Economia

"Chegou a hora de voltar à indústria"

"Chegou a hora de voltar à indústria"

Chegou a hora de voltar à indústria". Mira Amaral, antigo ministro da Indústria e atual presidente do BIC, defendeu fortemente o caminho para a revitalização da economia portuguesa e o plano de reindustrialização defendido pelo ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira.

O presidente da Comissão Executiva do BIC, orador principal na conferência "O Norte Faz Bem" realizada na última semana na Universidade Portucalense, explicou que "os setores agrícola, agroindustrial e industrial terão de ser responsáveis pelos bens transacionáveis que fazem falta a Portugal para exportar". Segundo o antigo ministro, o peso das exportações face ao Produto Interno Bruto (PIB) tem de ser superior a 60% (contra os atuais 30%).

Entre os setores prioritários encontram-se os tradicionais como a cortiça, a cerâmica ou o turismo, mas também os emergentes, como a gestão de redes de energia, a saúde e a educação. "A nossa competência científica é transacionável", declarou Mira Amaral. Acrescentou ainda que a Europa tem mais condições de retomar a industrialização do que os Estados Unidos, "onde a deslocalização para a China foi longe de mais" e a globalização arrasou as instalações industriais, ao contrário de Portugal, e em especial do Norte do país, que manteve as suas estruturas produtivas em muitos setores.

A flexibilidade e "o desenrascanço" que os alemães não têm" são mais-valias do tecido empresarial português que devem ser melhor aproveitadas. E, para Mira Amaral, as indústrias do calçado e vestuário nortenhas são um exemplo da estratégia industrial a seguir. A fórmula é clara: "Pequenas empresas com pequenas séries", capazes de se adaptar rapidamente a novos pedidos e de apresentar produtos originais, com um design diferenciador.

O presidente do BIC relembrou que existe uma forte ligação entre industrialização e inovação, e que quando a produção é deslocalizada há uma "perda de capacidade para a conceção de novos produtos" e para a investigação e desenvolvimento.

As indústrias exportadoras, muitas delas localizadas no Norte, contribuíram também para salvar o ajuste do défice externo, porque tiveram a capacidade de vender "mesmo para mercados que estão em dificuldade". Mas este ajustamento não é sustentável, porque não há emprego. "Não subscrevo o meu amigo António Borges, que diz que o ajustamento externo está magnífico", acrescentou.

Exportar para onde, se a crise é global? O presidente da Comissão Executiva do BIC aponta quatro mercados emergentes: China, Índia, Rússia e Brasil. Mas alerta para a importância de se explorar grandes mercados como os Estados Unidos, que, considera, são um falhanço do marketing português. "Como é que é possível exportarmos menos para os Estados Unidos, que têm muito mais pessoas, do que para Angola?".

"Temos um ajustamento de má qualidade"

É preciso "cortes mais ousados na despesa pública do que aumento de impostos". Mira Amaral criticou fortemente a atuação do atual Governo em matéria de cortes orçamentais. "Não consigo perceber como é que são os pensionistas os primeiros a ser cortados, antes de cortar noutras coisas", apontou. O engenheiro e economista é perentório: "Temos um ajustamento de má qualidade". O país continua à espera de cortes na máquina do Estado, como foi anunciado em setembro de 2011 por Vítor Gaspar, sublinhou.

"O Governo foi fazendo ajustamentos através do aumento de impostos e de cortes nos salários dos funcionários e dos pensionistas. É um ajustamento que incide 80% na receita e 20% nas despesas, ao contrário do que estava anunciado, de que seriam 2/3 na despesa e só 1/3 na receita". Em 1992, a despesa pública corrente primária era 28% do PIB. Vinte anos depois, esse valor quase duplicou, chegando aos 41% do Produto Interno Bruto.

Mira Amaral defende que a despesa tem que chegar aos 30% em oito anos. "Andam todos a querer que se baixem os juros do empréstimo da troika, mas esse não é o problema", defendeu. "Isso são 4,3% do PIB. É apenas uma parcela". Por isso, Mira Amaral considera que não podemos querer condições idênticas à Grécia, "depois de termos andado a dizer que não somos a Grécia". E pediu aos partidos e aos parceiros sociais para terem "juízo", porque "aquilo que os une é mais do que aquilo que os divide".

Encurralados numa política de poupança forçada e de descapitalização, os portugueses deveriam preferir pagar mais pela educação e pela saúde do que pagar tantos impostos, "em nome da boa alocação de recursos" e ao abrigo do princípio do "utilizador-pagador".

Mira Amaral defendeu ainda que a crise portuguesa era inevitável, devido às facilidades de crédito e endividamento depois da adesão à moeda única. "Havia de haver um dia em que a gente batia com a cabeça no teto. A sorte que tivemos foi estar na União Europeia e ter uma troika para nos vir ajudar". Para o economista, quem critica a intervenção da troika em Portugal "está a ver o filme ao contrário".