Os últimos 10 anos no Norte em números

Mais de metade dos portuenses são pobres ou correm risco de o ser

Mais de metade dos portuenses são pobres ou correm risco de o ser

O número foi apurado por Agostinho Jardim Moreira com base em dados de organismos oficiais, no ano passado, e dá conta da dimensão do problema social que se instalou no município do Porto na última década.

Mais de metade dos portuenses são pobres ou estão em risco de pobreza, garante Jardim Moreira. "Temos de ter coragem e enfrentar o problema", diz o pároco de Vitória e S. Nicolau, no coração do Centro Histórico do Porto, e presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza. "Sentimos profundamente a queda do Porto, nesta última década", reforça António Cândido Silva, presidente do Banco Alimentar do Porto.

Os portuenses continuam, em média, a ser quem mais poder de compra tem em toda a Região Norte, mas têm vindo a perder terreno a passos largos (ler página anterior). Quem lida diretamente com a população sente-o bem.

No Centro Social da Vitória, Jardim Moreira recebe um sem-fim de pedidos de ajuda para pagar medicamentos, diz, como exemplo. Com recursos cada vez mais escassos, teve de escolher a quem daria o apoio. "Sabe qual é a nossa fasquia? Famílias com uma capitação de cem euros!". Ou seja, se os rendimentos da família forem maiores do que cem euros por pessoa, o centro social já não ajuda. No caso de um casal com um filho, um rendimento global superior a 300 euros já os deixa de fora. "Não consigo ir mais longe", lamenta Jardim Moreira, até porque a aparência é ilusória. "Com esta avalancha de turistas, parece que o Porto está melhor, mas para quem e o quê?", pergunta. E responde: não para os mais pobres que vivem em bairros sociais, os reformados ou os desempregados.

Muitos comem todos os dias porque uma instituição solidária lhes entrega um cabaz recolhido pelo Banco Alimentar do Porto. António Cândido Silva só tem dados para o distrito do Porto, mas os números desfiados são impressionantes: todos os dias, alimenta 90 mil pessoas, através de 300 instituições fixas. Em certos picos, como no verão, trabalham com 100 organizações e a lista de espera já soma outras 160. "Não conseguimos ajudar todos os que precisam", lamenta.

Seriam precisos mais donativos, mas as empresas estão a racionalizar muito mais o consumo e as famílias "já não vivem como há dez anos" e começam a ficar cansadas de campanhas de doação de alimentos. "Muitas organizações replicaram a nossa estratégia, o que leva a uma saturação por parte das pessoas", reconhece António Cândido Silva.

Observatório: é preciso conhecer para decidir bem

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"Não há desenvolvimento sustentado sem conhecimento sério e isento". Ou seja, sem uma análise profunda das causas da pobreza não é possível delinear políticas ativas certeiras. É com base neste raciocínio que Jardim Moreira gostava de ver surgir um observatório de luta contra a pobreza do Porto, mas as tentativas feitas até agora não têm sido frutuosas.

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza assegura que a organização tem o conhecimento técnico e as instalações para levar a análise a cabo. Falta é dinheiro. Quer por isso apelar à sociedade civil e às empresas da cidade para que financiem o observatório. "Por vezes, apoiam causas pontuais, mas aqui estariam a contribuir para um conhecimento estrutural da realidade, para que possam ser tomadas medidas de raiz, eficazes e eficientes", diz.

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