Livro

O SMS para Sócrates que caiu em saco roto

Pedro Araújo

José Sócrates e Fernando Teixeira dos Santos em 2010

Foto Leonardo Negr‹o / Global Imagens

Teixeira dos Santos, ex-ministro das Finanças, ficou na História por ter precipitado o pedido de ajuda externa em 2011 ao relatar publicamente a verdadeira situação financeira do país. Num livro que será lançado este mês, conta que o primeiro-ministro cortou relações com ele, mas viu-se obrigado a reconhecer que Portugal já não tinha condições para resolver por si só a ameaça de bancarrota. A vinda da troika foi inevitável.

No dia 11 de novembro de 2010, o corrupio dentro da máquina do Governo era enorme. Fernando Teixeira dos Santos, então ministro das Finanças, estava preocupado desde há pelo menos meio ano com a situação financeira do país. Era um dia de Conselho de Ministros e, ainda assim, Teixeira dos Santos não conseguiu falar com José Sócrates logo após a reunião para lhe explicar que o pedido de ajuda externa era inevitável. Mandou um SMS a explicar que a Irlanda já o fizera. "Nós vamos a seguir, fatal como o destino". Em público, ambos afastavam por completo esse cenário.

As conversas e diligências, que recuam ao período da troika, encontram-se descritas com algum pormenor no livro "Mudam-se os tempos, mantêm-se os desafios", da autoria de Fernando Teixeira dos Santos, cuja apresentação pública ocorrerá nos dias 19, em Lisboa, e 20, de janeiro, no Porto.

A obra de Teixeira dos Santos vai muito para além das conversas com o primeiro-ministro, analisando a economia portuguesa ao longo de várias décadas. "Com o virar do século, a taxa de crescimento médio anual diminui de forma muito significativa, passando a situar-se abaixo da média dos países da Zona Euro, e também mais baixa do que no passado", lê-se a dada altura. Curiosamente, foi este tipo de argumento que Rui Rio usou contra António Costa no debate televisivo da última quinta-feira. Costa classificou o argumento de "malandrice".

Sócrates nunca desarmou perante as crescentes dificuldades de obter financiamento nos mercados da dívida pública. Na realidade, Teixeira dos Santos manteve a mesma posição pública de desdramatização, eventualmente por fidelidade ao primeiro-ministro. A título de exemplo, no dia 11 de janeiro de 2011, em declarações à TSF, Teixeira dos Santos não antevia "de forma alguma" o recurso a ajuda externa, assegurando que o país está a "fazer o seu trabalho", ao contrário da União Europeia. Como revela no livro, as suas preocupações datavam pelo menos desde inícios de 2010, tendo tentado chamar Sócrates à realidade a partir de novembro desse ano.

Chumbo do PEC IV, em março de 2011, foi um rude golpe para o Governo de Sócrates e Teixeira dos Santos

Foto: Paulo Spranger/Global Imagens

A situação financeira do país tinha-se agravado quando o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC IV) foi chumbado na Assembleia da República no dia 23 de março de 2011. "Nos dias e semanas seguintes, sucederam-se fortes revisões em baixa do rating da República, dos bancos e de várias grandes empresas portuguesas, dificultando, sobremaneira, o financiamento da nossa economia", recorda o autor.

As diligências do ministro foram-se revelando infrutíferas, até que chega o dia 6 de abril de 2011. "Argumentei que não avançar com o pedido seria uma enorme irresponsabilidade do Governo. Manteve-se irredutível e acabámos por nos desentender". Ao fim da tarde, Teixeira dos Santos manifestou publicamente a sua opinião, numa entrevista publicada online. "Logo que as minhas declarações vieram a público, telefonou-me claramente irritado e cortou relações comigo", conta o autor do livro. À noite, Sócrates comunicaria ao país a decisão de pedir ajuda externa, algo que sempre negara até então. Publicamente, Teixeira dos Santos também nunca admitira esse cenário.