O Jogo ao Vivo

Domingo

A semana que passou

O que mais importante se passou nesta semana, que começou com nova greve dos professores e acaba com o primeiro-ministro "apertado" por um novo escândalo.

Seg. 19 - Intransigência insustentável. Com nova greve e a ameaça de outras nos tempos que se avizinham, a luta dos professores contra o modelo de avaliação proposto pelo Ministério da Educação (ME) começa a passar o limiar da razoabilidade. Não pela insistência reivindicativa, salutar nestes dias em que o medo começa a tornar naturais todas as prepotências, mas pela ausência de um princípio negocial devida à intransigência dos docentes. O Governo já se declararou disponível para introduzir melhorias na metodologia da avaliação, mas os professores recusaram. Sem qualquer contrapartida, sem vislumbre de alternativa processual. Para eles, a única solução aceitável é o regresso ao passado de privilégio, cuja progressão na carreira, ausente de qualquer aferição de competências, decorre da mera circunstância de existir. Posição corporativa que nenhum outro profissional deste país, sujeito à avaliação contínua no emprego cada vez mais precário, poderá compreender. E aceitar. Com milhares de jovens reféns deste autismo que alguns procuram capitalizar em proveito das suas ambições políticas, o impasse negocial está a converter-se numa disputa imoral. Por ser egoísta e hipotecar o futuro de uma geração.

Ter.20 -  Um messias preto na Casa Branca Jamais um negro havia presidido ao mais poderoso país do Mundo, e há muito que um só homem não arcava com tanta responsabilidade, ao congregar a esperança de milhões à deriva numa crise planetária e que esperam, desse messias improvável, um rumo que os resgate ao desespero. Já não em 100 dias, como era uso, mas em 100 horas, quando muito. É certo que Barak Hussein Obama sintetiza o espírito humanista de Lincoln e a tenacidade de Roosevelt; e ninguém poderá ignorar as extraordinárias capacidades de mobilização e organização demonstradas durante a campanha eleitoral que culminou no juramento perante a Bíblia. Mas, não obstante a sua reconhecida competência, talvez nunca antes o tradicional "so help me God" com que Obama afirmou o compromisso institucional tenha sido pronunciado com tanta propriedade como no dia em que tomou posse... Resta esperar que Deus o ouça. E nos ajude a todos.

Qui. 22 - Tudo em família. A Polícia Judiciária fez buscas na casa e nas empresas de Júlio Carvalho Monteiro, no âmbito das suspeitas de corrupção na viabilização da construção do centro comercial Freeport, em Alcochete, o maior outlet da Europa. Sendo Júlio Carvalho Monteiro tio materno do primeiro-ministro, José Sócrates, a notícia traz à memória episódios, também eles ambíguos, envolvendo familiares de figuras políticas. Como o sobrinho do autarca de Oeiras, Isaltino Morais, cuja fortuna depositada num banco suíço nunca foi explicada, ou o ex-marido da autarca de Felgueiras, Fátima, que aparentemente usou dinheiros públicos para fins particulares sem que a honorável esposa desconfiasse, ou ainda o cunhado do ex-primeiro-ministro António Guterres, Moura Santos, alegadamente envolvido numa burla de um milhão de euros. E, de passagem, recordam-se pecados menores, como o de Martins da Cruz, que enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros terá persuadido colegas de Governo a facilitar a entrada da filha no curso de Medicina pelo regime especial. Resulta daqui que os nossos políticos nem na família podem confiar, dirão alguns; outros, eventualmente mais cínicos, serão tentados a recordar que "família", em certos meios, é um eufemismo simpático para designar os clãs da máfia cleptomaníaca.

Sex.23 - Sem futuro? A trágica contabilidade das vítimas do naufrágio que ameaça afundar a economia nacional, varrida pelas ondas de choque da crise planetária que resultou das aventuras especulativas dos últimos anos, somou mais de 2000 trabalhadores, com a provável repercussão em Vila do Conde do anúncio do processo de falência da Qimonda na Alemanha, o despedimento colectivo de 180 operários pela Ecco, em Santa Maria da Feira, e a dispensa de pelo menos 400 funcionários pela Peugeot-Citröen, de Mangualde. A frieza dos números não permite quantificar essa angústia terrível que não é exclusiva dos dispensados de agora: o medo do amanhã. Ora, na ausência de um futuro, é provável que se busque refúgio no passado. Desse não muito distante, quando Portugal era país de emigrantes, analfabetos e ditadores provincianos. Não faltam candidatos. Para uns e outros.