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Alterações climáticas vão gerar crise pior do que a da pandemia

Alterações climáticas vão gerar crise pior do que a da pandemia

Seis ministros e dezenas de especialistas debatem, esta segunda-feira, na Alfândega do Porto, os desafios estratégicos da Ação Climática.

Ignorar o apelo urgente à ação climática conduzirá a um "caos pior do que a recessão causada pela pandemia" de covid-19. O alerta deixado por António Costa e Silva, consultor do governo e autor do plano de recuperação para Portugal para a próxima década, foi reforçado pelos intervenientes nas diversas apresentações e painéis da conferência "Ação Climática - Desafios Estratégicos", a decorrer na Alfândega do Porto.

Essa ação climática, quando os países procuram recuperar da recessão da covid-19, é na verdade uma "oportunidade para criar emprego qualificado, bem-estar e riqueza", como explicou o ministro do Ambiente.

Felizmente, sublinhou Matos Fernandes, "na Europa não há problemas de dinheiro [para desenvolver a ação climática], mas falta compromisso político".

Durante a presidência da União Europeia, a partir de janeiro do próximo ano, Portugal vai liderar e mediar encontros importantes relacionados com a ação climática e, explicou o ministro dos Negócios Estrangeiros, "a prioridade será a recuperação económica, a transição digital e ecológica da economia".

"Está em discussão a primeira lei europeia do clima que, se não for aprovada durante a presidência alemã, teremos de fazer aprovar, ou implementar se entretanto for aprovada. Caberá à presidência portuguesa o desenvolvimento de instrumentos políticos e financeiros para a implementação da nova lei", acrescentou Augusto Santos Silva.

Matos Fernandes considerou que Portugal já fez um "caminho notável" no que toca a energias renováveis e descarbonização, mas ainda é preciso mudar a mentalidade de base que leva "engenheiros a recomendar materiais mais leves ou mais resistentes ou mais baratos sem considerar qual será o seu fim de vida" ou "as faculdades de Direito a ensinar que os crimes contra o Ambiente só levam coimas leves".

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A agenda climática tem de estar nas próprias empresas, recomendou António Costa e Silva, o autor do programa de recuperação da economia portuguesa encomendado pelo governo. "O hidrogénio não é um delírio tecnológico", avisou, respondendo às polémicas em torno da utilização do "gás mais abundante do universo". O consultor explicou como as empresas já estão a analisar as oportunidades deste combustível e "sabem que, se não tiverem uma agenda climática, as suas cotações vão ser profundamente afetadas, os seus consumidores, os seus clientes, a sociedade em geral vai exigir standards em termos climáticos".

O aumento das temperaturas e a escassez de água são os maiores desafios para a agricultura e até produtos portugueses de elevado valor, como o vinho do Porto, se ressentem e tentam ultrapassar desafios. "Os fenómenos extremos de chuva têm impacto nos socalcos", revelou António Filipe, COO (Chief Operating Officer) da Symington Family Estates. "A maior parte das vinhas do Douro terão de ser regadas, ou seja, 43 mil hectares, o que representa uma necessidade de 100 milhões de hectolitros de água para rega", acrescentou, recordando ainda as dificuldades geradas pela "erosão demográfica" que faz faltar mão-de-obra nas vindimas.

A ministra da Agricultura concordou que "precisamos de produzir mais, com menos água", a par da preservação dos solos e da biodiversidade. Maria do Céu Antunes apontou como meta do setor "aumentar 60% o investimento em I&D" para que o país consiga digitalizar também a agricultura, o que deverá "melhorar a eficácia e rendimento dos produtores".

O ministro da Economia acrescentou que o desafio é "construir em cima do que já está feito, acrescentar valor ao que já fazemos, reduzindo os gases com efeito de estufa". O "investimento na qualificação, em inovação e em tecnologias digitais" é a receita de Pedro Siza Vieira para a recuperação económica em sintonia com a ação climática.

"[A ação climática] gera oportunidades novas em serviços e equipamentos, redes inteligentes para gerir energia, processos e equipamentos industriais de automação, que criam emprego qualificado e subida na cadeia de valor", sintetizou Siza Vieira.

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