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Marinho Pinto: "Posso quebrar, mas não torço"

Marinho Pinto: "Posso quebrar, mas não torço"

Determinado ou autoritário? Corajoso ou ambicioso? Desbragado ou frontal? Inconsistente? Íntegro? Fiel ou alguém em quem não se pode confiar? Para uns, António Marinho e Pinto será umas coisas; para outros, o seu contrário. Para alguns, terá um pouco de tudo. O Bastonário da Ordem dos Advogados não deixa ninguém indiferente.

Nasceu em Amarante, a 10 de Setembro de 1950, na freguesia de Vila Chã do Marão. De pai alfaiate e mãe camponesa. Com meio ano, saiu de Leixões rumo ao Brasil, Rio de Janeiro. Foi lá que nasceu a única irmã. Em 63, com pouco mais de 13 anos, regressou. "A minha mãe nunca gostou do Brasil", explica. O pai ficou e lá morreu, em 2006.

Na terra natal, António Marinho ingressou no colégio de S. Gonçalo, onde fez o actual 9.º ano. O 10.º e 11.º foram cumpridos em Vila Real, terra onde começou a identificar-se com os movimentos democráticos e de Esquerda. "Não sei situar a data, mas uma vez fui ao Porto e havia lá uma manifestação contra a guerra no Vietname. Nem sabia muito bem onde ficava esse país, mas havia umas fotografias horríveis da guerra e entrei na manifestação. Até que veio a Polícia e bateu-me. Fiquei muito impressionado com a violência da Polícia".

No liceu de Vila Real começou a privar com os estudantes de Esquerda. E, nas eleições de 1969, as primeiras com Marcello Caetano, envolveu-se em acções de esclarecimento, num movimento liderado por Otílio Figueiredo (pai do socialista Eurico Figueiredo), sobre a falsa mudança proposta por Marcello. Por essa altura, já Coimbra fervilhava em plena crise académica. Foi tanta a atracção sentida pela luta estudantil que foi a Coimbra em Junho e em Setembro. Quando ingressou na academia, em 1971, já sabia que queria estudar Direito e a quem se juntar.

"Conheci o Marinho quando ele chegou à Universidade e já era assim. Era um jovem muito voluntarioso, foi um participante muito activo", lembra Osvaldo Castro, hoje deputado do PS e um dos dirigentes académicos que, com Alberto Martins e Celso Cruzeiro, lideraram a Crise Académica de 69. "Ele é um radical, no sentido verdadeiro da palavra: vai à raiz das coisas", continua. "Tem o coração à esquerda e ao pé da boca".

Quanto às ambições políticas que alguns lhe vislumbram: "Não, não! Ele não é um homem da política. Na política é preciso fazer acordos, o que é muito difícil para ele" . Osvaldo Castro, que suspendeu a advocacia, assume-se como "muito amigo" do actual bastonário, mas admite que não votaria nele para a Ordem. Precisamente por todas as qualidades que lhe aponta. Não servem para uma instituição habituada "a um maior recato". A Ordem que António Marinho e Pinto ganhou com a maior votação de sempre e onde rapidamente acabou isolado. Os conselhos distritais a reclamar a sua destituição, ex-bastonários indignados, candidatos derrotados incrédulos, apelos para que renuncie. Mas ele não sai. "Poderei quebrar - dependendo do que desabar sobre mim -, mas torcer não torço", garante.

Chegado a Coimbra, associou-se ao Movimento Democrático de Estudantes. Publicamente, um movimento humanitário de ajuda aos estudantes africanos presos pela Pide, mas, clandestinamente, um movimento contra a guerra colonial. Reuniam na República das Pimpinelas, onde Marinho residia. Os dois estudantes presos "viviam em condições deploráveis e nós íamos lá levar--lhes pijamas, cigarros, comida e os jornais que a Pide deixava entrar".

Paralelamente, faziam reuniões contra a guerra, convocadas clandestinamente. Em Fevereiro de 1971, um dos activistas foi preso enquanto distribuía panfletos e, em Setembro, a cena repete-se com outro estudante. Foi convocada uma reunião de urgência e António Marinho e outros quatro estudantes acabaram presos, em Caxias, onde estiveram cerca de dois meses. O pai, a residir no Brasil, ficou muito decepcionado. Cortaram relações e só as reataram em 1987.

Foi nestas andanças coimbrãs que conheceu José Miguel Júdice, outro estudante muito activista, mas da "Extrema--Direita". Uma vez, os estudantes decidiram convocar uma greve às aulas. Marinho dirigiu-se à sala onde deveria ocorrer a primeira aula para comunicar ao professor que havia greve. Mas a sala já estava cheia de estudantes de Direita. Quando deu por ela, estava lá dentro e com a porta trancada, sem poder sair. "O professor dava a aula, como se nada fosse". Exigiu ao lente que o deixasse sair. "Sai pela janela, seu comunista", gritavam os estudantes. As coisas aqueceram e estava em vias de levar uma coça, quando Júdice o salvou: "Ninguém lhe bate, nós não somos iguais aos comunistas".

O mesmo Júdice que o fez enveredar pelos caminhos da Ordem, quando, em 2001, o convidou para integrar a sua lista e lhe atribuiu a responsabilidade pela Comissão de Direitos Humanos. "Foi um erro", admite agora o ex-bastonário. Segundo Júdice, Marinho tem três grandes qualidades: "É uma pessoa corajosa; luta por aquilo em que acredita, estando disposto a pagar o preço por isso; é capaz de ultrapassar a crítica sem crispar". Mas é também uma pessoa "muito insensata, que não pondera as vantagens e os inconvenientes da suas atitudes; é capaz de ser profundamente injusto ao ponto de ser intelectualmente desonesto; e é uma pessoa sem grande consistência nos objectivos: mudam consoante os seus interesses".

Nas reuniões preparatórias da sua candidatura, segundo Júdice, só deixou transparecer qualidades. Os defeitos vieram pouco depois, quando se verificou que "não sabe trabalhar em equipa" e "é um potencial ditador". E que as aparições na televisão lhe subiram à cabeça. "A vaidade é outro dos defeitos dele", diz, acrescentando que o respeita e que há tempos lhe telefonou a dizer: "Hoje foste o meu bastonário". Foi quando Marinho se insurgiu contra as buscas em escritórios de advogados. Também gostou dele no mais recente incidente: a entrevista em que acusa Manuela Moura Guedes de não respeitar o Código Deontológico dos jornalistas. "Disse-lhe o que toda a gente pensa, mas não tem coragem de dizer. É um animal nobre. Num país onde há muitos merdosos e medrosos, ele não é uma coisa nem outra".

Nem todos pensam assim, e também neste caso, há quem o critique por ter perdido a compostura, por não ter estado à altura do cargo. Magalhães e Silva, por exemplo, candidato derrotado por Marinho nas eleições passadas, ainda na sexta-feira titulou a sua habitual crónica no "Correio da Manhã": "Que vergonha!". João Correia, vice-presidente do Conselho Geral no tempo de Júdice, não tem dúvidas: "É uma pessoa em quem não se pode confiar; não tem nem currículo nem cultura de advogado; não me lembro de nada que tenha feito de positivo".

Júlio Oliveira, presidente da Junta de Freguesia da Tocha (Cantanhede), eleito numa coligação CDS/PSD e amigo do actual bastonário desde os anos 80, também não tem dúvidas: "É uma pessoa muito íntegra; é um homem independente, tem a sua maneira de pensar e não é capaz de formular um juízo só para agradar às pessoas".

Quando António Marinho saiu da prisão, ainda em 71, assumiu claramente uma luta política e até se juntou à UEC. Mas foi sol de pouca dura. "Só discutiam organização e disciplina, organização e disciplina. Eu queria discutir outras coisas. Havia várias correntes (maoistas, trotskistas...) entre os estudantes. Eu queria discutir isso. Mas ali era só organização e disciplina". Desistiu. "Não sou disciplinável naqueles termos" . Chegou-lhe como experiência. Nunca mais participou activamente em qualquer partido. Hoje, sente-se próximo do PCP e do Bloco de Esquerda, embora se sinta um pouco decepcionado com este último. "Está muito institucional". Já votou PS e PSD, "pontualmente".

"Não me incomoda nada que digam isso!", atira, respondendo aos que o acusam de estar próximo de Sócrates, na sequência dos ataques que fez ao processo Freeport. "Sempre que está em causa a legalidade de um processo judicial, falo. Tanto dá que esteja em causa o primeiro-ministro, a Leonor Cipriano ou o skinhead Mário Machado".

Ambições políticas diz que não tem e é com sonora gargalhada que responde quando confrontado com uma notícia saída na passada quinta-feira num jornal de Coimbra, segundo a qual está a preparar a sua candidatura a Belém. Foi José Miguel Júdice quem primeiro lançou a ideia. "Não digo que esteja a pensar nisso, esclarece, ao JN, mas se lhe passar pela cabeça e se o Manuel Alegre não avançar, é bem possível que apareça como o candidato dos desvalidos e dos pobrezinhos".

Em 1974, já casado e com o nascimento da primeira das duas filhas, suspende o curso de Direito. Começa a dar aulas no Secundário. Até 78, altura em que não foi colocado. Entretanto, abre a delegação da ANOP (agora Lusa) em Coimbra e Fausto Correia, que a foi dirigir, convida-o. "Tive uma ascensão meteórica no jornalismo. Um ano depois, fui convidado para chefiar a delegação da ANOP na Madeira", conta. Regressou após um ano a Coimbra, onde permaneceu até 1987. Pelo meio, conclui o curso de Direito. Passa o ano seguinte em Macau, como assessor de Galhardo Simões, secretário-adjunto do governador para a área económica. Cruza-se "uma ou duas vezes" com José António Barreiros, actual presidente do Conselho Superior a quem acusa de lhe mover a guerra que se instalou na Ordem. Não gostou de Macau: "Os chineses tinham um desprezo imenso pelos portugueses e os portugueses, salvo raras excepções, um comportamento deplorável".

Volta a Coimbra e dedica-se ao jornalismo, ao serviço do semanário "Expresso", e à advocacia até 2007, altura em que inicia a campanha para bastonário. João Fonseca, ex-jornalista do "Diário de Notícias", em Coimbra, recorda-o em meados dos anos 80, quando fundou e dirigiu a "Tribuna de Coimbra", semanário académico que "reflectia muito a maneira de ser do Marinho como jornalista - as suas crónicas incómodas, os comentários audazes, entrevistas e reportagens corajosas, denúncias perturbadoras". Maneira de ser que, para Fonseca, continua presente.

Admirado e respeitado por uns, odiado por outros, é assim aos 58 anos como já o era aos 20. "Entrava-se nos cafés da Praça da República (onde se reúnem os estudantes de Coimbra) e metade era a favor do Marinho; outra metade era contra", conta Fonseca, para quem será esse carácter "determinado, corajoso, frontal, irreverente e polémico" que lhe granjeia "tantos inimigos e outras tantos bons amigos".

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