Economia

Catroga responsabiliza-nos a todos pela crise

Catroga responsabiliza-nos a todos pela crise

Eduardo Catroga diz estar em "sabática de Governo", mas acompanha a evolução da crise passo a passo. Por entre as críticas às agências de "rating" e ao comportamento do Banco Central Europeu, da Comissão Europeia e da Alemanha, diz que nada disto estaria a acontecer se Portugal estivesse são, antes da crise. "Só temos que nos queixar de nós próprios", diz.

A Moody's acabou de reduzir a dívida portuguesa a lixo. Há alguma coisa que o país possa fazer para sair da crise que ainda não esteja a fazer?

"Trabalho trabalho trabalho" como dizia o saudoso Hernâni Lopes. Deixamos o país adormecer durante os últimos dez anos, sobretudo os últimos seis, sofremos uma anestesia. O país acordou tarde e a más horas para as medidas que era necessário tomar, quando as condições de financiamento da economia se alteraram radicalmente em 2008. A maioria das pessoas continuou anestesiada e as que acordaram não foram ouvidas. Ficamos à beira do precipício. A necessidade de cumprir o programa, o do Governo articulado com o da "troika", é um dado adquirido. E temos de ter um bocado de sorte e bons ventos vindos da Europa. Precisamos de metade de trabalho e a outra metade de sorte e bons ventos europeus. Não há milagres no curto prazo, mas só há milagres se trabalharmos.

O novo Governo tem trabalhado, mas ainda assim a Moddy's não se convenceu?

As agências de "rating" têm que ser postas na ordem. A Europa e a senhora Angela Merkel parecem estar a começar a acordar. E os bancos têm que dar menos importância às agências de "rating" e passar a ter a sua própria análise de risco. A China já criou uma agência de "rating" própria. Também o Banco Central Europeu tem capacidades para decidir as suas próprias metodologias de análise de risco. Mas não é substituir um professor por outro, o aluno também tem que trabalhar mais.

A descida da nota à dívida poderá significar que as pessoas perderão o resto do subsídio de Natal?

Isso é pura especulação, não há nenhuma relação de causa-efeito. Temos é que cumprir o programa do Governo e de reduzir as necessidades de financiamento do sector público.

Há dois anos, as pessoas eram aconselhadas a consumir mais, para ajudar a economia. Agora são aconselhadas a poupar. O que devem fazer?

Esse foi um erro grave. Antes da crise, já estávamos com um cancro. Aumentar a hemorragia quando já não estávamos saudáveis foi uma política errada do anterior Governo, que só acordou em Março de 2010.

Concorda que o que está a suceder se deve à fragilidade das contas portuguesas mas é também um ataque à moeda única?

O ataque ao euro é uma mistificação. Há inimigos do euro, não podemos ser ingénuos a pensar que não, mas se não estivessemos vulneráveis... só temos que nos queixar de nós próprios. Se tivéssemos a economia a crescer, uma dívida menor, se não tivéssemos cometidos erros na qualidade do investimento feito... Há um problema no euro e a nível europeu, mas não podemos dizer que a culpa é dos outros. Para sair daqui, já parámos com a loucura da política do anterior Governo. Agora é dar tempo ao tempo.

As pessoas estão conscientes das dificuldades que aí vêm?

Vamos ter dois anos muito difíceis, mas o cidadão comum foi anestesiado e muitos continuam a estar. 28% dos eleitores votaram no Governo anterior, há um segmento da população que não percebeu o que aconteceu. O resto está receoso, na expectativa, mas noto também alguma esperança. O país já passou tempos difíceis no passado e conseguiu ultrapassá-los. E este também o vai ultrapassar.