Domingo

Bento XVI: Simpático e dogmático

Bento XVI: Simpático e dogmático

Voltar a um país onde já estivera por duas vezes enquanto cardeal, em 1996 e 2001, acarretava para Bento XVI vários desafios.

Um deles era mostrar capacidade mobilizadora junto de 20% de católicos praticantes - dos 85% de portugueses que no último censo se identificaram com a Igreja de Roma - e que estabeleceram com o seu antecessor, João Paulo II, uma empatia cultivada por três peregrinações a Portugal, em 26 anos de pontificado; outro era o de arrastar nesta visita os efeitos dos recentes escândalos de pedofilia dentro da Igreja. Tal como acontecera na deslocação anterior, a Malta, em que não foi capaz de colocar uma pedra sobre assunto.

Mas aquele que, durante 24 anos, liderou a Congregação para a Doutrina da Fé - a entidade que tem a obrigação de defender a tradição católica - mostrou não só ser um homem simpático, adjectivo para o qual era acusado de muito pouco contribuir, como, ainda longe de solo nacional e em plena viagem aérea, admitiu que são "os pecados internos" da Igreja que lhe causam mais dano.

Em quatro dias cimentou a imagem de guardião da ideologia católica, graças aos discursos que tocaram todo o tipo de temas: dos casamentos homossexuais ao aborto. São essas mensagens dogmáticas que, nas páginas seguintes, merecem a análise do sociólogo das religiões Moisés Espírito Santo; Ana Vicente, dirigente do movimento "Nós Somos Igreja"; e Carvalho Guerra, ex-reitor da Universidade Católica do Porto.

Discurso visível após 24 anos de bastidores

Os mesmos que viram enaltecido o passado nacional "glorioso", durante a homilia no Cais das Colunas do Terreiro do Paço, em Lisboa, ouviram do Papa Bento XVI um apelo: que ajudem a afirmar a matriz cristã na Europa. Deixado que estava o recado para o interior da Igreja, sobre o casos de pedofilia, ainda na viagem até Lisboa, no primeiro discurso perante os portugueses, o sucessor de S. Pedro pediu-lhes que sejam "a presença irradiante da perspectiva evangélica no meio do mundo, na família, na cultura, na economia, na política".

Uma mensagem que havia de ser consubtanciada nos quatro dias seguintes, ao encontro de uma certa pureza e regresso às origens do Catolicismo defendida pelo homem que toca piano e colecciona doutoramentos honoríficos em diversas universidades. Pensamento que defende desde que João Paulo II o nomeou prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em 1981. Aliás, por detrás do Papa mais simpático e mediático da história da Igreja, ocupando o terceiro lugar na hierarquia, já estava o cardeal Joseph Ratzinger, 'tradicionalista' alimentado pelo seu incontestado conhecimento de Teologia.

Risco de Igreja "sexista e exclusivista"

Argumenta Moisés Espírito Santo, sociólogo das religiões, que a condução do Vaticano com destino às origens pode ser uma reacção à perda progressiva de fiéis. "Exceptuando as palavras de circunstância ao grupo de intelectuais e artistas [no Centro Cultural de Belém], os seus discursos revelam uma preocupação com a imagem da Igreja Católica", considera.

Segundo o sociólogo, após a "reabilitação do bispo Lefébvre [católico tradicionalista] e acolhidos os bispos dissidentes da Igreja Anglicana" [inconformados com o fim da discriminação das mulheres e dos homossexuais], o discurso de Bento XVI aponta "para o interior da própria Igreja". "Para a 'purificação' da Igreja e até para a purga, para a tornar um reduto de 'puros', em contraponto com uma Igreja de massas, como foi a Católica até há umas dezenas de anos", frisa, alertando para as consequências que poderá ter o desafio lançado aos portugueses: "a estratégia será a de ter uma Igreja reduzida de praticantes mas 'pura', como nos primórdios do cristianismo, sexista e exclusivista".

Qual será o meio? "O 'Segredo de Fátima' foi reinterpretado e servirá para apoiar essa ideia de Igreja 'pequena mas pura'. Bento XVI voltou a consagrar Fátima como o terreiro de uma fé popular, em detrimento da Teologia erudita que está cada vez mais desacreditada", garante Moisés Espírito Santo.

Masculinização dos Evangelhos

Perante a mensagem papal, Ana Vicente, escritora e membro do movimento internacional "Nós Somos Igreja", defende que ali o verbo e a palavra tiveram "substância". "[Bento XVI] Não pronuncia discursos redondos, facilmente desmontáveis e completamente distantes da realidade, como tantas vezes acontece nas homilias a que os católicos são submetidos todos os domingos", salienta, lamentando que perante o agradecimento ao trabalho dos sacerdotes o mesmo não se tenha estendido às religiosas.

"Afinal, no nosso país elas são 5965 enquanto os padres totalizam 3797, e prestam serviços muito valiosos aos mais pobres, aos mais doentes, aos mais infelizes. Devo dizer ainda que me chocou que nas missas tenha havido espaços reservados para os padres, com cadeiras, enquanto as freiras se misturavam com o 'Povo de Deus'. Ambos deveriam ter estado entre a multidão", sublinha a dirigente católica.

Dono de palavras "duras"

E outras preocupações perseguem Ana Vicente, mais pelo que não foi dito. "Uma palavra apontando para um caminho de mudança de certas disciplinas da Igreja que em nada se alicerçam em Jesus Cristo e nos Evangelhos", diz, esclarecendo: "o reconhecimento da igual dignidade das mulheres e dos homens, acabando portanto com a exclusão das mulheres dos lugares de decisão e dos serviços na instituição-Igreja. Essa exclusão empobrece a Igreja no seu todo".

Indesmentível é que, se o Sumo Pontífice foi específico no que pretende dos fiéis que alicerçam a Igreja, também não deixou de fazer referências à situação actual de Portugal. Por considerar que abriu um "novo espaço de liberdade para a Igreja", não faltou sequer uma menção ao centenário da República, a mesma que na sua implantação encheu de sacerdotes as prisões do Limoeiro e o Arsenal da Marinha, e provocou a morte a outros tantos religiosos pelo país.

"De uma coisa não se pode deixar de apontar a este Papa: usa palavras muito duras, mas de uma dureza espantosa. Bento XVI pede-nos para pensar sobre a crise de valores que nos afecta", admite Carvalho Guerra, que liderou vários anos a Universidade Católica do Porto e que já se havia cruzado com Sua Santidade naquela instituição, em Março de 2001.

Impedir folclore e apelar à simplicidade

"Nessa altura, ele já referiu a perda de valores na Europa. É preciso ter em conta que Ratzinguer é um Papa que não tem problema em mostrar os nossos valores e as nossas características cristãs, quando a Igreja anda medrosa. Atente-se: Bento XVI não quer uma Igreja folclórica mas uma Igreja de joelhos", lembra. Carvalho Guerra acredita ainda que os discursos papais tiveram como objectivo "reavivar a fé", desvalorizando as denúncias que atribuem a passagem do líder do Vaticano pelas tropas nazis, aos 16 anos - "até porque foi forçado".

Por último, o "profundo apreço" por todas as "iniciativas sociais e pastorais que procuram lutar" contra o aborto e a defesa da família, "fundada sobre o matrimónio indissolúvel de um homem com uma mulher", manifestado por alguém que há 29 anos está por detrás da mensagem da Igreja, também não surpreendeu. Mas merece críticas.

"As referências ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo já começam a ser extemporâneas e do domínio da obsessão sexual. E lançou a confusão entre matrimónio católico e casamento civil. Até há poucos anos a Igreja não reconhecia o casamento civil [entre homem e mulher], agora já o defende e recomenda... A questão sexual é a grande barreira e, pelos vistos, a única, contra a qual a Igreja se enfrenta, desnecessaria e ingloriamente, em menosprezo de tantos problemas com que se debatem os cristãos", aponta Moisés Espírito Santo. Só o tempo dirá o quanto os portugueses - católicos praticantes - levaram em conta tais discursos.