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"Cuidar melhor" quer levar cafés memória a todo o país

"Cuidar melhor" quer levar cafés memória a todo o país

As falhas de memória custam a aceitar aos próprios e aos familiares, que arranjam explicações diversas até acertarem no alvo: afinal, não se deve a uma mudança de estilo de vida, do trabalho sob pressão e ditadura de horários, aos dias calmos da reforma. A mãe esquece-se da chave no interior do carro e deixa as portas abertas por onde passa devido ao Alzheimer.

O projeto "Cuidar Melhor" nasceu para desdramatizar estes problemas de saúde e contribuir para a inclusão das pessoas que sofrem de demência ou Alzheimer. A sua atividade divide-se entre workshops para cuidadores, lições para aprender a lidar com alterações de comportamento ou perda de mobilidade; e apoio técnico, que inclui parte jurídica, em três gabinetes criados para esse efeito: Cascais, Oeiras e Sintra. Em simultâneo, dinamiza uma linha de apoio (963 519 966) e os "Cafés Memória", que este mês ganharam dois espaços, ambos em Lisboa.

"Estamos a desenvolver esforços para chegar a outras regiões do país, nomeadamente ao Porto, durante este ano", adianta Catarina Alvarez, coordenadora do "Cuidar Melhor" e do "Café Memória". Fala com desenvoltura do muito que há por fazer. "É um tema com muito estigma, pouco falado da sociedade portuguesa". Continua: "É preciso reduzir o isolamento e melhorar a qualidade de vida das pessoas".

Em Portugal, existem 153 mil pessoas com demência, das quais 90 mil padecem de Alzheimer.

Alberto e Tommaso Veronesi, 34 e 35 anos, filhos de uma mulher de 68 anos que padece de Alzheimer, frequentam os "Cafés Memória" desde o arranque, em abril passado. Falharam somente duas sessões. Ontem acompanharam mais uma vez a progenitora, que irradiava contentamento à saída da reunião, onde se juntaram doentes e cuidadores no restaurante Portugália, no Centro Comercial Colombo.

"Ela adora vir cá. Elogia a simpatia e o convívio", diz Tommaso. "É a única altura do mês de verdadeiro entretenimento para ela". A explicação é simples: "Quando começa a sentir-se observada, fica em stress e bloqueia. Aqui, vemo-la verdadeiramente descontraída".

Os filhos acreditam que o tipo de exercícios ali propostos ajudam a abrandar os efeitos da doença e estão empenhados em poderem proporcioná-los à mãe. O padrasto trata da gestão dos medicamentos diários, não esperam mais do que isso dele. Neste caso, a mãe sabe ao que vai, "tem perfeita noção disso e acredita que vai melhorar".

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"Perdi a vergonha"

Maria de Fátima Caetano, 64 anos, encontrou nos "Cafés Memória" a chave para lidar melhor com a mãe, 86 anos. "Antes de vir, achava que enlouquecia. Não compreendia a maioria das coisas que ela fazia. Estava em negação, como uma avestruz". A mãe ora tem um discurso coerente, ora revela uma imaginação prodigiosa, falando de acontecimentos dignos de uma fábula. Dizia-lhe que tinha telefonado, quando não o tinha feito. "Aprendi que não devo ter vergonha, que é uma doença como outra qualquer. O pior são alguns acessos e picos de violência". Diz que vai recorrer aos gabinetes técnicos dentro de pouco tempo.

Os "Cafés Memória" estrearam no Centro Colombo e Cascaishopping, por ser a Sonae Sierra o parceiro inicial da Associação Alzheimer Portugal. Os principais financiadores: Fundações Montepio e Gulbenkian e o Instituto de Ciências da Saúde, da Universidade Católica.

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