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Viver e vencer no Vale da Morte

Viver e vencer no Vale da Morte

Carlos Sá pensa já no próximo desafio, o ultratrail de 168 quilómetros, no Mont Blanc, nos Alpes. Especialista nos trilhos de montanha, o atleta português venceu uma das provas de estrada mais duras do Mundo, a ultramaratona Badwater, nos EUA, que começou no Vale da Morte, na Califórnia, com temperaturas tão elevadas que derreteram o "chip" de identificação. "Senti-me um frango assado", desabafou.

À chegada, sexta-feira, ao Aeroporto de Francisco Sá Carneiro, em Pedras Rubras, Carlos Sá foi calorosamente recebido pelas dezenas de pessoas que há muito seguem os seus feitos pelo Mundo: no deserto, na montanha e, agora, na estrada. A mais, só o aparato mediático, câmaras e jornalistas na receção do herói do Vale da Morte.

Carlos Sá agradeceu esse "momento de grande satisfação e alegria ao ser recebido por amigos e pessoas" que se identificam com o seu estilo de vida. "Esta vitória também é deles", garantiu, desfiando até à receita básica o feito épico, arrancado durante 24 horas, 38 minutos e 16 segundos, sob 50 graus de temperatura do ar e sobre os 80 graus do asfalto. "Acreditar, trabalhar, sofrer e os resultados aparecem", disse, pronto para correr esta manhã, em modo de recuperação e com o Mont Blanc em perspetiva. "Faltam 38 dias para correr mais 168 quilómetros com 20 mil metros de desnível acumulado", explica.

"Ando em busca dos meus limites... E, felizmente, ainda não os encontrei", avisa o ultramaratonista, que terá deles tido um vislumbre, quando corria há apenas cinco horas, no Vale da Morte. "Isto está tudo contra nós", disse a Pedro Amorim, o médico que o acompanhou na prova. "Aquele ar quente deixa o nariz em ferida e seca a garganta de tal maneira que precisamos de água de 20 em 20 segundos", contou. "E tinha uma parede de 1500 metros para subir, o equivalente a subir da Covilhã à Torre uma vez e meia, com vento de frente a soprar a 60/70/80 quilómetros/hora. Até caminhar era quase impossível", explicou o atleta.

"Imaginem, de repente, abrir um forno com uma pizza e vir aquela baforada", tenta descrever, o inferno do Vale da Morte. "A minha equipa banhava-me com água gelada constantemente e passado uns minutos estava completamente seco e com uma sensação de frango assado".

São voltas que já lá vão e Carlos Sá pensa, agora, na lógica de um regresso recordista. Se venceu à primeira, na segunda Badwater voltará para tentar bater o recorde.