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Compra diária de bitcoins iguala ações da Apple

Compra diária de bitcoins iguala ações da Apple

"A bitcoin transaciona em média perto de cinco mil milhões de dólares por dia, ligeiramente abaixo do volume das ações da Apple, que é de entre 5.5 e 6 mil milhões", afirma Filipe Garcia, CEO da consultora IMF. Saiba quais são as origens do fenómeno e como comprar e vender criptomoedas.

"Hoje (12 de abril de 2018), apenas numa hora, foram transacionadas 1.2 mil milhões de dólares em bitcoins. Nas últimas 24 horas, foram transacionados 8,5 mil milhões de dólares, num total de 24 mil milhões de dólares referentes às principais criptomoedas", refere ainda Filipe Garcia, da Informação de Mercados Financeiros (IMF). Mas quando e por que motivo surgiu este fenómeno? E como comprar e vender para não ficar fora deste mercado que comporta alguns riscos? Todas as criptomoedas juntas valem mais do que o Produto Interno Bruto português. E a capitalização de mercado só da bitcoin supera a fortuna de Bill Gates, dono da Microsoft.

As origens

No ano da grande crise financeira (2008) e num contexto de desconfiança generalizada relativamente ao sistema financeiro tradicional, um senhor chamado Satoshi Nakamoto, cuja verdadeira identidade nunca foi assumida, concebeu um sistema de dinheiro eletrónico de ponto a ponto ("peer to peer") que tornava viável uma moeda 100% descentralizada e totalmente independente de qualquer poder centralizado. Nascia a bitcoin, assente na tecnologia que dá pelo nome de "blockchain" (cadeia de blocos). A blockchain permite o funcionamento e segurança de transações relacionadas com as criptomoedas, mas a sua utilidade vai muito para além desse mercado cambial. Ou seja, as moedas digitais precisam da blockchain, mas o inverso não é verdade, a não ser no sentido em que a emissão de criptomoedas visa financiar projetos tecnológicos específicos assentes na cadeia de blocos.

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E o que é a cadeia de blocos? "A blockchain é uma plataforma de digitalização e descentralização da confiança. Em vez de confiar num Estado ou num banco central, que podem ser fortes ou fracos, criou-se um sistema em que os participantes numa determinada rede confiam uns nos outros. Não por razões morais, mas sim devido ao próprio sistema assente na confiança. Mas não acredito que as criptomoedas venham a substituir, com força legal, as moedas fiduciárias. A discussão está inquinada pelas comparações entre as 'cripto' e as moedas tradicionais. Elas podem coexistir", afirma Filipe Garcia.

O que é afinal uma moeda?

"A maior parte das pessoas não pensa bem nisto, caso contrário não teriam seguramente dinheiro nos bancos. Porquê? A moeda é a coisa mais etérea que pode existir. A quantidade de moeda física que existe na Zona Euro representa menos de 10% do dinheiro em circulação. O que é então a nossa moeda? São cartões de crédito, de débito, transferências bancárias. As pessoas acreditam, simplesmente, num papel que os bancos lhe enviam a dizer que existe aquele depósito", explicou João Loureiro, professor da Faculdade de Economia do Porto (FEP), num workshop recentemente organizado pela Associação de Antigos Alunos da FEP.

A voz do regulador também se fez ouvir para sublinhar as diferenças. "A bitcoin (a cripto mais popular) não é um euro digital. Tem existência apenas imaterial, na Internet. O euro tem curso legal e uma entidade fiscalizadora e reguladora, tendo o banco central como garante final. As pessoas usam a moeda escritural, que é no fundo o euro desmaterializado, mas o Banco Central Europeu (BCE) garante que pode haver materialização dessa moeda escritural", sublinhou Rita Bairros, coordenadora jurídica no Banco de Portugal.

Os escândalos assustam os investidores

Os escândalos assustam os potenciais investidores ou aforradores, embora isso seja também verdade quando se trata de bancos tradicionais. BPN, BPP, BES e Banif são exemplos ainda bem vivos na memória dos portugueses. "Não podemos confundir casos de polícia com sistemas de pagamentos que funcionam de forma regular e em que o banco central tem a função de último garante", contrapõe Rita Bairros, do Banco de Portugal.

Em janeiro de 2018, a corretora japonesa Coincheck, uma das maiores no país, foi vítima de um ataque de "hackers", que resultou na perda de 523 milhões de moedas NEM (XEM), que na altura do ataque estavam avaliadas em aproximadamente 530 milhões de dólares. Em 2014, um caso semelhante tinha ocorrido na plataforma MtGox e em 2016 voltou a suceder o mesmo com a Bitfinex.

Aqueles "brokers", que são plataformas de compra e venda e não carteiras, foram vítimas de roubos de piratas informáticos, fazendo com que os seus clientes perdessem as suas criptomoedas que tinham deixado online, isto é, no servidor da empresa. A tecnologia "blockchain" que valida todas as transações não é vulnerável porque depende de uma multidão de mineradores, isto é, de uma quantidade considerável de pessoas que têm supercomputadores a fazer milhões de cálculos matemáticos por segundo. Cada bloco equivale a 2000 transações e, uma vez formado, sobe à rede de mineradores para validação.

O sistema permite a segurança da compra e venda e os mineradores são recompensados com moeda virtual pelos seus gastos de energia e investimento no equipamento. No fundo, quem minera é um agente pago pelo sistema e, simultaneamente, regulador. Todos vigiam todos. Não foram as transações de criptomoedas com base na "blockchain" que foram pirateadas, mas sim o dinheiro deixado "à mão de semear" nas plataformas de compra e venda ou em carteiras virtuais com baixos padrões de segurança. Uma vez perdido, o dinheiro digital não é recuperável.

"Por que motivo surge uma tecnologia como a "blockchain" e as criptomoedas? À medida que as pessoas vão estando tendencialmente mais informadas, acreditam menos em governos, instituições e em pessoas isoladas. Há uma confiança crescente numa multidão de pessoas. É comparável ao Booking. Acreditamos mais nos cinco mil hóspedes que estiveram num hotel do que no próprio estabelecimento ou no Turismo dessa cidade. A "blockchain" assenta na crença de que é mais fácil confiar numa multidão de pessoas bem estimuladas", afirma Pedro Barbosa, minerador de ethereum, CEO da Play Growth e professor na Porto Business School.

Como comprar e vender?

Os sítios na Internet para comprar e vender criptomoedas são mais do que muitos. Os mais seguros exigem dados de identificação bem pormenorizados e estabelecem um protocolo de dupla verificação: password e comunicação de segunda chave para o telemóvel do utente, entre outros métodos que pretendem prevenir a fraude. A maior parte das moedas ou tokens só podem ser compradas com as criptomoedas mais fortes, caso da bitcoin, litecoin ou ethereum, entre outras.

A Coinbase, de origem norte-americana é, sem dúvida, dos maiores sítios na Internet usados para as criptomoedas. É uma plataforma onde é possível fazer transações apenas com bitcoin, bitcoin cash, ethereum e litecoin, após depósito das mesmas ou de moedas convencionais. Na Europa, cada transação tem uma taxa de 1,49%. As transferências bancárias são grátis, mas cobram 0,15 euros no levantamento de euros para uma conta bancária. A compra por cartão de crédito custa 3,99%.

Ter sede na Europa, mais concretamente no Luxemburgo, como é o caso da Bitstamp, poderá ser uma vantagem. Trata-se de um serviço muito semelhante à Coinbase, mas acrescenta a ripple (XRP) ao seu portefólio. Os depósitos são grátis e o levantamento do saldo fica apenas por 0,90 euros por operação. Há uma taxa de 5% sobre a compra de criptomoedas com cartão de crédito.

A Kraken tem sede nos EUA e transaciona quase 20 criptomoedas. Aceita moedas convencionais por transferência bancária e criptomoedas, mas não prevê cartão de crédito. O depósito de euros é grátis. O levantamento custa 0,09 euros por operação. A compra/venda tem taxas que variam de par para par de moedas (de 0 a 0,26%).

Bolsas

A Binance é um bom exemplo. Tem sede no Japão e é uma bolsa que não aceita moedas convencionais. Ou seja, é preciso comprar uma criptomoeda noutra plataforma, depositar ali e depois ir às compras/vendas. Para converter eventuais ganhos em euros/dólares, é preciso exportar para outras plataformas. O depósito é grátis, mas depois cada operação é taxada a 0,1%, havendo aqui a hipótese de desconto de 50% caso se utilize a BNB, a moeda própria da Binance. As taxas de retirada também existem, mas variam consoante o ativo. A Bittrex é norte-americana, mas em tudo semelhante. Todas as transações são taxadas a 0.25%. É o que se chama uma taxa única, que a pode tornar mais cara ou mais barata, consoante o caso, do que a Binance. Há ainda a norte-americana GDAX. É uma bolsa de criptomoedas, admitindo o depósito de euros ou dólares. É preciso ser cliente da Coinbase. Admite vários pares de moedas, mas a escolha é limitada a 12 opções. A taxa varia entre 0% e 0,3% por transação.

Carteiras

Colocar dinheiro em carteiras virtuais é aconselhável, sobretudo para as quantias que o investidor ou aforrador não pretende transacionar no curto prazo. Ou seja, deixar grandes somas de criptomoedas em plataformas que são só de compra e venda torna-se algo arriscado. Há vários tipos de "wallet" (carteira) para guardar o investimento. É consensual que as pens são o meio mais seguro para o fazer. São as chamadas "hardware wallets". Guardam-se lá as moedas virtuais, tira-se a pen do computador e não há meio de alguém lhes deitar a mão. O único problema? Custam algum dinheiro. A Ledger Nano S wallet é uma das mais populares. Admite cerca de 25 criptomoedas e custa 94,80 euros. Há ainda a Trezor, que, tal como as outras, funciona por USB. Tem uma escolha de criptomoedas mais limitada do que a Ledger e custa 89 euros. A KeepKey admite só seis criptomoedas. É fisicamente maior que as concorrentes e depende de software de terceiros. Custa 105 euros.

Há também as "desktop wallets". Basta instalar o programa no PC e armazenar as moedas. A Exodus, a Exodus Eden (admite mais moedas) e a Electrum são exemplos. Há ainda o modo online. Oferecem menor segurança mas têm a vantagem de serem acessíveis a partir de qualquer dispositivo com internet. A GreenAddress é um exemplo.

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