Crónica

"Tu, Negrete, quedas-te conmigo": o dia em que me tornei tradutor de Maradona

"Tu, Negrete, quedas-te conmigo": o dia em que me tornei tradutor de Maradona

Já Dieguito era um ídolo à escala planetária quando me cruzei com ele. Naquele final de tarde de novembro de 1989, Diego Armando Maradona - o tal da "mão de Deus" que valeu o título mundial à Argentina em 1986 - iria aterrar no Aeroporto de Lisboa para jogar com o Sporting em jogo da então Taça UEFA.

Não é difícil imaginar a confusão que se gerou na zona das chegadas. Empurrão para aqui, empurrão para ali, polícia a tentar restabelecer alguma ordem, microfone contra máquina fotográfica... Em início de carreira, muito mais guiado pelo atrevimento próprio da juventude do que pela experiência, percebi que ali o mais certo era que ninguém conseguisse apanhar nada. E eis que me deu um flash: vou para o hotel esperar, pode ser que tenha sorte. Entrei tranquilamente na receção e sentei-me no sofá. Agora era só aguardar. E fazer figas!

Passado algum tempo, percebo a tremenda confusão instalada à porta do hotel, onde os seguranças tentavam barrar a entrada a terceiros. De repente, com a mochila às costas, ali estava ele pronto para subir no elevador para o quarto. "Oye, Diego, tienes un minuto?", pergunto-lhe. E não é que Dieguito poisou a bagagem e me respondeu? O seu "claro" foi espontâneo. E ali ficámos uns bons minutos a falar do jogo do dia seguinte.

O fator decisivo para a entrevista exclusiva foi a sorte de eu falar castelhano quase perfeito desde a infância. Mas, a surpresa maior estava guardada para o dia seguinte, em que o Nápoles tinha um encontro informal com a imprensa portuguesa no hotel. Desta vez foi ele. Sim, ele, o ídolo mundial, o "Deus", a chamar-me. "Tu, Negrete, quedas-te conmigo, que a ti yo te entiendo"... (Negrete era um internacional mexicano, que havia jogado o Mundial 1986, e que na altura havia muita gente que me achava parecido com ele, como o amigo Oceano, uma lenda do Sporting).

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De um momento para o outro, era o "tradutor" de ocasião de Dieguito. E falámos sobre vários temas, informalmente, já sem microfones. El Pibe deixou-me, naquele outono de 1989, a imagem que hoje gostaria de recordar: um menino simples, oriundo do bairro de La Boca, tão natural no trato pessoal como na maneira de sentar adversários no chão com dribles estonteantes. Infelizmente, o seu percurso pessoal e desportivo acabaram por manchar essa impressão que me ficou.

Já agora, em termos futebolísticos, Maradona só jogou 19 minutos em Lisboa. O jogo terminou 0-0, o mesmo resultado da segunda mão, em Nápoles. O Sporting seria eliminado nos penáltis (4-3) num jogo que ficaria marcado por uma aposta de Ivkovic com El Pibe. O guarda-redes do Sporting apostou 100 dólares com Maradona em como este não lhe marcaria. E não é que Dieguito falhou mesmo?

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