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"O Estado Novo é o augedo Estado Maçónico"

"O Estado Novo é o augedo Estado Maçónico"

Magistrado e investigador da Universidade de Lisboa, Costa Pimenta defende, aos 53 anos, que António Oliveira Salazar era membro da Maçonaria, tal como quase todas as figuras de relevo do Estado Novo. Para isso, analisou vasta documentação, recorrendo à prova pericial ou científica, para produzir um livro que coloca em questão muitos dos mitos criados em torno da figura de Salazar.

A Maçonaria integra muitas teorias da conspiração. Como poderia definir-se tal organização? Quais os seus propósitos, e quando é que se instalou em Portugal?

Vale a pena citar um eminente historiador português e poderoso maçon, o Prof. Oliveira Marques: "A Maçonaria de qualquer país acha-se organizada como um Estado dentro do Estado. Tem a sua Constituição, a sua lei penal, o seu código de costumes, as suas finanças, a sua lei internacional até". Note-se que nada disto se situa no domínio das teorias da conspiração; na verdade, a Maçonaria faz parte da estrutura interna dos Estados modernos. Especificamente quanto a Portugal, escreve o mesmo Oliveira Marques: "Estudar a Maçonaria do nosso país é o mesmo que estudar a História de Portugal, pelo menos a partir de 1817". Muitos países foram, aliás, fundados por maçons. O caso mais flagrante é o dos EUA.

Há várias noções de "Maçonaria", sendo aquela que eu forneço no livro a seguinte: "A Maçonaria é um sistema militar universal de ensino e de governo do Homem pelo Homem, que tem por base a doutrina de Deus, Pátria e Família". Quanto aos propósitos da Maçonaria, o preâmbulo da Constituição de Berlim, que institui a Alta Maçonaria ou Maçonaria dos Altos Graus, afirma que esta "sociedade tem por objecto a união, a felicidade, o progresso e o bem-estar da família humana". Em Portugal, são conhecidas agremiações maçónicas desde finais do século XVIII, mas há quem afirme convictamente que o próprio país foi fundado pela Maçonaria, sendo o rei D. Afonso Henriques maçon templário.

A mitologia nacional inscreve Salazar como devoto a Deus e à Igreja Católica, tendo por amigo íntimo o cardeal Cerejeira. Ora, a dupla pertença - à Igreja e à Maçonaria - não é uma impossibilidade?

Não. A História regista casos de dupla pertença. Pelo que se tem observado, até se pode ser cardeal ou papa e maçon - o papa Pio IX era católico e maçon. Cá em Portugal, o cardeal Saraiva era católico e maçon - até chegou a Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano. Actualmente, no Brasil, há sacerdotes católicos que, ao mesmo tempo, são maçons e até veneráveis (presidentes) de lojas maçónicas.

Admitindo que Salazar tenha sido maçon, quando é que ocorreu esse afastamento e porquê? Como é que Salazar poderia ter integrado uma organização que acolheu dos mais fervorosos republicanos e ferozes opositores ao Estado Novo?

Esse afastamento de Salazar relativamente a "Roma" deu-se em 1914, tinha ele 25 anos. Desde então Salazar jamais se confessou ou comungou. Salazar tornou-se maçon cerca de 20 antes do advento do Estado Novo, com cuja existência então ninguém sonhava. O Estado Novo, corporativo, é o Estado maçónico no seu auge. Todos os presidentes da República, todos os presidentes da Assembleia Nacional, todos os comandantes militares, todos os procuradores-gerais da República, todos os presidentes do Supremo Tribunal de Justiça, todos os presidentes do Supremo Tribunal Administrativos, todos os presidentes do Tribunal da Relação, todos os governadores civis, todos os directores das polícias, todos os directores da RTP eram maçons. A História não regista a prisão de nenhum opositor do Estado Novo por ser maçon. Claro que havia opositores de Salazar que eram maçons, sendo o mais conhecido o General Humberto Delgado. Mas isso não tem nada de extraordinário, pois dentro das lojas maçónicas não há sempre unanimidade.

Quando é que Salazar aderiu à maçonaria e a que Loja? Quem é que o convidou - visto tratar-se de uma organização secreta em que se ingressa apenas por convite?

Há provas circunstanciais, mas não decisivas, do seguinte: Salazar foi iniciado maçon na Loja Revolta n.º 336, em Coimbra, em 1914, no fim do seu curso de Direito, tendo adoptado o nome simbólico de Pombal. A Loja Revolta, onde se iniciaria também, por exemplo, Vitorino Nemésio, fora fundada por Bissaya Barreto, em 1909, e foi a convite dele que Salazar lá foi iniciado. Sem qualquer surpresa, a Loja maçónica Revolta jamais "abateu colunas" (nunca fechou), tendo continuado a sua actividade, serena e ininterruptamente, sem inquietação alguma, durante todo o período da Ditadura e do Estado Novo até hoje. Não parece que Salazar tenha sido iniciado na loja maçónica, composta por professores da Faculdade de Direito de Coimbra e que, desde 1850, governa aquela instituição.

Sustenta a tese de que Salazar era maçon na exegése dos discursos de Salazar e comparando-os com a literatura maçónica, entre outra documentação. Todavia, não será um exercício demasiado especulativo e assente em provas circunstanciais, inferências e deduções?

Em primeiro lugar, a tese de que Salazar era maçon não é a descoberta da pólvora. Já em 2006 Brasilino Godinho tinha colocado a questão "Salazar era maçon?". É-me indiferente que Salazar seja ou não maçon. Comentários, críticas e sugestões à tese sustentada no livro são bem-vindos e aguardo mesmo se estabeleça um amplo contraditório. Não sou dono da verdade. Porém as provas a favor da tese de que Salazar era, de facto, são muito fortes. Na verdade, há vários tipos de prova admitidos nos tribunais: prova por declarações do próprio - que pode ser uma confissão -, prova testemunhal, prova por acareação, prova por reconhecimento, prova por reconstituição do facto, prova pericial e prova documental. Naturalmente, qualquer meio de prova é falível. Por exemplo, a prova documental está sujeita à alegação de que os documentos são falsos. Ora o livro recorre à prova pericial ou científica, a mais segura de todas. Mas não se trata de prova circunstancial ou indirecta. Não. É prova lógico-científica directa, com recurso a maquinaria pesada.

Tanto a Maçonaria, como a Igreja e Salazar suscitam paixões intensas. Qual foi o intuito de publicar tese tão icononoclasta, que questiona muitas das certezas inculcadas no imaginário nacional?

O livro não pretende interferir no direito de pessoas e de organizações se constituírem admiradores ou detractores de Salazar e da sua obra. É apenas um trabalho académico. Verdadeiramente, a tese defendida em Salazar, o Maçon é a da necessidade de cada um pensar pela própria cabeça e de não dar por definitivamente verdadeiras determinadas afirmações só porque são repetidas vezes sem conta ou só em virtude da pessoa que as faz. Circulam muitas inverdades ditas por professores, cientistas, magistrados e outros. O livro destina-se a chamar a atenção para a necessidade de se fazer um teste ao que nos é dito, porque pode não ser verdade.

Salazar o Maçon
Costa Pimenta
Bertrand editora