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Carlos Costa compara venda do Novo Banco à de um cabaz de fruta "parcialmente apodrecida"

Carlos Costa compara venda do Novo Banco à de um cabaz de fruta "parcialmente apodrecida"

O ex-governador do Banco de Portugal (BdP), Carlos Costa, considerou que o processo de venda do Novo Banco, em 2017, foi como alienar "um cabaz de fruta que está parcialmente apodrecida".

"A questão é sempre a mesma: eu vou vender um capaz de fruta que parcialmente está apodrecida. Eu não posso contar com a benevolência ou generosidade do comprador para que ele me pague toda a fruta como sendo de qualidade", disse Carlos Costa esta segunda-feira no parlamento.

Respondendo à deputada Cecília Meireles (CDS-PP) na Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução, o antigo governador do banco central considerou necessário "ter em consideração o custo de não vender, que era apodrecer a fruta toda", ou seja, a liquidação do banco.

"Se se fez aquilo que se devia fazer, que é constituir um processo de venda aberto, transparente e competitivo, ninguém pode dizer que não se fez aquilo que era preciso fazer para valorizar", defendeu o antigo responsável.

Carlos Costa lembrou que havia um "tempo limite de venda com uma espada de Dâmocles em cima da cabeça, que era a liquidação, e pelas contas do Banco de Portugal implicaria 20 a 25 mil milhões" de euros.

"Implicaria um custo sempre superior à custo da ação. Quando estou numa situação destas, entre agir e não agir, o que vale é agir. Não se trata senão de recuperar o máximo que podemos", advogou.

Carlos Costa considerou que "o custo de agir foi incomparavelmente inferior ao custo de não agir", mesmo não considerando "os riscos sistémicos".

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"Isto teria consequências sobre o funcionamento da economia, sobre a confiança dos depositantes e sobre a mobilidade de capitais, como outros países verificaram", disse o antigo responsável.

"Nós não estamos à procura do melhor, nós estamos à procura do menos mau em termos de solução. E o menos mau consiste em fazer melhor a operação de venda, tendo em conta que nos caiu nas mãos um banco que entrou em insolvência", recordou o antigo governador do supervisor bancário.

O antigo responsável do BdP disse ainda que "havia uma grande desconfiança, quer da parte das autoridades bancárias europeias, quer da parte da Comissão Europeia, da possibilidade de vender" o banco.

"A questão é: o que é que aconteceria se a venda não tivesse tido lugar?", perguntou.

O Novo Banco foi criado em agosto de 2014 na resolução do Banco Espírito Santo (BES). Em 2017, aquando da venda de 75% do banco à Lone Star, foi criado um mecanismo de capitalização contingente, pelo qual o Fundo de Resolução se comprometeu a, até 2026, cobrir perdas com ativos "tóxicos" com que o Novo Banco ficou do BES até 3890 milhões de euros.

O Novo Banco já consumiu 2976 milhões de euros de dinheiro público e, pelo contrato, pode ir buscar mais 914 milhões de euros.

A instituição teve prejuízos de 1329,3 milhões de euros em 2020, um agravamento face aos 1058,8 milhões registados em 2019. Já quanto ao valor a pedir ao Fundo de Resolução, o Novo Banco indicou que serão 598,3 milhões de euros.

"Não houve nenhuma complacência" com a família Espírito Santo

Carlos Costa disse ainda que "não houve nenhuma complacência" no afastamento da família Espírito Santo do BES, justificando a decisão de não o ter feito imediatamente.

"Não houve nenhuma complacência nessa matéria. Mas houve um grande rigor do ponto de vista da constituição de provas, porque não basta ter sentimentos, não basta ter indícios", disse, respondendo a João Paulo Correia (PS) sobre o adiamento da família Espírito Santo do banco.

"O afastamento da família Espírito Santo do BES foi anunciado no final do primeiro trimestre [de 2014], pedindo um plano de sucessão e de saída", referiu, admitindo que o Banco de Portugal estava "a fazer uma operação puxando ao limite o enquadramento legal existente" para o fazer.

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