Domingo

Afogamentos e salvamentos fora da época balnear fazem clamar por um novo modelo, profissionalizado

Afogamentos e salvamentos fora da época balnear fazem clamar por um novo modelo, profissionalizado

As quatro mortes registadas e o elevado número de salvamentos conseguidos no passado fim-de-semana, fazem questionar até que ponto o modelo de salvamento aquático existente necessita ser actualizado.

São 4600 os nadadores-salvadores que se preparam para começar a vigilância nas praias a partir do próximo mês. Contudo, as quatro mortes registadas e o elevado número de salvamentos conseguidos no passado fim-de-semana - com temperaturas atípicas para esta época do ano -, fazem questionar até que ponto o modelo de salvamento aquático existente necessita ser actualizado, de forma a apostar na profissionalização de todos os agentes envolvidos e estender a vigilância a outras épocas do ano.

Passaram por um curso de formação de apenas 135 horas, concluído com um exame teórico-prático. Contudo, dos 4600 nadadores-salvadores já formados, apenas 3100 são considerados necessários para vigiar as praias portuguesas. Ali, esta equipa - muito jovem, na sua maioria constituída por estudantes - contará com o equipamento que o Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) considera essencial - e internacionalmente assim reconhecido - para realizar acções de salvamento: boia circular, boia torpedo, barbatanas, cinto, vara e prancha de salvamento e carretel.

O sistema, tal como está montado, é considerado eficiente pela Marinha, que prova apontando para "o baixíssimo número de acidentes fatais registados durante a época balnear transacta". Em declarações ao JN, o comandante Nuno Leitão, porta-voz do ISN, foi mais ao pormenor: "Na última época balnear, em 14 milhões de banhistas nas nossas praias, apenas tivemos 16 mortes por afogamento, sendo cinco em praias vigiadas e 11 em praias não vigiadas". Visão contrária tem o comandante Salgado Rosa, responsável pelo Gabinete de Segurança e Protecção Civil da Câmara Municipal de Matosinhos, que acha o modelo de salvamento aquático em vigor demasiado rígido.

Ao evocar o elevado número de acidentes nas praias no passado fim-de-semana, Salgado Rosa lembra que, embora atípicas, as elevadas temperaturas observadas ocorrem cada vez mais fora de época. "O actual modelo é rígido porque tem um período de funcionamento e há várias ocasiões de calor fora desses meses que levam as pessoas para o mar", realçou.

E foi o facto de as praias do concelho de Matosinhos serem apetecíveis a uma população que extravasa aquela que ali habita que fez com que a Edilidade, de mãos dadas com a Autoridade Marítima do Norte e a Escola Superior de Artes e Design, criasse o Sistema de Salvamento Balnear de Matosinhos (SSB). Em outras praias, como na Póvoa de Varzim e Carcavelos, também um modelo profissional está já implementado.

Contrariamente ao que acontece na maioria das praias portuguesas, o SSB é um sistema profissionalizado, que conta com uma equipa de oito elementos, todos com uma formação especializada. Trata-se de um projecto pioneiro em Portugal de prevenção, informação e vigilância balnear, que procura garantir melhores condições de segurança nas praias que não têm vigilância.

"Actuamos nas praias sem vigilância, mas os nossos elementos estão sempre prontos a ajudar os nadadores-salvadores das praias vigiadas. Além disso, o SSB funciona durante todo o ano e não apenas na época balnear", referiu Salgado Rosa.

Fernando Martinho, presidente da Associação Nacional de Salvamento Aquático (ANASA-Portugal), é peremptório: "Temos um modelo ultrapassado, baseado em nadadores-salvadores com uma formação não-qualificada, que funciona de uma forma precária e que disvincula o Estado da responsabilidade que a lei lhe confere".

Ao olhar para o número de mortos e para os inúmeros salvamentos registados no passado fim-de-semana, Fernando Martinho não tem dúvida que eles são o resultado da falta de um sistema integrado de salvamento aquático, que funcione em articulação com outros serviços. "Na prática, com o actual sistema, a segurança nas praias depende mais da capacidade das pessoas se auto-salvarem", sublinhou.

O presidente da ANASA-Portugal refere, como exemplo a seguir, o SSB de Matosinhos. "Em Portugal, temos o melhor sistema de formação profissional em salvamento aquático. É feito em 10 escolas e, neste momento, há 12 turmas a funcionar. Já estão formados mais de 150 técnicos, não há razão para continuar a apostar num modelo não-profissional", explicou.

Confrontado com estas críticas, o responsável pelo ISN mantém que a legislação existente no que se refere ao salvamento aquático "está muito bem feita, nem pensar em fazer alterações".

Contudo, Fernando Martinho volta à liça e faz notar o equipamento e o vestuário entregues aos nadadores-salvadores. "Os equipamentos existentes para salvamento são os mesmos de há muitos anos, com pouca modificação, a não ser a introdução da prancha. São insuficientes para uma intervenção até 50 metros. O salvamento devia ser feito do mar para terra, isso significa que são precisas embarcações semi-rígidas, caiaques de salvamento e motas-de-água", referiu.

Quanto ao vestuário dos nadadores-salvadores, Fernando Martinho ironiza e diz que são "óptimos para estar na areia a apanhar banhos de sol". Atendendo às águas frias da nossa costa, principalmente no Norte, Martinho explica que o salvador pode ter um choque térmico ao atirar-se à água ou vir a sofrer de hipotermia se tiver que nadar até longe ou permanecer na água muito tempo a tentar localizar o corpo que submergiu.

Por essa razão é que a equipa profissionalizada do SSB de Matosinhos veste fatos de neopreno. Apesar de a equipa poder contar com duas motos-quatro adaptadas para salvamento balnear e uma mota de água, o comandante Salgado Rosa considera que o equipamento existente nas praias vigiadas é suficiente e correspondem aos parâmetros internacionais.

O responsável pelo ISN é da mesma opinião. Quanto ao vestuário dos nadadores-salvadores, Nuno Leitão não considera importante o uso do fato de neopreno. "Reduzem a mobilidade. Agora se os nadadores-salvadores considerarem que a sua utilização é uma mais-valia para si, devem adquiri-los, é uma questão que passa pela sua responsabilidade". Salgado Rosa revelou que os fatos de neopreno utilizados pela equipa do SSB têm uma espessura de três milímetros e custaram cerca de 125 euros".

A falta de profissionalização do modelo faz - segundo Fernando Martinho - com que o nadador-salvador esteja na praia descansado, a apanhar banhos de sol e a colocar as bandeiras de acordo com a sua competência no mar. "Se vê umas ondas e um pouco mais de agitação, coloca logo a bandeira vermelha, pois não quer ter problemas. Se o sistema fosse profissional e houvesse um plano a funcionar, em vez de estar deitado na areia, ocupava o tempo a confirmar a temperatura da água, a ver as correntes e a dar informação aos veraneantes, fazendo com eles testes à capacidade de sobrevivência na água", realçou.

O responsável pelo ISM refuta as críticas. "O nadador-salvador tem de estar em constante vigilância, caso contrário entra em contra-ordenação caso surja a Polícia Marítima (PM). Quanto às bandeiras, a ele compete alterá-la segundo o estado do mar. Mas se colocar a cor errada, a PM pode adverti-lo a mudar", concluiu.