Economia

13 mil camiões por semana levam calçado e têxtil para a Europa

13 mil camiões por semana levam calçado e têxtil para a Europa

Por terra, mar ou ar, as exportações portuguesas são a maior frente de combate à grave recessão da economia portuguesa. Quem o testemunha são as empresas de logística, obrigadas a adaptarem-se às novas circunstâncias: levam mercadorias, à razão de 12 a 13 mil camiões por semana, para o centro da Europa e depois têm motoristas dias a fio à espera de encomendas, nos arredores de Londres, Frankfurt ou Paris para não regressarem com os camiões vazios.

Também os barcos viajam com pouca carga quando voltam a Portugal. "Não me lembro de um quadrimestre com este crescimento das exportações. Já vimos 3%, às vezes 5%, mas 13,3% não é normal. É a primeira vez", diz Eduardo Rangel, líder da segunda maior empresa do sector logístico em Portugal (logo atrás da líder, a alemã DHL).

Numa empresa que toca em todas as vias de exportação ao mesmo tempo há informações concretas sobre o "para onde" em tempo real. E os dados correspondem ao que se imaginava: na Europa, a Espanha quebrou mas as coisas estão a aguentar-se em direção ao centro da Europa, principalmente à Alemanha. "O Norte está a reviver um 'boom' de exportação. O calçado, o têxtil-lar e o têxtil mais clássico (de fatos de homem e roupa de senhora) estão fortes", diz o empresário..

Fora da Europa, Angola é o país mais importante e tem sido o 4º classificado no destino das exportações. "E o Brasil e a China começam a comprar em Portugal, embora para o potencial que têm, não compram ainda nada de significativo. Mas é um sinal. Moçambique também começa a aparecer", diz o empresário.

"Nos últimos três anos as empresas têm feito um grande esforço para procurar o mercado externo". A estabilização do euro face ao dólar (a subida galopante da moeda europeia parou) está a dar um pequeno contributo para os mercados mais distantes, mas há, igualmente, uma melhor gestão dos recursos humanos e a estabilização dos custos de trabalho. "As empresas têm conseguido manter os preços porque não têm tido a obrigação de subir os custos salariais, o que só é possível com o sacrifício e colaboração dos trabalhadores. Mas está a resultar". A prejudicar este equilíbrio há os elevados custos com a eletricidade e sobretudo o aumento do preços dos combustíveis, fator crítico para um país que não está no centro da Europa.

FedEx, logística da HP, RAR e Sonae

A Rangel foi ganhando dimensão em todas as plataformas e é hoje o segundo maior operador do mercado português, logo atrás da multinacional alemã DHL. Eduardo Rangel começou a carreira como ajudante de despachante até que em 1980, com 27 anos, criou a sua empresa. Primeiro nas funções de despachante e depois foi alargando o âmbito da empresa. Aproximava-se 1992 e o fim das fronteiras na União Europeia. Grande parte dos despachantes tinha o destino traçado. Passados estes anos anos tem um grupo vertical na logística: camiões próprios (embora subcontrate a maior parte do transporte terrestre); atua no transporte marítimo junto dos grandes operadores, assim como no negócio aéreo; conseguiu tornar-se no representante em Portugal da norte-americana FedEx; e está em força no transporte urgente, um serviço com níveis de crescimento elevados e onde a margem é mais significativa.

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Talvez o maior clic da empresa seja, no entanto, um outro: ter criado instalações logísticas inteligentes que permitem a diversas multinacionais a subcontratação do armazenamento e entrega sem terem a necessidade comprarem instalações próprias em Portugal. Empresas de material informático e electrónico como a HP, por exemplo, têm informação em tempo real sobre que produtos saíram e que estão em stock. São os armazéns inteligentes da Rangel. Aquilo a que se chama "track and tracing". "Tenho 26 pessoas na empresa a trabalhar em software próprio e investigação. Sempre foi um dos meus trunfos. Todos os anos dois por cento do nosso volume de negócios é para tecnologias de informação.

Na carteira do grupo estão muitos dos grandes nomes do grande consumo nacional, incluindo o líder da distribuição, a Sonae, ou a RAR. Outra curiosidade é o facto de a Rangel ter nascido a Norte e ter hoje a maior quota de mercado a Sul. O grande salto deu-se com a conquista do título de transportador oficial da Expo 98, em Lisboa, num tempo em que o Norte exportador quebrou. "Deixou-se ir abaixo. As empresas não evoluíram em inovação e produtividade suficientes suficientemente" na década de 90, diz Eduardo Rangel. "Ao contrário, na capital, havia mais consumo. Foram capazes de atrair as grandes multinacionais e crescerem nas áreas tecnológicas. E ainda tiveram a AutoEuropa". Hoje a Rangel tem 160 mil metros quadrados, metade dos quais na área logística do Montijo enquanto a área da Maia representa 15 mil m2. A estes pontos juntam-se mais sete bases logísticas (de Vila Real a Évora).

Mas o grande salto de Portugal neste setor está ainda por dar. Apesar da enorme melhoria do funcionamento dos portos, Eduardo Rangel considera que falta fazer a plataforma logística do Poceirão (próximo a Setúbal), por exemplo, bem como a linha ferroviária de Sines em bitola europeia até Espanha (e depois a França). Com o alargamento do Canal do Panamá, os mega-navios carregados com mercadorias do Oriente passarão a cruzar o Atlântico e terão em Sines o primeiro porto europeu. "Algeciras tem 2,5 milhões de contentores por ano e Sines apenas 100 mil. É o nosso único porto de águas profundas e teríamos capacidade de fazer dois a três comboios diariamente rumo à Europa". O custo da obra tem valor acrescentado suficiente para o justificar? Rangel acha que sim, e alerta também para a questão dos 12 a 13 mil camiões que semanalmente saem de Portugal em direção à Europa. A bitola europeia (no Eixo Galiza-Porto-Aveiro-Salamanca-Irun) tenderia também a ajudar a diminuir o custo das exportações a Norte - qualquer dia bloqueadas pelo aumento de preço das estradas por toda a Europa e pelas novas taxas de CO2. Ainda por cima, a União Europeia tem prometido pagar 85% da obra. Falta saber se temos 15% da parte nacional.

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