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Uma vida atrás de doenças raras

Uma vida atrás de doenças raras

É difícil imaginar pior do que um inimigo desconhecido. E talvez não haja pior inimigo desconhecido do que aquele que se infiltra no corpo da vítima e lhe corrói músculos, o coração, o fígado, a visão, o cérebro... Como fazem as citopatias mitocondriais, cerca de 20 doenças raras, incuráveis e, muitas vezes, fatais.

Apesar de não afectarem muito mais de mil portugueses, há por cá quem dedique a vida a diagnosticar e a conhecer os truques desses inimigos, especializados em sabotar o funcionamento das células. E há portugueses a fazê-lo com mérito. Manuela Grazina, professora da Faculdade de Medicina de Coimbra, com 39 anos, é uma figura de proa na investigação de citopatias mitocondriais, como a doença de Leigh, a neuropatia óptica hereditária de Leber ou a síndrome de Pearson.

À frente do Laboratório de Bioquímica Genética (LBG), Manuela Grazina faz exames que, até há pouco, só tinham lugar no estrangeiro. "Estamos ao nível de qualquer laboratório de ponta. Colaboramos com laboratórios estrangeiros e sabemos que é assim", assume.

A cientista salienta o apoio de Catarina Resende de Oliveira e faz questão de partilhar os louros com os técnicos superiores e estudantes que integram a sua equipa - Cândida Mendes, Carla Veríssimo, João Pratas, Marta Simões, Maria João Santos, Carolina Ribeiro e Daniela Luís. Mas a verdade é que foi ela a bolsista do Estado francês que trouxe de Paris, em 1995, as sementes do LBG, do Centro de Neurociências e Biologia Celular, que se integra no Instituto de Bioquímica da Faculdade de Medicina de Coimbra.

A par das ligações institucionais, o LBG tem mantido relações com a comunidade, por via de médicos, na maioria neurologistas e pediatras, de diversos hospitais do país. Aqueles têm feito chegar ao LBG, anualmente, cerca de 200 amostras de sangue, de tecidos do fígado, coração e outros músculos, de doentes que se vêem a perder capacidades físicas e/ou mentais, sem saberem porquê.

Parte das amostras denunciam citopatias mitocondriais. Que, na verdade, não resultam de factores externos. São antes o resultado de problemas genéticos, numa ínfima fracção das células, a mitocôndria, que pode ser vista como a sua central energética: na cadeia respiratória mitocondrial (CRM), ocorre um processo (fosforilação oxidativa) que inclui uma série de reacções bioquímicas, como a produção de ATP, que fornece energia às células, aos órgãos, aos tecidos em geral.

"A CRM é um sistema único, cuja informação necessária para a sua formação se localiza em dois genomas, o nuclear, de todos conhecido, e o mitocondrial [mtDNA], de pequenas dimensões, localizado dentro da mitocôndria", explica Manuela Grazina, que se doutorou nesta área e trabalha, desde 1997, na caracterização bioquímica da fosforilação oxidativa e na análise genética do mtDNA, onde procura "erros" e "defeitos".

Neste momento, o LBG possui "um sistema único no país que permite o estudo da CRM em tecidos como o fígado e o coração". Órgãos que, por precisarem de muita energia para funcionar, são dos mais afectados pelas citopatias mitocondriais. Por outro lado, os estudos genéticos que se faziam em Portugal, até há pouco, só analisavam "pequenas regiões" do mtDNA. "Desde há alguns meses, iniciámos a implementação da análise do mtDNA completo, para que qualquer possível erro possa ser encontrado", nota Manuela Grazina, aludindo a análises que demoram cerca de um mês e passam a pente fino toda a sequência genética do mtDNA, composta por 16568 letras.

Erros minúsculos no mtDNA fazem grandes estragos. As cardiomiopatias, fatais para o coração, ou as encefalopatias, que degradam o cérebro, são duros exemplos. Mas também há citopatias mitocondriais especialmente perigosas para a visão. Pela atrofia do nervo óptico, que leva à cegueira, ou pela deterioração de músculos que têm a simples mas importante função de levantar as pálpebras.

Estas doenças não afectam muita gente, não têm cura à vista, nem propiciam a publicação de muitos artigos científicos. Mas nem por isso são desconsideradas por cientistas como Manuela Grazina. "Temos que ter pensamento abrangente e responsabilidade social", justifica-se.

Aos financiadores do LBG, destacará efeitos dramáticos das citopatias mitocondriais e notará que "só se podem desenvolver novas terapêuticas, quando forem conhecidos os mecanismos subjacentes à fisiopatologia das doenças". Já aos doentes, não precisará de se justificar. Para eles, o trabalho do LBG é certamente o mais importante do mundo. Como nota Manuela Grazina, "ajudar os doentes a identificar a sua doença é ajudá-los a lidar com ela. Lidar com o desconhecido é muito complicado".