Economia

O engenheiro que não ligou aos gurus de Lisboa

O engenheiro que não ligou aos gurus de Lisboa

Ter ficado órfão de pai (morreu num acidente de automóvel) aos sete anos, ajudou a fortalecer o caráter de João, que herdou o nome e apelido do tio-avô que foi o primeiro presidente da Câmara de Barcelos após a implantação da República.

"Era diferente da generalidade dos meus colegas. Mais sério, maçudo e chato. Menos dado à brincadeira e à farra. Desde pequeno que me habituei a ter objetivos e a pôr paixão em tudo que fazia", explica João Albuquerque, 47 anos, que, como foi criado pela mãe, uma espanhola de Vigo, cresceu bilingue e repartindo o tempo entre as duas margens do rio Minho.

Ser engenheiro foi um sonho que alimentou desde miúdo e o acompanhou ao longo da adolescência, que atravessou devorando livros de Philip H. Dick, HG Wells e Isaac Asimov, que o deixaram com a cabeça aberta à inovação e um grande fã da Física Quântica.

A única coisa que ia variando era a engenharia em que queria especializar-se. Primeiro, o seu coração balançava entre a Mecânica e a Eletrotecnia. Mais tarde, aos 18 anos, chegou a imaginar-se a desenhar carros e aviões.

Iniciou na Universidade do Minho o curso que concluiria em Barcelona, de onde voltou com o curso de Engenharia, uma paixão pela Educação e uma apetência muito grande pela Gestão.

Ganhou os primeiros dinheiros como formador, principalmente na área de Eletrotecnia, e um pouco por toda a região do vale do Cávado, atividade em que conheceu a Associação Comercial e Industrial de Barcelos (ACIB), o grande e único amor da sua vida profissional, onde durante 20 anos foi diretor-geral, até ser eleito, em julho último, presidente da Direção.

Vinte anos depois, a ACIB está muito diferente. "Em 1991, quando assumi a direção geral, trabalhavam aqui três pessoas, que inevitavelmente tinham uma visão de secretaria. Estavam sentadas à espera que os empresários cá viessem. Agora temos uma equipa de 60 profissionais com uma atitude proativa, que já ajudaram centenas de empresas a dar passos seguros no sentido da mudança, poupando nos custos, aumentando as vendas e criando PIB e emprego", garante. Com um orçamento anual de seis milhões de euros, 1500 associados que pagam regularmente as quotas e 2500 que as vão pagando quando podem, a ACIB gaba-se de ter ganho influência nacional, mercê da sua forte capacidade técnica.

"Quando os gurus de Lisboa decretaram que a têxtil não tinha futuro e era um setor a abater, nós dissemos-lhes que estavam enganados. O tempo deu-nos razão. Quem tem vindo a aguentar as verdadeiras exportações do país?", pergunta.

Nestes últimos 20 anos, o tecido industrial perdeu muitas empresas de grande porte e teve de enfrentar grandes problemas. Apesar disso, foi-se recompondo, com centenas de pequenas empresas criadas por antigos encarregados e chefes de secção. Barcelos, com os seus 122 mil habitantes, continua a ter atividade empresarial em todas as 89 freguesias e a ser o concelho com mais empresas industriais (2630) de todos os 14 dos do Cávado e do Ave, onde bate o coração da indústria têxtil e de vestuário.

O poder de compra em Barcelos é de apenas 67% da média nacional. Mas como nota João Albuquerque, "mais vale ter um emprego mal pago do que estar desempregado. E 80% dos seus habitantes têm o 9.0º ano ou menos. Mas a ACIB está a ajudar a qualificar a mão de obra, dando formação a 500 jovens, futuros mecânicos, eletricistas, informáticos, profissionais de marketing, e garantindo-lhes estágio em 550 diferentes empresas do concelho.

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