Domingo

"Ser voluntário não é pôr pensos em feridas"

"Ser voluntário não é pôr pensos em feridas"

Sónia Fernandes, antropóloga que já integrou várias missões internacionais, fundou a primeira escola de voluntariado em Portugal.

Autopia, pessoal mas transmissível, de que todos podemos fazer um Mundo melhor é mais do que um molho de palavras para Sónia Fernandes. O discurso da antropóloga é reflectido, mas ágil, erigido sobre a experiência das missões que cumpriu como voluntária em países em vias de desenvolvimento. Esteve em Moçambique, Timor-Leste e Togo, ao serviço dos Médicos do Mundo, das Nações Unidas e da União Europeia, deixando para trás a "redoma de cristal que é a Europa". Do que viu e sentiu, Sónia Fernandes tem uma certeza: "Estamos ainda numa fase embrionária da cooperação internacional".

E é por saber que está tudo no início, que Sónia Fernandes quer ajudar a moldar o futuro. Ou, pelo menos, tentar. Fundou a primeira Escola de Voluntariado em Portugal, a "Pista Mágica", onde mais do que pistas para uma missão segura em solo desconhecido, pretende transmitir aos alunos os valores que devem presidir às missões dentro e fora de portas. "Ser voluntário não é pôr pensos em feridas", adverte.

À frente dos destinos da escola, a antropóloga, de 33 anos, procura colmatar uma lacuna, que considera imperdoável, demasiado presente no terreno para ser negligenciada: a formação dos voluntários. "Quando se está em missão, está-se muito desprotegido e a maioria das organizações não sabem cuidar dos voluntários", indigna-se Sónia Fernandes. "É uma maldade colocar as pessoas no terreno sem as preparar".

"A preparação não pode ser só técnica, não é só saber o que se deve colocar na mala", explica Sónia Fernandes. "É conhecer a cultura, o país, o regime político, o clima, as religiões, as línguas...". Na utopia da antropóloga, só os mais preparados poderão partir para ajudar um povo. Conseguirão trabalhar em conjunto com os locais, capacitando-os para que possam eles tomar a propriedade do projecto. E, no regresso a casa, os voluntários receberão o enquadramento necessário para processar tudo o que viveram e seguir em frente.

"Quando se vai a um país em desenvolvimento, os cenários são muito fortes e os contextos são difíceis para um estrangeiro", explica. Sónia hesita, reformula e volta a tentar pôr em palavras uma dimensão que apenas pode ser entendida pela experiência. "Se vamos para um sítio onde a morte é muito presente, em que há muita violência ou há guerra, em que a fome impera... As pessoas e as prioridades regressam mudadas", conta. Perde-se a ingenuidade com que se partiu em missão.

Sónia Fernandes recorda o seu olhar inexperiente, na primeira missão, em Moçambique. E a violência que traiu os relatos nostálgicos que ouvira de quem viveu em África: "Foi muito duro... Os meus olhos eram inexperientes... Foi muito violento". Sabe o que passa e o que sofre quem vai para o terreno. Sabe da impossibilidade de esquecer alguém que morre diante dos olhos.

Deve seguir o voluntariado quem pode e tem condições para tal, não apenas os que querem. Sónia Fernandes recupera a simplicidade das coisas sensatas da vida: "Para tudo é preciso sabermos se temos vocação". Sónia soube-o cedo. "Aprendeu brincando" o espírito humanitário, em casa e em dez anos de escutismo.

Sónia Fernandes defende um plano para que o voluntariado em Cooperação e Desenvolvimento resulte. Não teme a escolha de palavras polémicas e assume que quer chocar, provocar o desconforto que conduz à mudança. Defende o profissionalismo do voluntariado, não no sentido de o fazer profissão, mas no de assumir os mesmo pressupostos de excelência e de qualidade. "Não se alia muito o voluntariado a profissionalismo, a compromisso, a responsabilidade. E são coisas que casam muito bem", constata a antropóloga, que foi conselheira das Nações Unidas e observadora da União Europeia. "As pessoas têm ideia que basta ter boa vontade... E não está associado ao voluntariado uma continuidade de serviço, nem de capacitação", lamenta.

Critérios que devem aplicar-se a todos os agentes: aos voluntários, "que têm de ser o melhor exemplo no terreno e primar pela excelência", mas também às organizações, que têm ainda de aprender a valorizar os voluntários enquanto recursos humanos. E aos projectos. Sónia Fernandes volta a agitar as águas quando afirma "não ser preciso muito dinheiro" para os fazer, desde que sejam bem feitos. Fazem-se de partilha e em sintonia com os locais, não eternizando os programas no terreno, antes passando competências às entidades nacionais responsáveis.

"O que acontece é que as organizações, muitas vezes, desenvolvem projectos não porque é uma prioridade e a sua missão é aquela, mas porque existe financiamento naquela direcção e orientam a linha de actuação para aquele dinheiro", explica. "Passados dois anos, não há mais fundos e eles vão para outro sítio qualquer, fazer outra coisa. Mas que desenvolvimento é este?", indigna-se. "Cooperação para o desenvolvimento implica anos, em determinados casos, décadas! Dois anos não é nada", explica a presidente da "Pista Mágica"".

Não é assim que se consegue mudar o Mundo. "Não há continuidade e depois criam-se resistências", explica a antropóloga. E eis que surge mais uma memória, a comprovar que o caminho é mesmo pelas pistas que Sónia vai gizando. "Disseram-me: 'Mas o que é que vem cá fazer? Outros já vieram e depois desapareceram...Abandonaram-nos". São perguntas que não se esquecem, garante.

Muitos dos projectos são mal estruturados e o que nasce mal, tarde ou nunca se endireita. "No papel escreve-se tudo, o papel aguenta tudo", lamenta Sónia Fernandes, para voltar a falar da necessidade de envolver os locais. Como fez em Timor-Leste, com um projecto de saúde materno-infantil, na província de Lautem. Inaugurou a "Casa das Mães", percorreu as comunidades para fazer educação para a saúde, estreitou laços, aprendeu a língua tétum. E passados três anos voltou para ver como caminhava o bebé que ajudara a nascer. "Já estavam na terceira Casa das Mães e encontrei o projecto a ser coordenado por outra pessoa e muito bem", congratula-se.

Enquanto não pudermos "mudar todos um pouco o Mundo", Sónia Fernandes continuará a lutar pela sua utopia. É também em nome dela que lança, depois de amanhã, o livro "Sobreviver em missão", no Porto.

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