Desporto

Seminário sobre saúde mental e um lembrete de que os sonhos não escolhem géneros

Seminário sobre saúde mental e um lembrete de que os sonhos não escolhem géneros

A Federação Portuguesa de Futebol organizou um seminário online para refletir e informar sobre a saúde mental no desporto e reuniu alguns campeões para falar do tema.

A discussão incidiu sobre as dificuldades pelas quais os atletas de alto rendimento passam, pela forma como se olha para os atletas deste nível e que efeitos a saúde mental pode ter neles, nos obstáculos das mulheres quando escolhem uma carreira no desporto e pela importância de se começar a reeducar as massas, tendo em vista a seguinte premissa: "Saúde mental é tão importante como a saúde física".

No painel constavam atletas bem conhecidos pelo público português e todos eles tinham algo em comum: um vasto currículo com medalhas nas maiores competições a nível mundial. Dito isto, elencaram no debate virtual, reproduzido no Zoom, às 18 horas, Lorene Bazolo, recordista nacional dos 100 e dos 200 metros, Joana Ramos, judoca lusa que conta já com três presenças nos Jogos Olímpicos, Fernando Pimenta canoísta, atual campeão mundial de K1 1000 metros e medalha de bronze nos Jogos Olímpicos, e Jorge Braz, selecionador de futsal que recentemente juntou ao título de campeão da Europa, o título de campeão do mundo.

Para além dos galardoados, estiveram ainda, sob a moderação de Rita Ferro Rodrigues, Miguel Xavier, diretor do Programa Nacional de Saúde Mental, o representante da FPF e do Sindicato dos Jogadores, Pedro Teques e Ana Ramires, psicóloga do Comité Olímpico de Portugal.

O tema mais falado teve que ver com a saúde mental de uma atleta que tenha de optar por seguir o sonho ou por constituir família. Lorene Bazolo e Joana Ramos mostraram-se bastante clarividentes para com a questão, até porque tiveram que tomar essa decisão no passado. A judoca portuguesa acabou até mesmo por confidenciar que em 2020, depois dos Jogos terem sido adiados, a sua "vida pessoal e a carreira entraram em conflito, por ser mulher", deixando a atleta "sem vontade de competir" e com a "chama olímpica apagada".

Na hora de lembrar outras dificuldades por ser do sexo feminino, lembrou que cresceu numa aldeia em Coimbra e que teve que aprender a viver com comentários sobre "os músculos resultantes de muito trabalho realizado, com o sonho em mente de um dia chegar aos Jogos Olímpicos".

Já a sprinter recordou os tempos em que queria seguir o judo, mas o seu pai não aprovava a ideia por Lorene ser mulher. A paixão, no entanto, conduziu-a por um caminho de contorno à vontade do progenitor que a levou ao atletismo aos 24 anos. Aí surgiu o segundo preconceito, o de ser "demasiado velha". Em resposta a esta ideia errada, a corredora lusa atira: "O sonho não escolhe idades, prefiro tapar os meus ouvidos e seguir em frente", algo que, claramente, provou ser ótima a fazer como provou nos Jogos.

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Fernando Pimenta tem vindo a marcar o debate - tal como marcou o Webinar - sobre estas questões, por ser um dos poucos com facilidade e abertura para falar publicamente sobre o assunto e saiu em defesa de todas as colegas no mundo do desporto: "Eu tenho sorte por ser homem". O campeão do mundo reviu-se na história de Joana Ramos e, tal como a judoca, faz uma analepse ao ano transato: "Tive que reunir com a minha mulher e falar sobre a possibilidade de sermos pais, sem eu estar presente por ir para Tóquio no ano seguinte e por isso me obrigar a ser quase um emigrante a full-time", disse num tom risonho ao relembrar o nascimento da sua filha no final de 2020.

O atleta tornou-se, na mente dos portugueses, um crónico vencedor de medalhas, mas atira prontamente que "nestes últimos Jogos só cheguei ao pódio pelo acompanhamento que tenho tido, já que é só nesse campo que os atletas ali presentes se distinguem". Esta ajuda de um psicólogo revelou-se, para o canoísta natural de Ponte de Lima "tão importante como a de um preparador físico", mas que ainda é desvalorizada por muitos indivíduos ligados ao desporto.

Alguém que se desmarca no topo de portugueses com uma ligação muito intima com o lugar cimeiro do pódio é Jorge Braz que considera "indispensável a integração de um psicólogo na equipa técnica" que orienta, na seleção. Para o obreiro do primeiro título mundial conquistado pelos lusos, "Bebé merece ser lembrado por ser o maior profissional que constava na convocatória e por ser único sem um contrato" digno desse título. Já Ricardinho, outro elemento fundamental nesta caminhada, "passou por tantas dificuldades mais recentemente que talvez tenha sido isso que nos momentos mais complicados o tenha motivado."

No final do Webinar ficaram "prometidas" mais sessões que tragam este tema, cada vez mais importante, ao horizonte público.

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