Maré Negra

Sobreviveríamos a uma maré negra?

Sobreviveríamos a uma maré negra?

Portugal escapou por pouco à tragédia do "Prestige", em 2002.  Hoje, com o derrame do Golfo do México a piorar todos os dias, fala-se de futuras explorações petrolíferas no Algarve. O risco compensará?

"Foi uma intervenção de Nossa Senhora de Fátima", justificou o então ministro da Defesa, Paulo Portas, quando, em Novembro de 2002, a maré negra libertada pelo navio Prestige passou ao largo de Portugal, quase não afectando a nossa costa. Se foi graças a Nossa Senhora ou aos ventos e marés fica ao critério e à fé de cada um. A verdade é que escapámos, por muito pouco, a uma tragédia ambiental devastadora. Já o Norte de Espanha, talvez por ser mais devoto de Santiago do que de Nossa Senhora, não teve tanta sorte e ainda hoje se sentem os efeitos do crude nas terras piscatórias da Galiza.

No dia 22 de Abril deste ano, nova catástrofe ocorreu no Golfo do México, a 70 km da costa sul dos EUA. Uma plataforma petrolífera da BP explodiu e afundou-se, ficando o respectivo poço a vazar perto de três milhões de litros de petróleo diariamente. Até ao momento, estima-se que já tenham sido libertados 630 mil barris (mais de 100 milhões de litros) de petróleo, tornando-o a maior catástrofe ambiental de sempre naquele país. Na Guerra do Golfo, as tropas iraquianas em retirada do Kuwait queimaram ou derramaram mais de 1,5 mil milhões de litros de crude.

Nestes 48 dias, várias soluções foram tentadas, mas nada estancou a fuga. A última tentativa dá sinais de esperança, mas ainda é cedo para gritar vitória. Tudo aponta para que apenas em Agosto, quando ficarem funcionais os dois poços de alívio que estão a ser preparados, a fuga cesse. Já morreram mais de 500 pássaros, 200 tartarugas e 30 golfinhos. Poucos apresentavam sinais de crude, o que indicia que morreram dos químicos utilizados para diluir o petróleo. Numa zona com mais de 35 reservas ambientais de espécies ameaçadas e que depende em grande medida da pesca e do turismo, as consequências no futuro são ainda uma incógnita preocupante.

BP já desvalorizou 58 mil milhões

O que também não pára de aumentar são os custos. A BP afirma que já gastou 829 milhões de dólares nas operações de limpeza e estancamento, que envolvem 600 quilómetros de bóias, 30 aviões e 1300 barcos, e que tem folga para gastar quinze vezes mais. Mas, na bolsa, a empresa já perdeu 58 mil milhões de euros.

Numa altura em que se fala da concessão de uma exploração petrolífera na Bacia do Algarve e quando 25% de todo o tráfego marítimo mundial de petróleo passa ao largo das nossas costas, será que podemos esperar um cenário igual ao do Golfo do México? E estaríamos preparados para o enfrentar?

"É uma questão de tempo, até sermos afectados por uma maré negra", assume, frontalmente, Flávio Martins, professor do Instituto Superior de Engenharia da Universidade do Algarve e investigador do Centro de Investigação Marinha e Ambiental. "Todas as rotas do Mediterrâneo, de África e até algumas da Ásia - cerca de 25% de todo o tráfego mundial - passam ao largo de Portugal em rota para o Norte da Europa", afirma. Se ao perigo da navegação viermos a adicionar o risco da exploração, haverá um incremento do risco. Todavia, a perspectiva de ver plataformas petrolíferas na linha do horizonte não o assusta, até porque, na sua opinião, tal não acontecerá tão cedo. "Enquanto o custo de exploração for muito alto, não compensa extrair. O preço da gasolina terá de subir. Eu diria que só daqui a dezenas de anos".

Derrames crónicos superam acidentes

Paulo Talhadas dos Santos, professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e investigador do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, defende que é preciso encontrar um equilíbrio entre a economia e o ambiente. "De um ponto de vista puramente pragmático, seria bom termos uma fonte de crude. Melhoraria, certamente, a nossa economia e reduziria a nossa dependência energética. Mas, do ponto de vista do ecossistema e da exploração dos recursos pesqueiros, constitui um perigo."

O investigador portuense recorda que, apesar de os focos mediáticos estarem sempre voltados para as grandes catástrofes, todos os anos os derrames crónicos de operação, nas plataformas petrolíferas, superam os acidentes com petroleiros. "São fugas menores, mas são contínuas. Têm efeitos negativos menores, mas são cumulativos ao longo do tempo", assegura. E avisa que ao termos crude mais barato poderemos ter a tentação de adiar a adopção de energias renováveis e tecnologias mais limpas.

Apesar de não serem frontalmente contra uma eventual plataforma, ambos concordam que teriam de ser reforçados os meios de combate e as regras de segurança. "Sabemos o que acontece nos países com maior fiscalização e o que acontece no nosso país, onde a fiscalização tende para zero", alerta Talhadas dos Santos. "Se se cumprissem todas as estratégias de segurança, o número de acidentes seria mínimo, mas o custo do produto seria superior". E é aqui que reside o grande problema, pois as empresas, para cortar custos, diminuem os patamares de segurança para um nível inferior, aumentando os níveis de risco.

Mais segurança, mas gasolina mais cara

Seguindo a mesma regra, muitos analistas internacionais antecipam uma escalada no preço dos combustíveis nos próximos tempos. Por causa deste desastre, as exigências legais de segurança vão aumentar, o que implicará mais custos para as petrolíferas que irão reflectir esse aumento no preço de venda do produto.

Há ainda a questão dos meios. Se é tão provável que aconteça, mais tarde ou mais cedo, uma maré negra em Portugal, será que estamos preparados para a combater eficazmente? "Um derrame ao largo da ria de Aveiro, da ria Formosa, perto do estuário do Tejo ou do Sado teria um impacto ambiental fortíssimo porque não temos os meios adequados para nos defendermos de uma catástrofe dessa dimensão. Já foram encomendados alguns, mas são claramente insuficientes", considera Talhadas dos Santos.

Flávio Martins recusa o "discurso do coitadinho" e atesta que "temos alguns meios" e que, "em termos de coordenação, com o "Prestige", conseguimos provar que não estamos assim tão descoordenados. Claro que é possível fazer muito melhor e tenho esperança que isso aconteça". Todavia, no caso de instalação de uma plataforma, reconhece que "teríamos que nos apetrechar bem mais e as próprias companhias teriam de colaborar nesse apetrechamento".

Como se vê diariamente no Golfo do México, até a nação mais poderosa do Mundo se sente impotente para travar um derrame de petróleo, por isso não seria expectável que Portugal estivesse preparado para tal combate. Todavia, à falta de meios, teremos sempre Nossa Senhora de Fátima.

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