Domingo

Bestas ao volante

O século XX assistiu à introdução de uma pandemia até então nunca vista e que rapidamente alastrou, convertendo-se numa calamidade: o automóvel. Para lá da reconhecida utilidade e do estatuto que confere ao dono, a máquina mais desejada da História trouxe um novo mal que Portugal conhece, infelizmente, tão bem: o acidente de trânsito.

 

Verdadeira doença civilizacional, a sua potência destrutiva acumula mortos - de Janeiro ao início deste mês, a Autoridade Nacional para a Segurança Rodoviária contabilizou 413 óbitos na estrada - bastos estropiados e grandes prejuízos materiais (cerca de 3% do PIB anual). Eis o resultado da equação sanitária de três factores: o carro, como agente causador da doença; a estrada, putativo ambiente da propagação; e o condutor, espécie de hospedeiro da enfermidade.

Mas se a mecânica evoluiu muito, auxiliada pela electrónica, e o alcatrão é hoje largo e suficiente, o condutor, esse, parece não conseguir reinventar-se. De modo que, face ao manguito nervoso, ao insulto vociferado, às disputas entre carros em plena via e à batida beligerante em hora de ponta, ocorre perguntar: porque é que o mais pacato dos cidadãos, cumpridor das leis e temente a Deus, adopta, não raro, comportamentos de risco e se transforma numa besta furiosa quando está atrás do volante?

Mesmo o carro mais pequenino não se fica pela dimensão utilitária: possui valor icónico, é o principal indicador do êxito individual e símbolo de poder. Eis onde radica o seu maior perigo: na relação que a pessoa estabelece com ele. "O carro transforma-se num invólucro da pessoa e assume características que contribuem para a agressividade do condutor", assinala o sociólogo Albertino Gonçalves, enumerando-as: "A primeira é que funciona como máscara, na medida em que protege a imagem e a exposição da pessoa; ora, protegidos por máscaras, tendemos a libertar certas pulsões", diz o docente da Universidade do Minho (UM). "Depois, é uma máquina onde o corpo se encaixa, funciona como junção homem-máquina que nos potencia, nos dá capacidades que, sem ele não teríamos; num carro, experimentamos uma potência que nos torna mais fortes e poderosos. Esta relação também leva a que sejamos mais agressivos", conclui.

Do binómio homem-máquina resultam equívocos, segundo Jorge Santos, professor de Psicologia também da UM: "Um carro será um exoesqueleto do condutor, amplia-lhe o corpo, e ele passa a avaliar distâncias, velocidade e dimensões não a partir do próprio corpo, mas a partir desse exoesqueleto, o que propicia comportamentos de maior risco", diz. Menos elaborado, mas fundado na experiência, Mário Costa, do Instituto de Avaliação Psicológica, é taxativo: "Um carro é um instrumento de poder, e nele a pessoa transfigura-se - tem de mostrar aos outros que é melhor do que eles". E o palco do condutor, quer seja exibicionista, agressivo ou equivocado, é a estrada.

E vias não faltam. Portugal está bem alcatroado, fruto da revolução rodoviária pela política do betão de Cavaco Silva (1987) que levou auto-estradas a todo o país - excepto o distrito de Bragança, que não tem nenhuma. Mas, se as estradas são novas e melhores, as atitudes nem por isso. E talvez por isso: "Somos agressivos não só porque vamos num carro, mas acima de tudo porque vamos numa estrada", diz Gonçalves, explicando: "Na estrada, não sigo segundo a minha vontade, mas conforme as circunstâncias, e ali as circunstâncias são os outros, pelos que estamos numa situação de dependência extrema em relação a eles - para travar ou acelerar, fazer uma manobra, estacionar... Ora, estamos pouco habituados a depender durante tanto tempo dos outros, a estar condicionados por eles. E isso torna-se enervante", assinala.

Por outro lado, "geralmente, as pessoas conduzem por obrigação, condicionadas por horários e por percursos quotidianos. Tudo isto é desgastante e transforma-se em agressividade muito facilmente", observa ainda o sociólogo, sublinhando que a estrada tem outra virtude insuspeita, que justifica altercações no trânsito e, quiçá, a origem do dedo insultuoso: "Se ficamos agressivos na estrada, o bode expiatório está ali à mão: é o outro. A agressividade pode ser canalizada imediatamente. Só que por pouco tempo, e à distância. Nestas condições, recorre-se ao gesto, à buzina e ao grito". Nem todos os condutores se comportam assim, é certo, mas, para aqueles que o fazem, "a estrada é uma arena: serve para o exibicionismo, para a competição e para o confronto".

De facto, há quem seja mais susceptível à conversão em furioso gladiador motorizado. Para Cristina Soeiro, psicóloga do Instituto Superior de Polícia Judiciária e Ciências Criminais, depende da personalidade. "Quem acumula elevado nível de impulsividade e baixo controlo emocional, quando vê colocado em causa o seu domínio, reage muito mal", diz. Principalmente a "pessoa mais autocentrada, que interioriza as regras a partir dos seus direitos e não dos dos outros. Se for impulsiva, torna-se muito agressiva", refere.

Parece ser esse o perfil de muitos condutores nacionais. Sobra-lhes auto-estima onde falta tolerância, como descobriu Mário Costa. Num questionário no âmbito da sua especialização em Psicologia do Tráfego e Segurança Rodoviária, onde o condutor tem de classificar de 1 a 5 ("muito mau" e "excelente") o seu nível de condução, "habitualmente coloca-se no 4, que é bom, mas quando avalia os outros, baixa para 3 e 2. É o mito do super-homem: nós somos bons e os outros é que são maus", revela.

Sucede que "outros" e "nós" conduzem todos no mesmo sítio que é Portugal. E isso é que é significativo, repara Santos: "Quando pomos um cidadão dos chamados 'países selvagens', da bacia mediterrânica - Portugal, Espanha, Itália e Grécia - num país do Norte da Europa, verifica-se que esse condutor 'selvagem' rapidamente se adequa ao tipo de condução desses países (com as menores taxas de sinistralidade)", garante. "O curioso", vinca, "é que o contrário também acontece". Afinal, o problema não é a máquina, nem o alcatrão nem o condutor, mas antes a geografia e o destino. Sem remédio possível. Senão, talvez… emigrar.

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