Portugal Mobi Summit

Uma fábrica do exército que é agora um laboratório vivo

JN

Foto Global Imagens

Preservar a memória do passado, reabilitar uma zona esquecida da cidade, e antecipar o futuro através da inovação é a missão do Hub Criativo do Beato que vai receber as primeiras empresas durante as próximas semanas.

Depois de décadas de esquecimento e de deterioração, o Beato está, desde há alguns anos, a ganhar uma nova vida. A aposta da Câmara Municipal de Lisboa (CML) na criação e no desenvolvimento do projeto Hub Criativo do Beato, materializado pela Startup Lisboa, abriu as portas à criação de um ecossistema de inovação que visa preservar as memórias do passado e criar um futuro mais sustentável e promissor para as empresas e a comunidade local. "Estamos a criar um espaço de inovação aberta, em que o trabalho, o lazer e a vertente cultural possam cruzar-se e interagir", explica José Mota Leal. O project manager do Hub Criativo do Beato na Startup Lisboa marcou presença num dos painéis de debate da Feira da Mobilidade, evento que complementa a cimeira Portugal Mobi Summit 2022, que decorreu quarta e quinta-feira nas instalações da Nova SBE, em Carcavelos, onde destacou, como fator diferenciador deste projeto, a sua vertente "Living Lab". Ou seja, nas palavras do orador, "um laboratório vivo em que a inovação está sempre a acontecer".

Durante a sua intervenção, José Mota Leal elencou algumas das iniciativas previstas para o Hub que, quando finalizado, ocupará cerca de 50 mil metros quadrados de área, e que incluirá a reabilitação de 18 edifícios, num investimento na ordem dos 55 milhões de euros por parte do município. Quando estiver a funcionar em velocidade cruzeiro, o espaço poderá albergar três mil pessoas, em regime permanente. "Já estamos a funcionar com eventos e iniciativas diversas, e as primeiras empresas vão instalar-se ainda durante o mês de outubro", revelou. No entanto, o responsável admite não poder adiantar uma data para o funcionamento pleno do espaço.

Com a inovação a fervilhar no coração do Beato, além das empresas que ali se instalarão, haverá muito mais a acontecer. José Mota Leal destaca a horta urbana, com 2000 metros quadrados de área, localizada no terraço de um dos edifícios. O objetivo é que seja um espaço aberto, quer às empresas residentes, quer à comunidade, que ali poderá ter o seu espaço hortícola. Um dos exemplos que o responsável anunciou será uma área de cultivo de lúpulo, um ingrediente que será depois usado no fabrico da cerveja artesanal da Super Bock, que ali terá uma pequena fábrica.

No mesmo painel, marcaram ainda presença João Vieira, diretor de inovação e estratégia da Carris, e Filipe Caroço, diretor-geral da Shréder Portugal, ambos parceiros do Hub Criativo do Beato Living Lab, para os projetos Beato Bio Bus e Excedra. O primeiro é um autocarro movido a biocombustível que será produzido a partir de óleos usados a recolher pela comunidade local. "É um projeto de verdadeira economia circular", explica João Vieira que acrescenta que, além de promover a reciclagem de resíduos, permite reduzir as emissões de CO2, e envolve toda a comunidade. Nas escolas, exemplifica, o projeto será partilhado com os cerca de 3000 alunos que frequentam os estabelecimentos de ensino da zona.

Mais virado para a sustentabilidade energética, o sistema Excedra, desenvolvido pela Shréder, terá a missão de gerir o desempenho da iluminação de todo o espaço. Filipe Caroço destaca os atuais 84 pontos de luz com controladores que permitem saber, em tempo real, qual o gasto de cada luminária, programá-las e incorporar sensores de movimento que possibilitam, por exemplo, a contagem de pessoas. "Neste momento são 30 sensores, mas serão instalados muitos mais", diz o responsável. O sistema, desenvolvido em tecnologia aberta, permite ainda detetar qualquer problema com a instalação elétrico, e corrigi-lo com rapidez. "É interoperável, customizável, e faz a medição e partilha de dados", reforça, destacando a capacidade do sistema em gerar poupanças energéticas na ordem dos 70-80%.

Neste Living Lab fervilha a inovação que será também alimentada pela academia, numa parceria que já está a ser estabelecida e que prevê, por exemplo, o recurso a dados que serão recolhidos no Hub e que poderão servir de base a novos projetos.