo contacto possível com o treinador e também acabei por sentir complexos em usar a roupa do clube, pois os calções eram justos. Sentia-me dominada psicologicamente até ao dia em que decidi abandonar o clube", apontou.

"Escrevi porque senti necessidade de partilhar a minha história para me ajudar a ultrapassar esta experiência e, sobretudo, ajudar outros atletas. Entendo que não é fácil para muitos expressarem-se como eu, mas isto tem de começar por alguém. Dou graças a Deus por esse alguém ter sido eu", enalteceu a basquetebolista natural de Lisboa.

A extremo resolveu denunciar a "conduta abusiva" do treinador poucos dias após ter lido uma entrevista realizada pela mesma publicação a Laura Chahrour, companheira de equipa no emblema das Ilhas Canárias e uma das três jogadoras que rescindiu de forma unilateral há quatro épocas, devido à relação conflituosa com Claudio García.

"Confesso que estava com medo, mas a minha família e amigas próximas encorajaram-me e fizeram-me ver que estava na hora de contar tudo. Tenho essas memórias como se fosse ontem. Entrei em contacto com a jornalista Loida Cabeza, que escreveu o artigo da Laura. Disse-me que estava disposta a ouvir-me e ajudou-me bastante", lembrou.

Basquetebolista vai procurar ajuda psicológica

O testemunho gerou um "número incrível de mensagens e relatos de outras atletas que viveram situações semelhantes", dando um "sinal de esperança" aos agentes da modalidade e "ainda mais força" a Sara Djassi, que assume não estar "sozinha", devido ao gesto de solidariedade demonstrado pela Federação Portuguesa de Basquetebol.

"Pensei que este tinha sido um mero episódio da minha vida, que simplesmente tinha ficado para trás e seguia em frente. Na altura, não procurei um psicólogo, mas agora preciso claramente e estou disposta a isso, tal como me têm aconselhado os amigos mais próximos", partilhou à agência Lusa.

O Ciudad de La Laguna Tenerife desmentiu as acusações da jogadora lusa e disse estar a preparar uma denúncia junto das autoridades, enquanto o município local garantiu que "o caso será estudado e, se necessário, serão analisadas as medidas a serem adotadas", dada a "postura de tolerância zero face aos comportamentos machistas em causa".

"Nunca mais tive contacto com o treinador até terça-feira. Recebi um pedido de amizade dele no Facebook e uma mensagem a dizer 'Muita Força!'. Senti uma forma de provocação e pensei que tinha voltado o domínio psicológico que ele exercia sobre mim, mas decidi ignorá-lo", assumiu a ex-atleta de Quinta dos Lombos e União Sportiva.

Sara Djassi prosseguiu o primeiro ano enquanto profissional no Adareva Tenerife, pouco depois de ter abandonado o clube rival de San Cristóbal de La Laguna, que é presidido pelo pai do treinador, a quem não reclama justiça nos tribunais civis.

A jogadora formada na universidade norte-americana da Flórida Central só pede que a Federação Espanhola de Basquetebol e a Federação Internacional de Basquetebol (FIBA) possam "banir ou suspender" Claudio García de qualquer função no desporto.

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